Gau Beats: a identidade nacional nos gêneros gringos

Grime com Baião, Drill com Pagode e Drum ‘n’ Bass com Bossa Nova: Gau Beats destaca o potencial da musicalidade brasileira em suas produções

No Perfil de hoje, desembarcamos na zona norte de Porto Alegre (RS), para trocar uma ideia sobre produção musical com uma Beatmaker e DJ, que vem trazendo de forma única os elementos e a identidade da música brasileira nas suas produções: Gau Beats!

Adrienni Rodrigues da Rosa, mais conhecida como Gau, estreou na produção musical em 2021, já trazendo como destaque a sua característica de unir diferentes sonoridades a gêneros como Grime, Drill, UK Garage, Drum ‘n’ Bass, Trap, entre outros.

Criando pontes entre o Grime e o Baião, Drill e Pagode, Drum ‘n’ Bass e Bossa Nova, e muitas outras criações, a artista do selo GuetoAnonimatoRecords vem firmando a sua identidade e o seu nome na produção nacional, agora também desenvolvendo o seu ofício de DJ.

O Perfil de hoje abre as portas e o microfone para ela. Na voz, Gau Beats!

Gau: “Fim de Feira” foi um dos primeiros instrumentais que eu comecei a produzir, logo no início do curso de Produção de Beats que o Jay-Gueto ministrou. Desde que eu tomei coragem pra entrar nessa carreira, que já era um sonho antigo, eu sabia que eu precisava de algo pra me destacar de fato, não pela competição mas por saber que é um setor da música que ainda sofre muito com a falta de visibilidade e creio que sendo mulher isso se torna ainda mais difícil.

G: Eu sempre amei a musicalidade brasileira, só de ouvir algumas músicas era/é normal pra mim fazer aquilo soar harmônico com algum outro estilo que parece “divergente”.

O Grime em si, combina com muitos estilos de música brasileira, principalmente ritmos que trazem uma percussão mais forte, marcada e eu tento explorar isso cada vez mais.

Gau Beats

G: “Fim de Feira” demorou quase um ano para ser finalizada, até por eu ainda estar no começo de um curso, eu não sabia tudo que eu sei hoje, mas acredito que ela ficou pronta no momento certo e eu acredito que essas misturas vão ser cada dia mais comuns na cena do Grime aqui no Brasil.

K: A chegada de gêneros como o Grime, Drill, Garage, Drum ‘n’ Bass no Brasil foi rapidamente mesclada com sonoridades nacionais, principalmente com o Funk. Mas nas suas produções você traz relações muito mais diversas, trabalhando esses gêneros com o R&B, Baião, Maracatu, Pagode, Bossa Nova, entre outros. Qual a sua motivação em levar esses gêneros para outros lados da música brasileira nas suas produções?

G: Depois de muitos anos, até mais recentemente eu e o Jay-Gueto nos demos conta que a sonoridade da música brasileira com ritmos como Grime, Drill, DnB e etc., soa como uma memória afetiva, pegando ali a nossa infância pra adolescência, onde jogar vídeo game e jogos com playlist musical como FIFA Street, PES e afins, a gente acabou percebendo que aquilo sempre esteve presente. Na época, claro, a gente não pensava nisso enquanto produtores, mas hoje faz muito sentido.

Acho que o fato de perceber que a música brasileira sempre foi um motivo de admiração para artistas de fora faz a gente não querer desperdiçar timbres, sonoridades e ritmos tão únicos quanto os nossos.

Gau Beats

K: E não foi só na sonoridade que você aproximou esses gêneros da cultura nacional. Junto com grupos como o BAD FOR KIDZ e o Síganus, você faz parte de um movimento que une o Grime e o Drill com o futebol e toda a cultura do esporte no Brasil. Você acredita que aproximar esses gêneros dos elementos da cultura nacional, é também uma forma de trazer uma identidade maior para as suas produções, em uma cena que tem apresentado muitos trabalhos parecidos?

G: Trabalhar junto com a BFK e a Síganus é um presente pra mim, todos ali têm visões muito únicas sobre os projetos e sobre como eles querem fazer com que o Drill e o Grime cheguem pra mais pessoas. A proposta desde o início era trazer algo que é a nossa realidade, por exemplo, “Bomba Patch” da BFK, a gente faz referência um jogo que de certa forma democratizou o nosso acesso, não só ao videogame, mas à própria música em si, além da cultura do futebol que é uma paixão em comum do Brasil com a Inglaterra. Já com a Síganus, por conta dos audiovisuais, a gente traz uma realidade nua e crua, de onde nós vivemos, onde crescemos, quem nós conhecemos e etc. Em “Samba Drill” a gente mostrou um lado do Rio Grande do Sul que poucas pessoas conhecem, que é o carnaval, a umbanda, o Funk, então é sobre mostrar a nossa vida, a nossa vivência e até desmistificar algumas visões que pessoas de fora tem sobre onde nós vivemos.

