Foto: Kraftwerk

De Afrika Bambaataa a Yung Buda – a influência de Kraftwerk no Hip-Hop

Como a Kraftwerk se tornou a banda ícone do Robot Pop, e influenciou o surgimento do Hip-Hop, Drum’n Bass, House e Techno.

1982 foi o ano do lançamento de uma track que seria um marco para a cultura Hip-Hop. Na capa, Bambaataa e a Soulsonic Force apareciam vestidos como divindades lançando vinis sobre o planeta Terra. Uma capa digna de ficção científica que exprimia bem o conceito de Planet Rock, que com uma sonoridade futurista, eletrônica e cheia de sintetizadores transmitia uma mensagem clara: aquele som mudaria o futuro da música.

Não à toa, Planet Rock foi eleita como uma das músicas mais influentes dos anos 80, tão influente quanto Rappers Delight da Sugarhill Gang – outro marco da fundação do Hip-Hop. O eletrofunk da Soulsonic Force influenciou vários estilos que viriam a surgir nos próximos anos, porém a maior influência na música e cultura como um todo estava nos samples usados por Arthur Baker para compor a música. Foi da junção do beat de Numbers com a melodia de Trans Europe Express, ambas dos alemães da Kraftwerk, mais uma bateria programada na TR-808 que surgiu o beat lendário de Planet Rock.

Deus Ex Machina

A história da Kraftwerk começa em 69, com o encontro de Florian Schneider (flauta) com Ralf Hütter (teclados) no conservatório de música de Düsseldorf onde ambos estudavam e participavam do movimento de música experimental alemã que tocava um tipo de som chamado Krautrock.

O Krautrock, é um estilo que surge da fusão da psicodelia do Acid-rock do final dos anos 60 com texturas minimalistas e uma grande influência do Jazz através das improvisações nas músicas, criando um padrão de beat 4/4 , hipnótico e cheio de sintetizadores. Fascinados por esse estilo, em 70, Florian e Ralf se juntam à Organisation e lançam Tone Float. Único álbum da banda que, no mesmo ano, veio a acabar mas que serviu como catalisador do fascínio que Florian teria por sintetizadores para o resto da vida.

Mulher posa em 1926 com uma máscara de Oskar Schlemmer na poltrona Wassily, de Marcel Breuer.

Além disso, Florian e Ralf compartilhavam o interesse em comum pela filosofia da Escola de Bauhaus que tinha como característica a falta de ornamentos e a harmonia entre a função do objeto e seu design. E foi em uma mostra de arte de Gilbert e George que eles foram influenciados pela ideia da beleza no dia a dia, na repetição e na progressão que surgiu a ideia do Kraftwerk (Usina de Energia, em alemão). Cujas maiores marcas sonoras e estéticas são marcadas pela repetição de padrões e formas, seja nas capas dos álbuns ou mesmo nas apresentações onde todos os membros se vestem iguais e até mesmo foram substituídos por robôs.

Os primeiros anos da Kraftwerk foram puramente experimentais. Os selftitleds 1 e 2 foram álbuns com diferencial na masterização dos instrumentos, que eram tocados na base do improviso, onde os alemães abusavam nas texturas com distorções e sobreposições de instrumentos. Já o terceiro marcou o primeiro uso do vocoder em músicas, que mais tarde popularizou o autotune. Mas foi em 74, com o lançamento de Autobahn que o som da Kraftwerk ganhou o mundo com um clipe que contava a história de um humanoide numa viagem de ácido. Em 77 o grupo lançaria o Trans Europe Express, álbum que consolida a transição da banda, dos seus inícios no krautrock para um estilo eletrônico mais melódico e progressivo.

Daí pra frente, a Kraftwerk virou ícone do Robot Pop e algumas mídias chegaram a chamá-los de Beatles da música eletrônica. A banda caiu nas graças do David Bowie, que em 77 dedicou uma música do álbum Heroes para o Florian Schneider. Foi influência principal para o surgimento de bandas como Joy Division, Depeche Mode e New Order, além de influenciar diretamente o surgimento do Hip-Hop, Drum’n Bass, House e Techno.

Nós com os alemão vamo se divertir

Em entrevista para o Globo, DJ Malboro fala como Bambaataa e Kraftwerk estavam presentes no início dos bailes funk do Rio.

