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Foto: Kailani Galhardo

“Outro Prisma” reúne Elo da Corrente e Matéria Prima nos beats do Dr. Drumah

Um dos lançamentos mais importantes de 2025, o álbum “Outro Prisma” juntou 4 lendas do Rap nacional no espírito do bom e atualizado Boom Bap

Salve família Kalamidade! Estamos chegando pra desejar um feliz 2026 para geral que acompanha e fortalece o nosso trampo por aqui. E já começamos o ano com conteúdo novo para vocês e com o selo máximo de qualidade do kalamas, porque vamos trazer aqui uma entrevista sobre o álbum “Outro Prisma”, que reuniu Elo da Corrente, Matéria Prima e Dr. Drumah em um mesmo projeto.

Assustou com esses nomes juntos? Pois é, nós também e por isso resolvemos dedicar um lugar especial para esse grande lançamento de 2025 por aqui. Lançado no mês de outubro, “Outro Prisma” é um álbum de 8 faixas trabalhadas para renovar a nossa fé no Rap como um todo.

Pra começar, temos Dr. Drumah descarregando tudo o que há de melhor nas suas produções de Rap, exaltando os elementos clássicos do Boombap, com uma sonoridade suja, batidas secas, instrumentos extremamente bem distribuídos, que nos transportam para as melhores referências possíveis do gênero.

Além de homenagear a sonoridade clássica do Rap, Drumah também atualiza o seu Boombap enquanto explora sons muito diversos, combinando com colagens e loops hipnotizantes, que se quebram em viradas de batidas constantes, que trazem novo fôlego para as faixas durante sua execução, fazendo do álbum completo uma narrativa que está o tempo todo virando uma nova esquina.

Com produções construídas como ambientes sonoros e cenários perfeitos, era de se imaginar que a caneta e a vontade das outras lendas do Rap que se encontram nesse álbum, estariam mais afiadas do que nunca. E é exatamente isso que vemos nos versos de Caio Neri, Pitzan e Matéria Prima em todas as faixas.

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Os 3 MCs entregam performances inspiradoras, em interpretação e escrita, desenhando para a nova geração, um pouco de tudo o que aprenderam em seus mais de 20 anos de Rap, ao mesmo tempo em que atualizam suas formas de fazer o Rap.

Combinando métricas próprias de cada um, com uma construção coesa entre os 3 artistas, os MCs exaltam a qualidade máxima de suas canetas e relembram o motivo pelo qual Elo da Corrente e Matéria Prima devem ser reconhecidos o tempo todo como verdadeiras bússolas da cultura Hip-Hop nacional.

Para nós do Kalamidade é uma honra poder compartilhar da música feita por esses ídolos, e também ter a oportunidade de receber conhecimentos diretamente desses artistas, além de homenagear o belo trabalho que tanto fizeram pelo Rap em suas trajetórias através dessa entrevista.

Abaixo, trazemos a ideia completa que trocamos com Dr. Drumah, Elo da Corrente e Matéria Prima, sobre o álbum “Outro Prisma”, sobre Rap e a cultura Hip-Hop como um todo.

“Matéria, Drumah e Elo
Quase palavra mágica
Quando é falada, faz o coração se agitar”

Salve família! Primeiramente gostaria de agradecer a disponibilidade de todos em contribuir com a gente, para contar mais sobre a história e os detalhes desse excelente álbum que vocês lançaram. Pra começar o papo eu queria falar primeiro sobre como se deu o movimento de aproximação entre essas 4 lendas do Rap nacional, e da música como um todo, em torno de um mesmo projeto. Contem um pouco mais pra gente sobre como rolou o processo da idealização desse álbum entre vocês?

Caio Neri: A gente se conhece há bastante tempo e sempre curtimos os trabalhos uns dos outros, mas creio que o start da parada foi quando pedimos para o Drumah mandar algumas batidas pra escolhermos uma para o álbum que o Elo está produzindo.

Ele mandou umas 5 e nós curtimos todas, então o Pitzan deu a ideia de paralelamente ao nosso disco produzirmos um EP colaborativo. Nesse meio tempo, o Matéria deu um salve agitando a ideia de fazermos um projeto juntos também, aí foi só ligar os pontos e perceber que essa união das três partes daria liga.

Matéria Prima: Eu sempre admirei o trabalho de todos, e consegui realizar o sonho desse registro, mesmo que feito à distância, e no final deu pra se encontrar e constatar que todo mundo tem a energia compatível pra esse encontro.