K: Em um remix do seu primeiro lançamento, você trouxe o elemento da rima para acompanhar o beat de “Fim de Feira”, dando espaço para o VULGO GAU acrescentar uma história, uma problemática em voz no seu instrumental. Durante o desenvolvimento das suas produções, você acredita que a presença, ou ausência, de uma voz, de um MC acompanhando a sua produção, impacta na entrega final do seu trabalho?

G: A ideia do remix de “Fim de Feira” surgiu de uma problemática na verdade, então a voz nela era mais que uma necessidade, era um protesto, a exposição de algo que estava/está acontecendo nesse momento em Feira de Santana na Bahia e o Vulgo Gau é um artista que eu acompanho há muito tempo e admiro tanto como produtor, quanto MC e organizador de batalhas. A letra de “Fim de Feira – Remix” aborda a realidade feirense, relatando o cotidiano da 9ª cidade mais violenta do mundo. Vulgo Gau faz uma crítica ao coronelismo, algo muito comum no nordeste do Brasil,  traz à tona pontos geográficos importantíssimos, relembra a figura histórica de Lucas da Feira e protesta contra o fim da feira da Marechal, uma das mais conhecidas feiras da cidade que ameaça ser fechada pelo governo municipal

G: Então eu não acredito nos impactos finais de ter ou não letra, até porque eu realmente não penso numa larga escala de impacto, alguns trabalhos eu penso em colaborar com outros artistas de forma que isso é algo que a gente faça juntos e desenvolva uma relação que vá além de um lançamento, acho que esse ponto é muito importante.

K: Na produção musical a profissionalização do artista é muitas vezes um caminho complicado de trilhar. Você hoje faz parte do selo e gravadora independente GuetoAnonimato Records, através da qual você vende os seus beats em plataformas como Beatplace e SoundCloud, além de atuar em outros segmentos como a produção executiva, por exemplo. Como esse contato com o selo te auxilia na profissionalização do seu trabalho como produtora musical?

G: A Gueto acreditou no meu potencial desde o início. O Jay-Gueto, CEO da gravadora, sempre me deu total suporte, me ensinou, e ensina até hoje, sobre todos os âmbitos da produção e ter esse suporte foi um dos motivos de muitos pontapés iniciais que eu dei, como participar da Batalha de Beats da UM TETO com pouco menos de seis meses de produção, onde acabei sendo vice-campeã graças ao incentivo da gravadora. Hoje estou fazendo o curso de mix e master para expandir ainda mais meus conhecimentos e formas de trabalho, curso também ministrado pelo Jay, então estou tendo condições de me profissionalizar graças a esse apoio e dedicação da gravadora comigo.

K: Além de produtora você também tem a atuação como DJ, inclusive contando com um certificado da Escola de Hip-Hop de Porto Alegre, em um curso ministrado pelo DJ Edinho DK. Como você pretende explorar essa atuação como DJ e quais conhecimentos dos toca-discos você acredita que ampliam também o seu repertório para a produção musical?

G: O curso de DJ foi uma oportunidade única. Graças a um edital da Lei Aldir Blanc eu tive a oportunidade de ser uma das contempladas pelo projeto da Alvo Cultural, era um curso que eu queria fazer há muitos anos, mas por questões financeiras nunca tinha tido a possibilidade, mas graças a Alvo e a todos os envolvidos, consegui minha formação e esse ano de 2022 já estou dando início também aos projetos como DJ. Recentemente lancei meu primeiro DJ SET pela Radio 086 FM e em março estarei fazendo meu primeiro evento como DJ, então é algo que aos pouco estou desenvolvendo pra poder ampliar minhas aspirações na música. Ainda tenho muitas coisas para aprender, conhecimentos de toca-discos que ainda não tenho, mas que estou correndo atrás todos os dias pra poder expandir meu repertório como DJ.

K: Pra fechar esse papo Gau, queria que você trouxesse um pouco dos seus próximos planos e projetos. Quais lançamentos, parcerias estão em desenvolvimento e você já pode compartilhar com a gente?

G: Então, 2022 começou bem movimentado para mim. Dia 04/02 teve mais um lançamento com a Síganus, do single “Baile” onde eu assino a produção do beat. Também ainda pra esse primeiro trimestre de 2022, vai ser lançado meu primeiro projeto internacional em parceria com uma gravadora alemã, uma faixa que eu produzi para um compilado de Grime. Tem um projeto que vai envolver Pagode e R&B. Também estou na equipe de um dos selecionados para o Natura Musical 2022, e fora meus projetos pessoais e lançamentos com alguns artistas da cena que acho que vocês vão curtir bastante.

Queremos mais uma vez agradecer à Gau pela parceria e disponibilidade. Acompanhem a produtora e todos os seus lançamentos nas plataformas de streaming e redes sociais: Instagram, Twitter, SoundCloud, YouTube, Spotify, Beatplace.

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