Na minha escola dos sonhos Hip-Hop é PPP (Projeto Político Pedagógico)

A educação e a escola que eu queria para mim, para você e para os meus

Eu acredito muito na ideia que somos resultado de trocas. Eu não sei onde ouvi isso e confesso que nunca me aprofundei nesse conceito. Mas eu me aproximo muito da ideia de que tudo que trazemos hoje nas nossas vidas são resultados de relações anteriores. O ser humano é um ser sociável e construído a partir de trocas. Exemplo: você nasce em um núcleo familiar. É esse primeiro núcleo que vai te imbuir de valores, crenças, hábitos e convenções sociais. Falar, andar, atenção na hora de atravessar a rua, por favor/obrigado/de nada, certo e errado, respeitar os mais velhos, comer de boca fechada, xixi é no banheiro, etc., etc., etc. (já reparou o tanto de coisa que uma criança aprende no comecinho da vida?).

Suas primeiras trocas como ser humano são com essas pessoas. Esse núcleo se apresenta de fundamental importância para a formação do indivíduo por ser os primeiros passos da socialização. O processo que citei assim é conhecido como a primeira socialização ou socialização primária.

Início das Trocas: Socialização Primária

Partindo do pensamento da professora Juliana Bezerra, na socialização primária […] a criança tem contato com a linguagem e vai compreendendo as relações sociais primárias e os seres sociais que a compõem. Além disso, é nesse estágio em que são interiorizados normas e valores. A família torna-se a instituição social mais fundamental desse momento […].

Podemos ver a socialização primária como o início da caminhada de todo ser humano quando ainda é pequenino. Nesse momento, a construção da nossa identidade cultural está em curso. Os valores que falamos anteriormente estão sendo apresentados e assimilados por nós, doce crianças. Mas ninguém vive só no ninho né tio? Chega o momento em que temos que socializar com o mundo para além da nossa família. Chega a hora da socialização secundária!

Seguimos trocando: Socialização Secundária

Na socialização secundária Juliana defende que: “o indivíduo já socializado primariamente vai interagindo e adquirindo papéis sociais determinados pelas relações sociais desenvolvidas, bem como a sociedade que está inserida”. Aqui, a criança passa a socializar com os vizinhos, amigos da rua, o atendente da padaria, as meninas do parquinho, os amigos do futebol, a galera que empina pipa, a tia que vende doce na rua de baixo, a tia da escola, os professores, as professoras, os amigos da escola, as amigas, o tio da perua e mais inúmeros seres sociais em diferentes espaços que passaram pela vida dessa criança.

A socialização secundária é o momento que os valores, crenças e culturas que a criança trouxe de casa passam a ser colocados em oposição com os valores, crenças e culturas de outros indivíduos. E é aqui que as coisas começam a ficar menos coloridas.

Olhando para a sociedade que temos hoje é correto afirmar que essa oposição de valores se dá, muitas vezes, de maneira violenta e opressiva. Espaços como a escola, por exemplo, nos fazem pensar: qual a socialização secundária que ocorre ali? Quais valores, crenças e culturas são opostas e/ou sobrepostas? O quanto esse espaço está presente na forma do indivíduo e quais marcas ele deixa? E como as coisas acontecem nesse importante espaço de socialização – a escola – quando o Hip-Hop está presente?

Bom, pra seguir nesse rolê de observar a função da escola na segunda socialização, é fundamental ouvir a faixa que me fez entrar nessa viagem que você está acompanhando.

Thiago Elninõ a lousa o giz e a carteira

O negro, dentro da realidade de padrões pré-estabelecidos, na maioria das vezes com condutas eurocêntricas, enraizadas em valores preconceituosos, se encontra incapaz de se enxergar como parte da sociedade (BARBOSA; ARAGÃO, 2017). 

Eu não conheci o trampo do Elninõ até 2017. A Yume foi quem me apresentou o trampo dele, e minha porta de entrada para a obra foi essa faixa. Na época eu me recordo de ter curtido muito, não só a estética que o rapper carrega, trazendo elementos da sua crença nas religiões de matrizes africanas, mas a essência noventista nos beats, na métrica e temática que compõem sua obra. Anos depois ouvindo essa faixa de novo e me apegando mais ao conteúdo que o MC abordava, eu me transportei para sala 12 da 6ª série A na Escola Estadual Emygdio de Barros, na zona oeste de São Paulo.

Escola Prof. Emygdio de Barros… ô lugar que eu odiava! (Divulgação)

Elninõ apresenta nos seus versos a socialização secundária que temos em curso na vida de crianças negres atualmente dentro de algumas escolas. Ele recorda dos conflitos silenciosos que as mesmas enfrentam durante 40 minutos de aula. Seus versos apresentam o quão distante é a vida de uma criança preta de quebrada e a história que a escola conta como sendo única e verdadeira. E a tentativa de enquadrar essa mesma criança nesse mundo que o sistema educacional ilustra é um processo planejado, cruel e traumático.

