Foto: Danny Mendes

O Funk e o SoundCloud

A interação orgânica entre os artistas e público do Funk dentro do SoundCloud

É possível que os ouvidos mais curiosos, em algum momento, se encontraram no SoundCloud escutando algum músico do qual nunca tinha ouvido falar antes. Eu sou um dos que foi sugado para a plataforma e pude experimentar a sensação gostosa de ser o Indiana Jones da música, cavando para encontrar relíquias valiosas em lugares que poucos estiveram antes de você.

Existe uma cultura underground movimentada em torno disso, e sua expressividade é gigantesca dentro do Rap. Artistas que vão sendo divulgados no boca a boca, através de um curioso que se identificou com a sonoridade e estética de um rapper e mostrou para um amigo, que mostrou pra outro, que postou no Facebook, e então cinco pessoas clicaram no link, uma delas postou vídeo no stories ouvindo, duas pessoas perguntaram qual música era e assim vai, dando a possibilidade do artista alcançar um público fiel, numeroso ou não.

Acontecem, normalmente, algumas cobranças ao artista para que ele solte suas músicas em sites de streaming mais convencionais e de mais fácil difusão, como o Spotify e YouTube. Quanto maior o público, maior a cobrança. Às vezes, antes mesmo de cobrarem, fãs baixam as tracks e postam no YouTube com alguma foto do artista ao fundo (isso quando não fazem clipes pras músicas). Nesse contexto, conhecemos hoje nomes grandes que começaram suas carreiras na nuvem laranja do SoundCloud, como Playboi Cartii, Abra, Lil Uzi Vert, XXXTentacion, SZA, Post Malone e o próprio Travis Scott, por exemplo. Tem também os artistas que, mesmo com a cobrança, preferem se manter no cenário orgânico onde começaram, vide UnoTheActivist, Lucki e ThouxanBanFauni.

Sabendo disso agora, você deve entender a histeria coletiva que houve quando começaram a surgir rumores, em 2018, de que o site estava próximo de seu fim. Chegaram a anunciar um tempo limite para que as pessoas baixassem suas músicas e podcasts postados lá para que não se perdessem no espaço. Porém, essa é uma história muito confusa, sem muitas certezas anunciadas, com algumas teorias rodando por aí (como a de que o Chance, The Rapper investiu dinheiro para que a empresa não fosse a falência), então é melhor não entrar nesse mérito. Só vamos dizer que, graças a Deus (ou ao Chance?), o site continuou de pé, e ficará assim por bastante tempo.

A cultura underground do SoundCloud

Aqui no Brasil também existe uma “cultura underground do SoundCloud”. Fenômeno que possui algumas semelhanças com o que rola nas gringas, porém não no Rap, mas em outra parte do Hip-Hop (marginalizada até pelo mesmo): O FUNK!

A “cultura do SoundCloud” é viva no Brasil a bastante tempo também, vide a Mahmundi misturando suas melodias de Miami Bass com um canto meio R&B desde 2012. Dentro do Rap, conheci MCs como o Card com seus sons bem diagramados e também com Vandal. Mas, como dito anteriormente, foquemos no Funk.

Eu tenho um irmão muito (muito) funkeiro. Eu curto Funk, mas ele… nossa! Através dele, eu tenho muito contato com tudo que diz respeito ao gênero, seja a música, moda, os costumes e danças. Com a convivência, notei algumas coisas observando ele andar pela casa escutando alto, sem surpresa nenhuma no rosto, o MC Rick gritando “TOMA LEITE NA SUA FACE”. Notei que ele só escutava Funk no SoundCloud, e que, mais curioso ainda, muitas das músicas que ele escutava, não tinham em nenhum outro lugar, senão lá.

Na mesma semana em que percebi isso, notei que ao meu lado dentro do ônibus, um “menó” ouvia Funk estalando de alto no fone, e, igual ao meu irmão, usava o SoundCloud. Em outro momento, um amigo quis me mostrar um som do MC Rogê falando sobre a relação com sua ex e adivinha qual site ele abriu pra me mostrar? Esse mesmo que você pensou: SoundCloud.

