Perfil: Uma conversa com Mattenie

A mente por trás da identidade visual do Rap do Vale do Paraíba

Mattenie (Foto por: Erick Ferreira)

Você sabe o que os  EPs “Sem Miséria” do Betel e o “Eu Sou uma Abelha” da Killa Bi têm em comum com o disco “Afrontamento” do SKEMA B+L? Se você falou que todos os três são de MCs da região do Vale do Paraíba você está totalmente correto, porém, mais que isso, todos eles tiveram sua identidade visual assinada pelo MC e designer Mattenie.

Diretamente de Jacareí, Mattenie vem ganhando cada vez mais destaque pela versatilidade de técnicas e capacidade de transparecer a sonoridade de cada projeto em sua capa, por isso nada mais justo do que conversar com o mesmo para falar um pouco de sua carreira e processo criativo.

Confira a entrevista concedida ao Kalamidade:

Primeiro contato com o Hip-Hop

Kalamidade: Antes mesmo de iniciar no mundo do design e assinar as capas de vários trabalhos dentro do Rap, você é MC, como aconteceu o despertar dessa vontade de rimar e como ela transcendeu a caneta e chegou ao design na sua vida? 

Mattenie: Primeiramente, um salve à todxs que em algum momento irão ler essa troca de ideias. Para quem não sabe, sim, sou MC e não imagino outra maneira de conseguir expressar/representar a estética e o conceito dos albuns que pude trabalhar na área visual, sem essa bagagem que a escola do Rap me deu. São muitos anos rimando e muitos outros sendo ouvinte e apreciador. Não sei te definir em qual momento rolou o despertar para a escrita, mas quando olho para trás na caminhada, eu vejo muito bem os degraus por onde subi. Lembro que o primeiro disco de Rap que eu vi foi o “Sobrevivendo no Inferno” e tipo, a capa foi o que mais chamou minha atenção, ver uma cruz com um tiro no meio é algo meio pesado para uma criança e lembro que aquilo me marcou muito. Depois veio a MTV, os discos da feira, “8 Mile” e mais um monte de pequenas coisas que foram me colocando no caminho de ser MC.

Já o design, eu não diria que transcendeu mas sim que acompanha a escrita, já que é muito mais provável que eu não seja designer um dia, porém MC é pro resto da vida. O design esteve presente na minha vida desde a infância, mas era algo camuflado, algo que eu não sabia que estava ali até entender realmente o que era e que eu poderia fazer também. Design é solução. Design é condução. Design é observar e admirar para depois contribuir. Pode parecer vago, mas na real é bem profundo.

Parceria com a Killa Bi em “Eu Sou uma Abelha”

Capa de “Eu Sou uma Abelha” (Killa Bi – 2019)
K: Em dezembro de 2019 a Killa Bi lançou “Eu Sou uma Abelha”, como foi o convite para o desenvolvimento dessa identidade visual que não ficou apenas na capa e virou um merch muito bonito e como foi o processo criativo até chegar no resultado final?

M: Eu conheço a Killa Bi há quase 10 anos, passamos por diversas ruas juntos e uma delas foi o Rap. Dessa forma, o convite veio de uma maneira natural, já que eu estava iniciando esse processo de construção de capas e ela estava concretizando o primeiro disco. Não lembro quem falou com quem, mas lembro que foi muito sincero quando fechamos o conceito. Ela queria algo mais minimalista mas que pudesse ter de alguma forma o peso que a “Abelha Assassina” carrega. A partir disso, fomos dando vida aos desdobramentos da obra, com o vídeo clipe da faixa “Peça Chave” e o desenvolvimento das peças pro Merch.

Versatilidade de Técnicas

Capa de “Helipa” (Yago OPróprio – 2021)
K: No EP da Killa Bi você foi na linha de criação de um símbolo (no caso uma abelha) para guiar a identidade visual, porém em trabalhos como na capa do single “HELIPA” do Yago Oproprio você vai para um lado da colagem digital, essa versatilidade de técnicas é algo que chama muita atenção dentro do seu vasto catálogo de capas assinadas. Como é essa tomada de decisão em cada processo criativo?