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Foto da capa: Matéria Prima / Arte da capa: Caio Neri

Agora aprofundando mais no álbum em si. “Outro Prisma” traz para os fãs de Rap e admiradores da escrita única dos MCs, uma demonstração exemplar do quão ricos podem ser os versos de um rapper que valoriza o papel da caneta na construção da sua arte. A escrita desenvolvida entre Elo da Corrente e Matéria Prima, é carregada de versos que trazem a identidade de cada um dos MCs de formas diferentes em sua forma, mas sempre destacando o potencial lapidado por anos de caminhada de 3 lendas da arte de escrever Rap. Nos versos, vocês enaltecem o passado, parafraseando e citando grandes mestres ao longo do álbum, homenageando os elementos da cultura Hip-Hop e retratando com clareza e atualidade, o presente social e cultural do qual fazem parte. Queria que vocês falassem mais sobre como foi o desenvolvimento da escrita desse álbum?

Pitzan: A escrita desse álbum foi acontecendo, fluindo, na medida em que escolhíamos os beats e os climas foram se criando. A distância e as obrigações da vida às vezes entravam na frente, mas conseguimos alinhar o prisma, por assim dizer.

Caio Neri: Sempre me identifiquei com artistas obtusos e complexos, a arte difícil sempre me tocou mais que a pop, embora nem sempre.

Quando um gênero musical passa a ser mais massificado, normalmente se afasta um pouco da raiz. Isso aconteceu com vários outros estilos de música mas sempre tinha alguém lá na base fazendo um som de vanguarda, tentando expandir a consciência da audiência através da arte pura, propondo algo novo, necessário.

Deve soar clichê, mas quando os caminhos se perdem é necessário voltar ao começo, reconectar com o fundamento. Nosso Rap sempre foi de caneta mesmo, muita ideia por estrofe. O encontro nesse álbum propõe isso, densidade do início ao fim, sabendo de onde a gente veio, reconhecendo quem se é e tudo que nos inspirou e ajudou a formar pra chegar até aqui.

Agora passando para a parte instrumental de “Outro Prisma”. Na produção, o Drumah também contou bastante da sua história na música e no Rap, combinando com excelência pianos, baterias e mais uma grande variedade de instrumentos muito marcantes, para mostrar a identidade única do seu Boombap, que enaltece também as suas origens do Jazz. Como um bom baterista, Drumah mostra todo seu conhecimento na forma como cadencia a presença da bateria nas 8 faixas, ao mesmo tempo em que não deixa de apresentar outros instrumentos e sonoridades, por vezes até atmosféricas, para construir a sua história própria sobre tudo o que pode ser a música Rap. Queria aqui que o Drumah contasse em mais detalhes sobre como foi o processo de produção desse álbum, e o desenvolvimento da sonoridade que ele escolheu trazer para “Outro Prisma”?

Drumah: Foi uma responsa muito grande. Quando recebi o convite do Elo, a primeiro coisa que pensei foi construir uma pesquisa de samples bem lado C, pelo fato do Caio e Pitzan serem também produtores e colecionadores de disco, e as nossas trocas de referências sonoras apontaram o norte para onde a gente gostaria de caminhar, para essa “nova golden era” do Rap e com uns BPM mais baixo.

Daí em diante comecei a produzir os beats pensando na essência de cada MC, em seguida enviava pra eles, sempre com essa linguagem do Boom Bap, Drumless e Jazzy, tudo isso somado aos instrumentos como bateria, percussão e baixo, fazendo esse mix com os samples.

Muitas batidas, eu enviava com poucos compassos, por conta de começar às vezes no sampler SP-404SX ou na MPC 1000, e quando eles aprovaram eu descarregava no FL Studio e começava a trabalhar por lá, buscando essa liga entre um beat e outro e trabalhando a atmosfera do álbum. Minha preocupação era que uma música conversasse com a outra começando a criar a vibe do disco.

Foi uma pesquisa profunda (em relação aos samples), as batidas eu queria que soasse como bateria acústica, então usei alguns loops onde eu mesmo toquei a batera para dar esse som meio com cara de banda, saca? Apostei em outra estética sonora, mas com o espírito do bom e atualizado Boom Bap.

Como é natural, em “Outro Prisma” vocês trazem a questão do tempo como um tema muito recorrente, tanto nos versos quanto na sonoridade apresentada pela produção. Eu vejo que no álbum vocês conseguiram construir uma narrativa que compartilha suas vivências com a nova geração, para assim manter viva a história de gerações passadas e, consequentemente, a história do Rap nacional. Neste álbum, vocês 4 estão contribuindo para contar essa história da cultura Hip-Hop no Brasil, pelo prisma individual de vocês. Queria aqui que vocês falassem mais sobre a importância de fazer esse trabalho coletivo de documentação histórica, entre 4 artistas com mais de 20 anos de caminhada na música.