“Planet Rock” é o marco zero do Funk e da música eletrônica — afirma ele. — Eu já tocava Kraftwerk nos bailes, mas não tinha o mesmo peso de “Planet Rock”. Essa coisa de unir a batida de um grupo alemão com a levada do Funk de James Brown foi uma sacada de gênio. As pessoas piravam na pista e vinham me perguntar como faziam para dançar aquilo. Quando levei o Bambaataa a um baile no Complexo do Alemão, muitos anos depois, ele quase chorou vendo a massa dançar. Eu disse a ele: ‘Isso aí foi você que criou.’

Bambaataa, por sua vez, conta em uma entrevista publicada numa biografia sobre Kraftwerk, como foi a experiência de conhecer o som dos alemães.

Achei que era uma porra bem esquisita. Uma porra doida mecânica bizarra. E fiquei escutando de novo e de novo, e falei ‘esses caras são brancos esquisitos… de onde são?’. Comecei a ler todo o… eu sempre leio os encartes do meio dos discos sabe? Quero ver o que diz na parte de trás da capa, quem compôs o quê. Comecei a fuçar mais a história deles e cheguei ao “Autobahn”, e uma vez fui até o Rock Pool, e eles me sugeriram escutar outros discos deles, e eu ouvi “Radio-Activity” e outras coisas que eu ouvia e tocava para meu público. Depois que o Kraftwerk lançou “Numbers”, e eu sempre curti “Trans-Europe Express”, eu disse ‘Quem sabe posso juntar os dois numa coisa diferente de verdade, com baixo e bateria pesados, mais rústica e eletrônica ao mesmo tempo?

Mesmo J Dilla expressava sua admiração por Kraftwerk e podemos perceber isso tanto nas faixas que ele produziu para o Electric Circus, disco experimental do Common de 2002 que trazia muito da psicodelia, sintetizadores e texturas da banda alemã, quanto no sample de Trans-Europe Express que ele usou para produzir BBE (Big Booty Express), lançado quando Dilla ainda era conhecido sobre o vulgo de Jay Dee.

Legado

Para além do mundo da música, o legado da Kraftwerk é visto de várias formas. Da estética retrofuturista e minimalista, às temáticas trabalhadas dentro de um contexto de Guerra Fria e o constante medo dos avanços tecnológicos ao caráter de constante mudança e evolução nos trabalhos lançados. Tudo isso fez com que a estética das apresentações da Kraftwerkcuja fusão de arte e tecnologia dos shows remetiam à filosofia Bauhaus de produção em massa e função estética robótica que agregava forma a sonoridade da banda – fossem consideradas obras de arte e o Museu de Arte Moderna de NY convidou a banda para se apresentar dentro das galerias. Em outubro de 2021, a Kraftwerk entrou para o Rock’n Roll Hall of Fame, com cerimônia feita por Pharrell Williams agradecendo por suas colaborações e influência para o mundo da música.

Lembro de uma entrevista do Oganpazan falando sobre Yung Buda e a criação do universo de que desenvolve seu trabalho, definindo que: “A questão que para nós é importante ressaltar é que se os referenciais são parte de sua formação subjetiva, fica bastante claro que a principal virtude do Yung Buda é a forma e o sentido que ele lhes atribui. Personagens, sons, ideias, se definem não pela significação inerentes aos seus contextos, mas antes de dentro da própria obra do artista. São como cores, timbres, linhas, melodias, harmonias alienígenas que o artista consegue determinar ao seu próprio modo”

Por fim, a influência que a Kraftwerk teve na cultura em geral a partir dos anos 70 ajudou a criar toda uma mística de atemporalidade ao redor da banda apesar de, por muito tempo ter sua arte vista como apenas “barulho” e estética como “estranha demais”. A busca constante por inovações dentro da música, como o vocoder, aliadas a um conceito estético de personagens que até hoje parecem saídas de um sci-fi dão a Kraftwerk uma percepção de projeto que parece ser onírico e ciente de si ao mesmo tempo. Determinando seu próprio modo de fazer música, dominando suas “harmonias alienígenas” e alcançando algo parecido com o verso do Buda em Autobahn: Querendo soar como se não fosse daqui.

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