Mano, vou te falar ein, ô lugar que eu odiava
Eu não entendia porra nenhuma do que a professora me falava
Ela explicava, explicava, querendo que eu
Criasse um interesse num mundo que não tinha nada haver com o meu
Não sei se a escola aliena mais do que informa
Te revolta ou te conforma com as merdas que o mundo tá
Nem todo livro, irmão, foi feito pra livrar
Depende da história contada e também de quem vai contar

Thiago Elninõ – Pedagoginga  (A rotina do Pombo – 2017)
O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é bOTnVguUjGyKS70Y1bW-2FF-4bpHOBgv98iLi4sYK4UXzYLl8ylCV-i0rZbmNfKKMUY2GavU83M-Y_qsRMc_Tz3yWALlBORUsr97gqBJu5smekSo32QFwjrDrh8eFdJFXxhH1uez

O ambiente escolar se apresenta, muitas vezes, de maneira hostil e nada convidativo para esse jovens que trazem de casa outras vivências e crenças. O processo da troca não se dá de maneira construtiva, mas de forma impositiva e vertical, onde a cultura que a criança traz é desconsiderada e dá lugar à cultura, às crenças e valores que a escola entende como certas (muito parecido com um certo processo operado por pessoas de pele branca num certo continente com pessoas de pele negra. É… nem tudo é coincidência titio).

Agora imagine você, ou tente se recordar, quantas vezes na aula de História, pessoas fisicamente parecidas com você foram retratadas unicamente como inferiores, serviçais, menos evoluídas ou perigosas? Quantas vezes as manifestações que você frequentava fora do espaço escolar, como as próprias giras de terreiro – que Thiago devia frequentar – foram mostradas sendo atacadas, perseguidas e lidas como algo errado?

A escola é um fator determinante para o processo de auto ódio em jovens negros e negras que passam a não querer parecer com aqueles seres fracos, feios e desprovidos de saberes mostrados nas aulas. Nesse processo surgem os apelidos, surgem as “brincadeiras” e surge a solidão. Isso somado a um sistema que se assemelha em modo e forma ao sistema prisional (já reparou que assim como as cadeias as escolas têm grades, filas, chamadas, horário para ficar no pátio, inspeção e sirene para dizer onde e quando ir?), temos um acumulado de violências que marcaram para sempre a socialização secundária dessa criança. Conforme isso se segue durante os anos dentro da sala de aula o resultado é (FAVOR ASSISTA O VÍDEO!):
https://www.youtube.com/shorts/3_Eqsdfhgi4

Mas ao voltar à letra de Thiago encontramos uma luz de salvação de todos esse universo descrito acima.

Pra mim contaram que o preto não tem vez
E o que que o Hip-Hop fez? Veio e me disse o contrário
A escola sempre reforçou que eu era feio
O Hip-Hop veio e disse: Tu é bonito pra caralho
O Hip-Hop me falou de autonomia
Autonomia que a escola nunca me deu

Thiago Elninõ – Pedagoginga (A rotina do Pombo – 2017)

Na minha época de escola eu voltava andando para casa com um mp3 (que depois virou um celular Samsung com o tempo) cheio de Rap. Hoje eu vejo que toda aquela derrubada de auto estima, toda aquela doutrinação e toda aquela diminuição do meu eu que acontecia dentro da sala de aula eram cuidadosamente curadas na volta pra casa ouvindo vozes negras, periféricas, poderosas, imponentes que me despertavam o desejo de conquistar.

Diferente da aula de História que eu via o Imperador da Macedônia que no ano XI A.C (zero precisão nessa info porque né, não sou obrigado a saber essa parada) expandiu seu território até o que hoje chamamos de Rússia e não me gerava nenhuma emoção. Ao ouvir os versos do Mv Bill em Só Deus Pode me Julgar eu me relacionava com a história, eu conhecia pessoas que viviam ou viveram aquilo, eu pensava sobre o que estava sendo protestado, eu conversava sobre questões sociais com pessoas ao meu redor. Ao ser apresentado a algo que se relacionava comigo e com a minha história de vida, eu automaticamente me envolvia com aquilo. Quando eu era obrigado a aprender algo que não me tocava, e que por vezes diminuía pessoas que tinham representatividade, o resultado era o desinteresse.

A conclusão que chego é: para uma escola melhor, a cultura Hip-Hop é uma das opções de aproximação entre aluno e o ensino! Imagine como seria se ao chegar às 07h na primeira aula eu tivesse um rádio tocando Capítulo 4, Versículo 3 e o tema da aula fosse relações e posição social? Ou entrar em uma aula em que versos da faixa Brasil com P do mestre Gog estão servindo de material para uma aula de gramática?

Na minha escola dos sonhos, ter o Hip-Hop como um ponto de partida para reflexões é uma ponte muito rica que faz conexões firmes com os alunos. No episódio do Apagão de Nova York em 1977 podemos falar sobre desigualdade social, liberdade, direito e deveres e outros assuntos que se assemelham ao nosso dia a dia como periféricos num país de terceiro mundo desigual metido a pseudopotência em ascensão.

