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A comunidade como o primeiro elemento do Hip-Hop

A violência na cena do Rap nos EUA e a comunidade como o primeiro e mais fundamental elemento da cultura Hip-Hop.

Numa comunidade gringa sobre música no Reddit, eu vi um post de uma pessoa comentando sobre como a cena de Rap e Trap estadunidense anda perigosa, com muitos assassinatos, tentativas e afins. Sei que no Reino Unido também tem ocorrido uma escalada na violência entre MCs e, sendo bem sincero, sempre quando via surgir alguma treta ou diss no twitter, ou qualquer rede social, eu ficava me perguntando se dessa vez nós, aqui no Brasil, vamos atingir um ponto em que haverá violência para além das rimas e se isso será algo sem volta.

Fiz a escolha acertada de ir atrás da fonte do post e não demorou muito para perceber que a situação é mais complexa do que discussões e brigas de twitter (na verdade, elas acontecem no instagram por meio de indiretas). Parte dos casos envolvem MCs de Trap e Drill que, supostamente ou explicitamente, integram gangues e usam suas músicas e clipes para fazer referência às suas gangues através de gírias e gang signs, ameaçar seus rivais e relatar as consequências de ataques realizados, a lista é enorme.

Um caso que exemplifica isso é o do Young Thug, que fez tanta referência ao conflito entre as gangues de Atlanta que está sendo acusado de integrar e liderar uma dessas gangues, a YSL, que pode ser lida como Young Slime Life (nome da gangue) ou Young Stoner Life (nome da gravadora do artista). Numa coletiva de imprensa, a promotora responsável pelo caso afirma que redes sociais são, hoje em dia, uma “ferramenta maravilhosa” para as acusações que eles levam aos tribunais.

Outro exemplo em território do Tio Sam são os conflitos atualmente protagonizados pelos Woods e os Choos no Brooklyn, bairro da cidade de Nova York. Diferente do conflito de Atlanta, o conflito do Brooklyn tem como raiz grupos de Drill ao invés das gangues propriamente ditas. Isso significa que, em ambos os grupos, membros de gangues rivais se integram e rimam juntos, algo que, aparentemente, é único de Nova York.

Algo que não é único em NY é a resposta da polícia, a qual chegou ao ponto de criar um departamento responsável por investigar a relação de MCs e grupos com ataques e assassinatos relacionados à cena de Drill de Nova York. O departamento é chamado de Hip-Hop Police ou Enterprise Operation Unit, sendo esse departamento responsável pela prisão de 6ix9ine, Bobby Shmurda e outros 14 membros da GS9.

É importante ressaltar que esse aparelhamento de forças policiais como ferramentas de repressão de jovens artistas relacionados ao Hip-Hop, ou qualquer outra cultura marginal, não depende de disputas entre gangues ou grupos e que esse mesmo departamento é acusado de manter condutas predatórias contra MCs de Nova York, estejam eles envolvidos ou não em conflitos.

Além das prisões, Nick Blixky e Pop Smoke, que integravam esse contexto de gangues, foram assassinados e (apesar de no caso de Pop Smoke a probabilidade ser baixa de haver relação com os conflitos entre os grupos do Brooklyn) parece que essa violência continua o perseguindo ainda após a morte. O Suspeito soltou duas threads no twitter comentando sobre o Drill no Reino Unido e o contexto das gangues na Europa Ocidental/Inglaterra que explicam bem o contexto da terra da safada (ou da rainha, se preferir). Apesar de algumas diferenças, as consequências são essencialmente as mesmas.

Refletindo sobre minha experiência como produtor de eventos, eu me sinto contente de fazer parte de um coletivo que organizou algumas festas e nunca, em momento algum, precisou chamar segurança sequer para separar brigas ou desarmar alguma discussão que estivesse a ponto de escalar para algo mais grave. Apesar de o contexto do crime organizado ser completamente diferente em São Paulo e nos Estados Unidos, eu sinto que ainda existia e existe margem para coisas desse tipo acontecerem. Me lembro de, em algum momento da Virada Cultural de 2013, passar por um palco de Funk e ter de desviar de duas ou três brigas em menos de 10 minutos. Não gosto de associar a violência ao Funk e não acho que seja algo inerente aos bailes, muito pelo contrário. O contexto da Virada Cultural é algo a ser estudado a parte mesmo e as brigas não se restringiam aos palcos dedicados ao Funk, mas por ser um gênero com um público tão próximo do público do Hip-Hop, muitas vezes sendo o mesmo público, isso me preocupava e ainda me preocupa.

Sendo sincero, eu não quero que isso seja confundido com um papo de não-violência, paz e amor, mais livros e menos armas, etc. Quem é de quebrada ou favela vive em um contexto de tensão constante por conta de dois fatores: uma bomba-relógio armada por uma desigualdade não produzida por nós, a qual gera o medo de alguém do seu entorno se voltar contra você, e uma série de instituições que usam essa bomba como motivo para massacrar nosso povo todos os dias, de todos os anos, isso se estendendo da polícia ao judiciário. É interessante notar que o contexto em que o Hip-Hop surge nos EUA tem forte relação com as tensões sociais geradas pela pobreza arquitetada com o objetivo de segregar e manter na miséria a população negra estadunidense: briga entre gangues.

Eu acho injusto colocar nas mãos da cultura Hip-Hop a responsabilidade de salvar a população negra das misérias geradas pela escravidão e colonização de nossos continentes. Mas, para mim, é inevitável pensar que nossas formas de arte (do Jazz, ao Grafite, ao Samba, ao Funk) têm algum papel nisso tudo. Ao mesmo tempo, para mim, é inevitável pensar que não existe nenhum movimento artístico ou cultural de relevância que não tenha forte influência de uma comunidade ativa e também relevante. O Rap estar em alta no Brasil não é uma coincidência, isso se deve muito ao notável crescimento das batalhas de rima e dos slams nos últimos 15 anos. Da mesma forma, o Hip-Hop surge nos EUA como um movimento de festas de bairro, como uma solução para o conflito entre as gangues de Nova York.

E é daí que vem minha epifania mais recente através da conversa que eu tive sobre a violência na cena do Rap, Drill e do Trap nos EUA. É difícil ler esse tipo de coisa e não pensar que, de alguma forma, a cultura falhou ou está falhando. É difícil para mim escrever isso sem ser tomado por um profundo sentimento de estar agindo como pedreiro de obra pronta, que chega atrasado só para dar opinião sobre o que talvez tenha saído errado. Mas se o Emicida pode dizer que a gente tem que botar a palavra amor na bandeira do Brasil, eu me sinto no direito também de dizer que foi um erro não considerar a comunidade, o primeiro e mais fundamental elemento da cultura Hip-Hop.

A ideia de inserir outros elementos como fundamentais na cultura Hip-Hop não é nova. Alguns consideram o conhecimento como o quinto elemento da cultura, outros consideram a moda de rua e até o empreendedorismo. Minha primeira ideia foi a de que a comunidade deveria ser o quinto elemento e que foi um erro considerar o conhecimento como o quinto, sucedendo DJ, MC, Grafitti e o Breaking. Mas pensando um pouco mais, não foi difícil chegar à conclusão de que nenhum desses elementos tem valor se não houver uma comunidade viva e próspera para usufruir desses elementos.

Playboy nenhum da MTV estadunidense daria ideia para o Rap se já não existisse um público dando atenção para o gênero. Levaria uma eternidade para o Grafitti ou o Breaking serem reconhecidos, e conhecimento encastelado, restrito, só serve ao ego de quem o acumula, assim como todo dinheiro gerado pelo empreendedorismo dentro da cultura, mas seguindo todas as regras do (ler em tom velho e tenebroso) sistema capitalista. DJs talvez sejam um caso à parte mas, ainda assim, valeria a pena? Quanto tempo sobreviveriam se apegando à sonoridade das vertentes do Hip-Hop?

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Para além da ideia de sucesso gerado e apoiado por uma comunidade, a ideia de comunidade é a ideia mais forte no que diz respeito a resistência e contra-ataque às penúrias que vivemos. Talvez seja o expoente da função que define o valor que damos a nós mesmos, ao ponto de nós nos tornarmos capazes de nos criticar sem precisar partir para recursos extremos de violência contra nós mesmos. Sei lá, eu ficaria muito mais tranquilo se estivessem levando a sério esse verso do Anderson .Paak na track da A Tribe Called Quest de título, Movin Backwards (“Andando para trás” em tradução livre), mas parece que essa espécie de auto ódio tem um apelo muito maior que a ideia de se organizar para evitar a morte dos nossos, ainda que isso custe a vida de MCs geniais como o Nipsey Hussle ou o Pop Smoke.

O arqueólogo David Wengrow em uma entrevista para o canal Democracy Now sobre seu livro mais recente escrito em parceria com David Graeber, comenta sobre o caso de um líder e intelectual indígena chamado Kondiaronk, integrante do povo Wendat, o qual era consultado por colonizadores europeus acerca da organização das colônias na hoje chamada América do Norte. Os comentários de Wengrow levam a entender que esse líder indígena achava absurda a ideia de pobreza, de pessoas viverem sem abrigo, convivendo com a fome enquanto parte da colônia, de forma geral, prosperava. Considerava isso absurdo pois não era algo presente nas sociedades indígenas da região.

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É curiosa a ideia de que muitas dessas dificuldades com que convivemos hoje em dia não são criações nossas. E é ainda mais curioso perceber que, com o passar do tempo, aquilo que era nossa raiz, nossa base, passou a ser visto por muitos como um detalhe. Nós brasileiros temos o exemplo das escolas de samba para entender o efeito que isso poderia ter, tenho visto com bons olhos o conceito de posse sendo retomado por MCs como Don L e Galo de Luta, podendo também apontar para alternativas de organização dentro do Hip-Hop. Eu acredito muito que ainda há tempo e diversas formas de se iniciar algo nesse sentido, resta saber se há vontade.

Texto por Douglas Agyemang

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