O papel e o corre das mídias independentes no Rap nacional

Uma reflexão sobre os corres do jornalismo cultural independente e os efeitos da relação mídias-artistas-público no contexto do Rap nacional.

Bem se sabe que as mídias independentes de Rap/Hip-Hop surgiram com o propósito de reunir, num mesmo espaço, conteúdos que versassem sobre assuntos relacionados à cultura Hip-Hop, e a outras pautas que tratam desse contexto tão diverso e rico. Para isso, as editorias são pensadas não apenas para se destinar à informação e divulgação, mas também para serem ocupadas pela crítica acerca desses assuntos, como forma de enaltecer os sentidos que as manifestações artístico-culturais podem despertar no seu público.

Jornalismo cultural independente

Em diversos estados, e de diversos nichos, as mídias de Rap nacional estão no campo do jornalismo cultural, desde o fim dos anos 90 e começo dos anos 2000, através de veículos como o Bocada Forte e a Revista Rap Nacional, focando no conhecimento e reflexão dos pilares que constroem esse universo. Com a ascensão do Rap nacional em 2009/2010 em uma perspectiva público-mercadológica, o Rap brazuca cresceu proporcionalmente em artistas, obras e fãs, expandindo sua necessidade de divulgação e produção de conteúdo em mídias e redes, principalmente das que se especializaram em Rap/Hip-Hop.

Sabendo do contexto marginalizado do gênero e todo seu status underground dentro do cenário musical, muitas pessoas se comprometeram, assim mesmo, em fazer um trabalho e uma curadoria séria de todas as bases da cultura. Com esse estigma, e pouco apoio, as mídias passaram e passam por diversas crises, sejam elas acerca de seu conteúdo, até os mais delicados, como a desvalorização e o menosprezo por uma gama de artistas, e do público. Mas com toda certeza o mais difícil é a sua categoria de independente dentro do jornalismo. Isso significa, que a maioria das mídias de Rap nacional no Brasil hoje trabalha sem um modelo rentável para a sua sustentação financeira, e depende de apoio, engajamento e toda divulgação possível para se manter vivo.

Com uma média de 10 a 20 colaboradores ativos por mídia, dentre eles, jornalistas, amantes da cultura que se arriscam na escrita, designers, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas, social medias, DJs, e etc., nenhum deles recebe nenhum tipo de retorno financeiro que compense seu tempo e pesquisa. A grande maioria mantém um trabalho fixo além do site, ou é estudante, o que dificulta ainda mais a manutenção dos conteúdos e sua divulgação.

Mídias-Artistas-Público

Um dos maiores pontos que objetivam esse texto, é entender a relação mídia-artista-público, que constantemente tem entrado em divergências acerca do trabalho das mídias de Rap nacional. Quase todos os dias no twitter, aparece algum artista, seja questionando, seja desmerecendo uma review, ou cobrando a falta dela, e todos os dias, os mesmos não se dispõem em compreender como é exercido o jornalismo cultural, ou mesmo a respeitar um texto, um react, ou qualquer conteúdo, ao menos que ele seja feito de maneira elogiosa.

O jornalismo cultural é dominado por polêmicas, pela complexidade em delimitar uma linha tênue entre opiniões fundamentadas e julgamentos pessoais, além disso, na maioria das vezes, as críticas culturais nada mais são do que resumos/sinopses de produtos oferecidos no mercado das artes, elaboradas com pouco embasamento para elogiar ou para divulgar um projeto.

Como citado anteriormente, existe uma diversidade de mídias de Rap nacional que se limitam em divulgar, seja um single ou álbum, ou alguma matéria sensacionalista sobre artistas e a cultura, não se aprofundando nos assuntos relevantes e muitas vezes sequer os contextualizam. Ao que tudo indica, o superficial é resultado de pautas elaboradas com base em “achismos”, sem opinião fundamentada, e que valorizam as celebridades e os relatos de eventos. Mas ao mesmo tempo existem inúmeras mídias que mantêm uma linha editorial totalmente diferente, voltadas para análises, entrevistas e críticas sem intenção de gerar benefício para alguma pessoa em específico.

Mesmo com sites, redes sociais e uma ampla divulgação por parte das mídias, é mais provável que as pessoas leiam uma thread no twitter sobre um novo lançamento, vindo de algum amante do artista ou da obra,  do que uma crítica de mídia especializada. Isso, devido ao estigma de “guardinha do Rap”, onde a reflexão e a análise são considerados irrelevantes por artistas e públicos. O jornalismo cultural possui critérios de seleção, estrutura e escrita que devem ser seguidos para que ele seja lido com uma maior credibilidade, mesmo que de forma independente.

Pesquisa e colaboração

Assim como um artista pesquisa, faz curadoria e cuida para que sua obra seja apreciada com cuidado, o crítico faz o mesmo, seu trabalho é formalizado por informar e oferecer um juízo de apreciação, e mais do que isso, oferecer reflexões sobre a obra avaliada. Clareza, coerência, agilidade, informar ao leitor o que é a obra ou o tema em debate, resumindo sua história, suas linhas gerais, quem é o autor, etc., analisar a obra de modo sintético, mas sutil, esclarecendo o peso relativo de qualidades e defeitos, evitando o tom de igualdade ou a mera atribuição de adjetivos, mas, principalmente: capacidade de ir além do objeto analisado e usá-lo para uma leitura de algum aspecto da realidade, interpretar o mundo com a obra. Todos esses critérios são levados em conta, e na maioria das vezes todo o método de atingir esses pontos é feito a partir de uma pesquisa, que é tratada com muita integridade. Todo crítico sabe que a boa resenha deve combinar sinceridade impressionista, embasamento na própria obra, contextualização do autor e aprofundamento no “tema”. E acima de tudo deve ser, em si, uma “peça cultural”,  levar novidade e reflexão ao leitor, ser de leitura essencial.