SoundCloud = facilidade

Meu irmão trocou uma ideia com o DJ Capina do G.A., que há alguns anos tem soltado seus trabalhos no site. Ele conta que usa a ferramenta para soltar suas músicas pela praticidade.

O motivo de lançar música lá [no SoundCloud], é a facilidade. Eu mesmo produzo, crio o canal e posto a faixa lá; porque Spotify e Deezer é muito complexo.

No decorrer da conversa, ele fala também sobre o alcance das músicas e o engajamento do público.

É uma ferramenta muito difícil de conseguir seguidor. Muitas pessoas vão lá, só escuta a faixa e não acompanha o trabalho. Mas em BH todo mundo que escuta Funk sabe que o movimento acontece lá, [o site] tá bem visto, todo mundo sabe como funciona. Aí, o que manda mesmo é a divulgação.

Divulgação essa que é feita principalmente por Instagram. Os MCs pedem para meninas postarem vídeos nos seus perfis pessoais do Instagram dançando as músicas, além de outros MCs ajudarem na divulgação. Outro processo muito importante para fazer a música chegar até o público, é levar, de fato, a música até ele.

Segundo meu irmão: “De sexta a domingo é resenha o dia inteiro, aí vai tocando as músicas. Se for boa, sempre alguém pergunta de quem é. Começa assim“. Então, o outro passo do MC que soltou seu novo som, é fazer sua música tocar nas resenhas, e torcer para que ela chame atenção. Se a música está tocando nas resenhas e bailes, os versos ficando conhecidos e o nome do DJ e MC começar a aparecer nas rodas de conversa, aos poucos ele vai construindo uma credibilidade, e suas novas músicas passarão a ser aguardadas. Essa movimentação toda é facilitada pela forma que o SoundCloud permite com que o público consuma o produto do MC.

SoundCloud em números

Ao dar uma passada de olho rápida em algumas músicas que meu irmão vem escutando, comparei os acessos dentro do SoundCloud e do YouTube (já que não foram postadas no Spotify ou outra plataforma de streaming) e perceba:

MTG – Xota na piroca (DJ Gui Martins)
YouTube: 12 mil visualizações / SoundCloud: 62,2 mil visualizações

MTG – Vai na base e vai na treta (DJ Anderson do Paraiso)
YouTube: 12 mil visualizações (também) / SoundCloud: 68,5 mil visualizações

Como contei mais acima, o público dos MCs tem o hábito de baixar as musicas do SC e postar no YouTube, então, possuem vários vídeos com a mesma música, e, mesmo somando a quantidade de visualizações dos cinco primeiros vídeos que aparecem ao pesquisar o nome da música, geralmente não bate o número de pessoas que ouviram no Sound. Mas isso, aos poucos tem se tornado mais diluído, pois os MCs têm flertado mais com produções audiovisuais, e têm feito com que o público consuma mais as músicas no YouTube. Conversando com alguns funkeiros, entendi que é um hábito os MCs droparem seus sons no perfil do SoundCloud do DJ que fez o beat, e isso rola muito em decorrência da maior sensação de liberdade expressiva que o site permite.

Cultura de nicho

Essa coisa toda faz total sentido de estar ocorrendo agora. Vivemos em um momento onde todos são potenciais produtores, e o conceito de produto de massa é cada vez mais diluído exatamente por conta do aumento da produção de conteúdo. Não dá para consumir tudo que está nas mídias. E dentro disso, a cultura de nicho se torna cada vez mais expressiva.

Ter um apreço pessoal por estes artistas que começam no SoundCloud é essencial, porque, os que tive oportunidade de conhecer pessoalmente, se mostraram sempre muito zelosos quanto ao processo orgânico da produção de seus sons.

Então, fica aí a dica para você que é um ouvinte inquieto de músicas regionais, o SoundCloud está repleto de talentos que talvez nunca serão mídia, e nunca chegarão até você se não ficar atento. E não nos resta rezar à entidade Chance, The Rapper, para que a plataforma continue entre a gente, facilitando a transmissão de novos sons que provocam mudanças dentro dos gêneros, como foi o Funk de BH.

Texto por Caio Victor Gomes

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