Pitzan: Em “Entardecer dos microfones” isso fica mais evidente. Acho que isso naturalmente é parte da gente. Nos encontros que temos, a gente relembra alguns momentos de vivência que nos trouxeram até aqui e a vivacidade dessas imagens acabam entrando em nossas letras. E o Rap, esse elemento mais destacado do Hip-Hop, é basicamente construído sobre o que veio antes.

Aproveitando essa oportunidade de trocar ideia com artistas que passaram por algumas gerações dentro do Rap e da indústria musical, gostaria que vocês compartilhassem as suas visões sobre o cenário e a lógica dos lançamentos e da produção musical atualmente. Na divulgação de “Outro Prisma” vi vocês destacando a importância do público ouvir os álbuns e valorizar essa experiência frente à lógica das playlists, por exemplo. Queria saber mais sobre essa importância de fortalecer a narrativa através dos álbuns, e como vocês enxergam o atual cenário da indústria musical em comparação com o caminho que vocês já trilharam até aqui.

Pitzan: Eu acho delicado tratar desse assunto porque soa como o tiozão que fala “no meu tempo era assim”, mas, por exemplo, a experiência é fragmentada, músicas são tiradas de contexto e às vezes um trabalho tem um conceito que o amarra e deixa cada faixa mais potente do que se escuta numa playlist.

Eu não acho que todo mundo faz álbuns pensando num conceito, mas há pelo menos um contexto estético e discursivo que pode ser valorizado.

Ainda nessa linha, queria falar um pouco com vocês sobre esse cenário underground dentro do Rap nacional. Logo no início de “Outro Prisma”, somos lembrados da obra do Quarteto em Cy, com um trecho da faixa “Underground”, de 1972. Hoje, vocês podem também ser reconhecidos como parte dessa esfera underground dentro do cenário nacional do Rap, esfera essa que, na minha opinião, tem entregado os trabalhos mais valorosos e essenciais para a evolução da nossa cultura Hip-Hop e da música Rap no Brasil já há alguns anos. Gostaria que vocês falassem mais sobre a visão de vocês desse cenário underground, que tem os desafios inerentes da trajetória de um artista com menos recursos e reconhecimento dentro de âmbito geral, mas que consegue se manter vivo e pulsar vida também para o movimento e a cultura como um todo.

Caio Neri: Pra ser bem sincero, considero a geração de MCs brasileiros da qual fazemos parte, das mais embaçadas do planeta. São manos e minas que fizeram o Rap BR chegar em mais gente, por conta da linguagem e estética apuradas.

Quando o Elo apareceu junto com a Rhima Rhara, existiam outras dezenas de jovens grupos extremamente inspiradores e originais, com seus próprios versos e batidas, não existia mainstream, não existiam esses festivais gigantescos, todo mundo era underground salvo poucas exceções. Tava todo mundo cavando.

O artista mais rua, mais vida real, normalmente é o que coloca o sarrafo da arte lá em cima, porque tem conexões mais intensas e humanas com o que lhe rodeia, não molda seu som conforme as normas vigentes do mercado, então consequentemente cria de forma mais livre, leve.

Matéria Prima: A gente se conheceu num momento em que o Rap nacional começou a se aventurar esteticamente e discursivamente. A curiosidade e as possibilidades eram maiores do que antes e a gente se identificava nesse ponto.

A maioria dos artistas que conhecemos nessa época continua a criar a partir da perspectiva de autenticidade e originalidade, acompanhando o fluxo criativo dos dias de hoje. E isso é um fenômeno mundial se tratando de Rap, com artistas com mais de 30 anos de carreira fazendo os trabalhos mais interessantes dos últimos anos.

Para fechar o nosso papo, eu gostaria de puxar um pequeno depoimento de vocês sobre essa temática trabalhada tão bem no álbum, que fala sobre a longevidade do artista, sobre continuar fazendo arte, fazendo música, fazendo Rap após duas décadas. Nesse cenário tão desmotivador para os artistas, de tantos desafios e mudanças, queria que vocês falassem sobre a importância de celebrar esse “entardecer dos microfones”, essa vida longa dos artistas que têm a coragem de se manter ativos.

Caio Neri: No meu ponto de vista nosso caminho tá longe de um fim, primeiro porque a música também tem fins curativos, terapêuticos, nos move e equilibra.

Segundo que, observando o panorama da cena, considero nossa capacidade criativa acima da média, além de necessária e atual, sem pretensão de ser mais que ninguém, mas tamo aí vivão, lidando e compreendendo os meandros dessa vida com outros olhos depois de tanta vivência no meio. Minha hora é agora e eu permaneço com fome.

Se você gosta de Rap, procure saber e compreender sobre o Hip-Hop também. Essa cultura é linda e salva vidas!

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