A grande maioria dos conteúdos feitos pelas mídias independentes de Rap no Brasil, é feito na maior vibe de camaradagem possível. Inúmeras pessoas correndo atrás de material o tempo todo para elevar a cultura, e executando todas suas possibilidades para entregar algo que contemple sua linha editorial, artistas (porque a grande maioria ainda depende da ligação com o artista para que se atinja um público maior), e seu público de costume. Um exemplo disso, são as premiações que ocorrem nos finais de ano, a fim de valorizar a cultura sem ter de depender de premiações grandes como as da MTV e Multishow, pelo fato de poucos artistas conseguirem atingir esses lugares.

As premiações são organizadas contando com um corpo de júri com mais de 200 pessoas envolvidas com o Rap nacional, em reconhecimento à excelência do trabalho e conquistas na arte de produção musical e, promovendo suporte à comunidade do Rap/Hip-Hop. Sabendo das dificuldades em selecionar os artistas indicados, os destaques do ano e suas indicações, o apoio entre as mídias é essencial para que esse trabalho seja feito, com uma diversidade de opinião e pessoas avaliando os trabalhos lançados durante o ano.

Campo de disputa

Como esperado por todas as produções de premiações no ano de 2020, uma gama de artistas se incomodaram pelas indicações e a falta delas. O questionamento entre artista e público nunca foi um problema para as mídias, visto que a subjetividade de opiniões é algo esperado, mas a problemática se encontra quando a relação mídias-artista-público não se torna uma via de mão dupla.

A necessidade do artista em contestar críticas, conteúdos e etc., cria um campo de disputa dentro da cena, onde não existe uma relação de respeito e ajuda mútua. O que é produzido em forma de enaltecer o trabalho dos artistas nunca é suficiente para os mesmos, seja uma review cítrica ou elogiosa, que para eles não existe a necessidade de compartilhar, ou uma falta de indicação dentre uma premiação onde existem mais de 100 votantes. A conta não fecha, e o prejuízo fica tanto para o artista quanto para as mídias.

Um dos maiores problemas encontrados pelas produções executivas das premiações, é a falta do diálogo e do contato com um número de artistas que não se sentem obrigados a apoiar, participar ou até mesmo agradecer um projeto que fala ou traz a presença do mesmo. A falta desse apoio, também prejudica na organização dessas premiações que necessitam de investimento financeiro para serem feitas. Aluguel de estúdio, equipamento, contratação de técnicos, deslocamento dessas pessoas, etc., é algo a ser considerado na hora de tirar a ideia do papel, e executar o projeto.

A transparência de um apoio perante as mídias significa muito para que exista uma chance de elas serem patrocinadas, o que facilitaria em grande parte a execução de um prêmio maior, mais bem feito e até mesmo mais relevante.

A importância do jornalismo musical

Lutar pela existência de uma ponte onde o relacionamento entre mídias e artistas se estreitem, é compreender o papel e a necessidade da produção de artistas em cuidar de seus projetos para que eles sejam disseminados. A comunicação mais próxima entre assessoria e mídia também são importantes para que se fortaleça essa relação, e principalmente seja valorizado o papel do jornalismo cultural dentro da cena do Rap nacional.

O material produzido dentro das assessorias (releases) facilita o trabalho para as mídias, que já recebem boa parte das informações prontas, faltando apenas recolher algumas fontes e informações complementares. O que a maioria dos artistas, e também do público ainda não compreende, é como o texto jornalístico funciona, podendo ser redigido com liberdade para dar pistas de reflexão ao seu leitor em potencial, e não, simplesmente, ser uma reprodução de materiais previamente preparados.

A importância do jornalismo musical dentro da cena do Rap nacional já provou ser ponto essencial para que vários trabalhos atinjam o mainstream, e conquistem um público muito maior. Conteúdos produzidos pela mídia além de deter credibilidade, deixam claro o amor que se tem pela cena e a luta pela sua sobrevivência. Estreitar a proximidade com as mídias, e acima de tudo respeitar o corre, é uma das melhores formas de disseminar a cultura Hip-Hop, além de dar um incentivo para vários jornalistas, escritores independentes, designers, fotógrafos e etc.

Hoje mais do que nunca é de urgência entender o papel das mídias independentes do Rap nacional, para que esse campo de disputa entre mídia-artista-público se torne mais unificado e conquiste mais pessoas e consequentemente mais patrocínio e investimento. O respeito pelo crescimentos das mídias de Rap nacional já passou da hora de ser revisto, seja pelos artistas ou seja pelo público, em todos seus objetivos enquanto jornalistas culturais de elevar a cena e consequentemente trazer mais visibilidade, para que o Rap nacional seja cada vez mais aceito, e as limitações do seu status não se sobressaiam.

Agradecimentos a quem agregou nesse texto: Felipe Mascari e Kleber Briz.

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