Apagão em Nova York 1977. Divisor de águas da cultura Hip-Hop. (Divulgação)

Peço que você não me entenda mal! Eu não escrevo esse texto com o objetivo de dizer que a escola que temos hoje é um erro completo, que a cultura Hip-Hop é a salvação, o começo, o meio e o fim de tudo nem que é só colocar uma músicas dentro da sala de aula para resolver o problema. É preciso preparo, estudo, mão de obra qualificada e uma sociedade mais aberta a culturas como o Funk, Rap, Forró, Macumba e outros estilos que têm sua raiz nas quebradas e são vistas como rebeldes ou apenas “para comemorar”, sem levar em conta a importância intelectual das mesmas que não está majoritariamente em livros ou em espaços legitimados de saber como as universidades.

Vale ressaltar que existem sim escolas que não seguem essas estruturas criticadas aqui neste texto e propõem uma educação mais construtivista que educa com amor e respeita o indivíduo (Salve Paulo Freire! Tu é Ref!). Escolas como a Escola da Ponte (particulares) ou Amorim Lima (públicas) carregam projetos que pensam a escola feita pela e para as crianças buscando formas de construir uma relação mais humana e menos traumática.

Vivência de grafite na escola (Divulgação)

Mas fazendo o recorte do Hip-Hop, eu gostaria de citar alguns projetos que supririam os buracos que foram deixados pelo nosso ensino tradicional e defasado. Projetos que, ao meu ver, se estivessem no currículo escolar, trariam grandes contribuições para a formação desses estudantes. Se liga que daora!

Xemalami – Rap e Xadrez

Original do Grajaú, o coletivo Xemalami (Xeque-Mate La Misión) formado por Drezz e Hyt nasce em meados de 2000 e encontra no xadrez uma ferramenta política de luta, transformação e entendimento de mundo a partir do tabuleiro. O coletivo passa a chamar a atenção dos jovens da região que começam a se encontrar numa biblioteca abandonada da região para ensaiar as técnicas do xadrez e incentivar o hábito da leitura. Tudo ao som de muito Rap. Com o tempo o coletivo deu início ao projeto “Xadrez sem Muros” ocupando praças do bairro e promovendo eventos em torno da propagação do xadrez como esse pensamento político.

Para além do xadrez o coletivo atua na cena Rap tendo dois discos lançados e alguns singles na rua.

Pedagogia Hip-Hop: Consciência, Resistência e Saberes em Luta

A artista, arte educadora, produtora cultural e escritora Cristiane Correia Dias, A.K.A B-Girl Cris é autora do livro “Pedagogia Hip-Hop: Consciência, Resistência e Sabres em Luta” que prevê reescrever a história sobre a população negra de forma criativa. Caracteriza-se pelo conjunto de experiências relacionadas às histórias e às práticas culturais que nos foram negadas com base nas atividades realizadas a partir dos elementos que formaram a cultura Hip-Hop – Breaking, Graffiti, DJ, MC, funcionando como disparadores de conhecimentos para que os jovens (re)elaborem suas identidades ao mesmo tempo em que nos possibilita a construção de uma reflexão sobre a cultura do racismo e das violências que recaem sobre o corpo negro. B-Girl Cris baseia sua pesquisa na permanência do feminino dentro do universo Hip-Hop, uma vez que a grande maioria dos precursores dessa arte são pessoas do gênero masculino e heterossexuais. Nas palavras da própria:

Pensar o corpo feminino dentro da cultura Hip-Hop, com suas nuances e performances, seria uma forma de desnudá-lo sem as amarras das normas da sociedade.

B-Girl Cris

Disco e Brinquedo Uh!ManasTV

O projeto do coletivo Uh!ManasTV tem como objetivo produzir uma discotecagem voltada para as crianças. Puxado pela DJ Carlu, a proposta é levar o universo da discotecagem para as crianças, produzindo um setlist com músicas infantis. Sempre vestida de alguma personagem do universo das crianças, como a Mulher Maravilha, por exemplo, A DJ prova que a discotecagem também é feita para mães e suas crias.

O projeto leva uma bandeira contra uma prática muito silenciada e comum no meio do entretenimento na noite de SP. Por ter filhos, muitas DJs são esquecidas das gigs e excluídas do círculo da discotecagem sendo substituídas, geralmente, por DJs homens, que às vezes também têm seus filhos, mas né: “O rapaz precisa trabalhar né gente! Vocês também reclamam de tudo”. Como forma de resposta a tudo isso, o coletivo produz uma gig onde as crianças são bem-vindas, as mães são bem-vindas (no comando das quadradas ou não), as família é bem-vinda, um ambiente perfeito e educativo por si só para os pequeninos. Disco e Brinquedo acontecem na programação da Uh!Manas na Twitch.

Seja pelo Hip-Hop ou por outros meios, merecemos uma escola melhor e essa é uma responsabilidade coletiva. Essa foi só uma viagem de um DJ curioso que se arrisca, de maneira imprudente, em falar sobre assuntos pedagógicos (tudo no amor! Sem ofender ninguém <3).

Como falei lá em cima: eu acredito que somos construídos de trocas. Logo, bora trocar umas ideia sobre educação.

Leia Mais
A história do Boom Bap
%d blogueiros gostam disto: