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A trilogia Lo-Fi de Nightmare Beats

Um dos grandes beatmakers nacionais do Lo-Fi, Nightmare Beats nos contou sobre o processo produtivo da trilogia "Lo-Fi para Churrasco" e muito mais.

A produção de beats no Brasil vem alcançado novos espaços a cada dia, uma contribuição para isso foi a explosão dos sets de música Lo-Fi durante a pandemia, mas esse estilo ainda segue em alta com as pessoas ouvindo querendo relaxar, fazendo alguma tarefa, estudando, trabalhando ou com o fone de ouvindo pelas ruas viajando nos pensamentos. Um dos grandes beatmakers desse estilo é Mailson Moraes Santiago, mais conhecido como Nightmare Beats.

Residente de Porto Alegre (RS), o produtor tem vários trabalhos lançados, um dos mais impactantes foi a trilogia “Lo-Fi para Churrasco”. Batemos um papo com o Nightmare, que nos contou como foi o processo produtivo desse e de outros trabalhos, as dificuldades de um beatmaker no Brasil, as inspirações, influências e o quanto a música é importante em sua trajetória.

Se ligue ai!

O Começo Na Música

Meu primeiro contato com a música foi dentro de casa, mexendo nos discos do meu pai, desde discos de partido alto a Iron Maiden. Ao mesmo tempo minha mãe me ensinou, e aos meus irmãos, a cantar com hinos da igreja. A primeira vez que eu cantei na igreja eu tinha por volta dos 12 anos, foi horrível, mas foi ali que eu peguei gosto pela música.

Eu comecei a produzir beats na metade do ano de 2017. Me afundei em umas playlists de Jazz que eu encontrava no YouTube e logo fui migrando pras mixtapes de Hip-Hop e Jazz. Até que um dia de tanto escutar eu comecei a visualizar, mentalmente, a estrutura daquele beat.

Daí eu comprei uma controladora e instalei o FL studio no meu notebook para estudar e praticar como os beats eram feitos. Fui fazendo alguns, mostrei pra uns amigos meus que gostam de Rap, eles sempre me deram a real, disseram que estava bom e eu fui indo até chegar onde cheguei.

Lo-Fi para Churrasco Vol.1 – O Início da Trilogia

Tudo começou como uma piada que fiz com um amigo meu, “bah, imagina uma tape chamada Lo-Fi para Churrasco?“. A gente riu naquele momento, mas depois eu vi que era um nome bacana e que podia render algo bom nisso.

No Vol. 1 eu procurei aplicar tudo aquilo que entendia sobre Lo-Fi ao mesmo tempo em que eu me aventurava em algo mais arrojado. Os nomes das tracks são sobre coisas que sempre fizeram parte do churrasco que a gente fazia na casa dos meus pais ou parentes.

Mas digo com tranquilidade que o álbum chegou longe devido à arte de capa do Juan Calvet. Quando ele começou a fazer a arte o PC dele deu pau e eu atrasei o lançamento da tape, justamente porque eu queria muito a arte dele presente nesse trabalho. E valeu a pena ter esperado.

Lo-Fi para Churrasco Vol. 2 – A História do Negro no Brasil

Inicialmente eu faria uma trilogia somente instrumental, porém eu queria dar um passo a mais enquanto produtor e artista, e ao mesmo tempo mostrar que eu conseguiria encaixar peças diferentes nesse quebra-cabeça que é produzir um álbum.

Pude contar com o trampo da Camila Mascarenhas na assessoria de Imprensa; do Juan Calvet com as artes de capa e contracapa; do Lucas Araujo Sedrez com a animação do single de lançamento; da animação da Fernanda Maciel pro clipe da track “Sankara”; da animação gif do mongehann pro clipe da track “Jones”; e da Ana Amélia com a diagramação dos releases.

Já deixo a dica pra quem tá iniciando como produtor e quer lançar seus projetos solos, busque assessoria, não só de imprensa, é muita coisa pra lidar ao mesmo tempo e talvez você se perca no meio do caminho.

Eu queria contar sobre pessoas negras que são importantes na história, seja ela regional ou mundial, não é à toa que elas estão na capa do álbum e nos nomes de algumas tracks. Ao mesmo tempo em que eu mantive a pegada suja nos beats eu quis trazer novos elementos para dentro do álbum, a faixa “Central dos Pensamentos Frágeis” é a que eu mais experimentei e a Ingridis trouxe toda uma carga mais complexa para essa track.

Lo-Fi para Churrasco Vol. 3 – Celebrando a Vida

Tanto o Vol.2 quanto o Vol. 3 foram desenvolvidos durante a pandemia. O processo de produção do 2 foi um pouco mais pesado do que o 3, então acabei conseguindo desenvolver uns atalhos para a produção desse álbum. Diferente dos outros dois, eu comecei o final da trilogia na segunda semana de janeiro, convidando a Andressa e a Fernanda pra participarem da produção do álbum.

Esse volume foi o encerramento de um ciclo de histórias que pude contar junto dos artistas que toparam participar, então decidi que o álbum estaria se passando dentro de um churrasco. Algumas músicas são os artistas contando o que se passou com os mesmos durante esse tempo que a pandemia acontece, enquanto outras músicas e beats são eu apresentando pra quem está presente nesse churrasco alguns trabalhos prontos que logo vão sair e celebrar aqueles que ainda estão com a gente e a memória daqueles que a gente perdeu.

Num aspecto sonoro eu busquei explorar coisas novas, desde a maneira que eu mixo minhas baterias até o jeito que eu reorganizo um sample, acredito que todos que participaram do álbum conseguiram aproveitar ao máximo o que os beats puderam proporcionar para cada um, seja do beat mais calmo até o beat mais sujo, geral se entregou de uma maneira muito bonita.

O Trabalho Solo do Beatmaker

O que me fez escolher esse caminho foi o fato de que eu queria que as pessoas conhecessem meu som através de um trampo autoral meu, porque muitas vezes o produtor/beatmaker fica meio apagado dos méritos alcançados pela track por conta que as pessoas focam muito no que o MC/Cantor(a) tá dizendo na letra.

Eu sou super incentivador de que os beatmakers lancem suas tapes instrumentais. Têm muita gente que produz umas paradas insanas que resolveu fazer isso nos últimos anos e que têm causado um abalo nas estruturas e fazendo eu pensar: “é, tenho que estudar mais”. Se a gente buscar mais afundo é possível encontrar tapes que vão desde o Boombap até o Drill mais fritado possível, é sempre bonito quando eu me deparo com alguma tape nessa pegada.

A gente é artista também, não é porque é só uma track instrumental que você não vai contar alguma história nela, J. Dilla fez isso em uma track do “Donuts”.

Nightmare Beats Produzindo

Eu uso o FL Studio e a Maschine para produzir meus beats, algumas vezes eu pego um contrabaixo emprestado quando quero deixar meus graves mais groovados.

Eu geralmente começo catando samples na internet, Vinyl Frontier e Andre Navarro, são minas de ouro, só coisa rara e boa pra tirar uns sons bons. Depois que eu decido a maneira que o sample vai ficar eu vou adicionando os outros instrumentos que eu quero colocar na track e vou testando até eu sentir que já tá bom, eu não gosto de colocar muitos instrumentos nas minhas tracks, pra mim, parece que fica poluído.

Quando eu monto um beat com um artista eu busco ter uma conversa sobre referências e sobre a vida, isso acaba ajudando a decidir qual caminho o beat pode acabar tomando, fica a dica, uma boa troca de ideia pode ajudar a desenvolver beats sensacionais.

Influências e Inspirações de Nightmare Beats

KL Jay, Sarah the Instrumentalist, DJ Premier, RZA, J. Dilla, Black Alquimista, Sono TWS, Wondagurl.

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