Foto: Danger Mouse

Mashup: a arte das colagens e a criatividade na produção

Com uma proposta bem diferente do sample e do remix, o mashup trabalha a criatividade e as colagens na produção de forma diferente e empolgante

Vocais de uma música, instrumental de outra completamente diferente, combinados em uma nova faixa, o mashup é uma outra faceta do sampling e do remix. Mas a diferença é que ele normalmente não altera a estrutura das músicas utilizadas, aproveitando o conhecimento prévio dos ouvintes para quebrar expectativas e esticar a criatividade de como criar uma coisa nova, diferente e empolgante, ao mesmo tempo que respeita o trabalho original.

É claro que nem todos os mashups se levam tão a sério. Na verdade, a cultura do meme e da internet praticamente implora para que os mashups não sejam um trabalho levado a sério.

Destaque na história do mashup

Enquanto o mashup não é nada novo, com exemplos desde os anos 50, é difícil não associar o gênero com o começo dos anos 2000 e a popularização do sampling e do Hip-Hop. Muitos DJs se tornaram mestres na arte do mashup e do remix, com programas de rádio no Reino Unido dedicados a isso. Um desses programas inspirou o produtor Danger Mouse (Gnarls Barkley, Gorillaz, MF DOOM) a misturar um clássico álbum de Jay-Z (The Black Album) com um clássico dos Beatles (The White Album) e criar o The Grey Album em 2004.

A combinação feita por Danger Mouse pegou os vocais de Jay-Z e o instrumental dos Beatles, foi aprovada pelos artistas, e explodiu em popularidade em parte porque a distribuidora EMI, que detém os direitos sobre as músicas do Beatles, quis impedir sua publicação e, por uma outra gigantesca parte, por causa da internet.

Em protesto à iniciativa da EMI de bloquear a distribuição do Grey Album, o disco foi postado para download grátis por um único dia, o que em 2004 já era algo incrível e, de certo modo, revolucionário. Hoje, é possível simplesmente abrir o YouTube e digitar “grey album full” para encontrar os 44 minutos de experimentação musical. (Faixa favorita tem que ser 99 Problems+Helter Skelter).

A partir daí a internet passou a dominar a arte da colagem e do mashup, criando sua própria cultura em volta do rearranjo de músicas que a princípio não fazem sentido juntas, mas que de algum modo dão certo.

O mashup artístico

Desculpem por fazer a distinção entre o que seria artístico ou não. Aqui a diferença fica entre um mashup meme e um mashup artístico, daqueles que têm conceito de obra por trás, como o próprio Grey Album, a junção entre dois grandes artistas e dois grandes álbuns.

Por exemplo, quando pensamos em Kendrick Lamar e Kanye West a palavra GOAT vem a mente podendo ser aplicada a qualquer um dos dois, e juntos os dois têm a faixa “No More Parties in LA” do álbum The Life of Pablo (2016) de Kanye. Mas e se existisse um álbum completo dos dois? Pois ele existe, de certo modo. “Kanye West & Kendrick Lamar – GOOD KID TWISTED FANTASY” é um álbum mashup produzido por Toasty Digital e publicado em seu canal no YouTube. Uma mistura que faz Kanye cantar sobre a batida de “Money Trees”, e traz Kendrick em freestyle ao som de “Devil in A New Dress”, Toasty criou um conceito de ter Kendrick em uma viagem interestelar ouvindo “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” e misturando as coisas dentro da sua cabeça.

Enquanto nem todas as músicas funcionam e um mashup é mais exercício para o criador do que para quem ouve, a mistura não deixa de ser interessante.

O meu tipo preferido de mashup é onde eu encontro dois artistas que gosto, de gêneros e origens e estilos extremamente diferentes, e a música dá certo. É ouvir MF DOOM em uma música do Radiohead, ou Kendrick e Radiohead. Ou Tyler, The Creator cantando EARFQUAKE no instrumental de Redbone por Childish Gambino.

Mashup Meme

Existe também muito potencial para memes no mashup, desde Metallica cantando em cima de uma música da Mariah Carey ou Man’s Not Hot, mas o instrumental é Take On Me do A-Ha (sentenças que nunca sonhei em digitar).

E no Brasil, país oficial do meme, não poderia ser diferente. Slipknot+Raça Negra? Temos. Péricles e Paramore? Também tem aqui. Aquela do Time Maia que dói continua machucando se misturar com Black Sabbath? A resposta é sim.

O clássico só poderia ser um: Shake It Bololo ft. Classics of MPB.

Impossível de explicar o que representa ouvir músicas tão icônicas para a internet brasileira ao som de Shake It Off por Taylor Swift, mas é, no mínimo, de alegria intensa e de nostalgia por uma época onde o brasileiro era feliz.

Para não ficar pra trás, disputando a coroa, o mashup que juntou um clássico do Soul americano com MC Poze do Rodo, “MC POZE NOS ANOS 80” produzido por Paulo “PMM”, já soma mais de 30 milhões de views no YouTube, seis milhões a mais que Shake It Bololo, e gerou ainda mais 3 vídeos numa série (MC Poze Anos 80 II e III, e MC Poze Anos 90). Enquanto para os anos 80 Paulo continuou usando o Soul e Funk estadunidense como base, para o MC Poze nos Anos 90 ele trouxe Notorious B.I.G para o Rio de Janeiro com uma versão de Vida Louca Big Poppa.

O mashup é a criatividade para produção com uma proposta bem diferente do sampling e remixes, e é incrivelmente satisfatório encontrar aquela junção que quase faz você dizer “melhor que o original”. Um gênero que funciona ainda mais com a colagem enorme que é a internet.

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