M: Existe dois tipos de clientes, os que sabem o que querem e os que não sabem. Acredito que a versatilidade venha da necessidade de produção em um ritmo 2021 (algo que não é o mais saudável mas temos que plantar no solo que nos foi dado) já que a quantidade de singles lançados supera e muito a de álbuns. Me considero uma pessoa que consome bastante arte, tenho uma memória boa para cores e sempre me atrai por símbolos, mas apesar disso, eu não consegui me cercar de um estilo apenas, acho que são processos e tudo acaba sendo estudo, já que sou um aprendiz, por aqui, mas posso afirmar que cada capa é uma capa assim como cada música é única. Antes de iniciar a construção é necessário ouvir muito cada faixa. Além disso, tenho amigos artistas em diversas áreas diferentes e cada encontro acaba sendo muito produtivo, sou bem curioso e acabo absorvendo o máximo que posso ao lado deles. O resultado tá aí!

Participação da terceira parte da trilogia de “A Rima é Imã” da dupla Rato & Ralph

Capa de “A Rima é Rima Vol.3” (Rato, Ralph e Goribeatzz – 2021)
K: A trilogia “A Rima é Imã” do Rato e Ralph é incontestavelmente um clássico do Rap do Vale do Paraíba, em 2021 chegou às ruas o volume três dessa saga dessa vez produzido pelo Goribeatzz. Além de participar na construção da capa junto do tatuador William Kauê você também eternizou seus versos na faixa “América do Sul”, como foi participar desse projeto em duas vertentes diferentes?

M: E bem diferentes rs. O convite para rimar foi o primeiro contato que tive com o Vol. 3. Quando o Rato me deu esse salve eu não imaginava que também iria contribuir na capa, porque eu já sabia que eles iriam precisar manter a linha de ilustrações como foi nos dois outros discos. Porém no final, foi um dos trabalhos que mais gostei de realizar em conjunto com outro artista. Trabalhar com o Will nessa capa foi uma oportunidade de visualizar um outro meio de criar, porém mais como um diretor do que como um designer apenas. O Ralph é genial, quando ele me apresentou a história do Dr. Gori e alguma das capas do próprio HQ as ideias foram surgindo naturalmente. Eu coloquei ele em contato com o Will para que eles pudessem chegar em um ponto da capa, aí depois fomos acrescentando alguns detalhes, como a mesa de Pad’s, o fone, as ondas sonoras e por fim, eu fiz a parte tipográfica e finalizei a arte com as texturas e logos.

A construção de “TUDO AZUL”

Capa de “TUDO AZUL” (Mattenie – 2020)
K: Em 2020 você lançou o EP “TUDO AZUL”, eu entendo que quando o trabalho é próprio o tato com a obra é mais intimista e profundo, e isso se faz presente dentro da construção visual do projeto, você sentiu isso durante a produção desse EP? Afeta em algo no seu processo de criação quando a obra em questão é do seu lado MC?

M: Não afeta, mas influencia bastante. Dentro do meu processo de composição é muito comum que eu busque maneiras de visualizar aquilo que quero passar. Seja criando cenas na minha cabeça, ou cores, ou formas, mas tenho isso muito forte comigo desde as primeiras letras. Gosto de poder visualizar algo. Então quando comecei a construir com minhas próprias ferramentas as capas dos meus trabalhos, tudo fluiu como um rio.

Próximos passos e Referências

K: São mais de 10 anos dentro do Rap, você já fez muitas colaborações tanto como MC quanto como designer, apesar disso o futuro é um caminho com infinitas possibilidades, pensando nisso, com quais nomes do Rap nacional você tem vontade de colaborar?

M: Mano, é muita gente que posso colocar nessa lista mas atualmente tenho mais vontade de trabalhar com quem gosta e admira meu corre, não apenas o contrário. Seja como designer ou como MC. Recentemente fiz trabalhos com o Malcriaoh D’Zousa que é um rapper chileno e também com o Murica ali de Brasília, e posso afirmar que foi muito recíproca a troca que rolou com ambos, uma vez que a admiração é mútua. A maior vontade é essa, na real. Cruzar as fronteiras do Vale, de São Paulo e do Brasil. A arte é universal.

K: Como designer entendo que além de muito estudo nosso repertório de referências tem que ser bastante vasto também, com isso, quais são suas principais referências como designer no universo da música?

M: No universo da música eu não tenho um nome, mas tenho obras que levo como um santo graal pela genialidade e simplicidade de alcançar o que foi proposto. Algumas aulas são capas como: “Blueprint 1” do Jay-Z , “Babylon by Gus Vol. 2” , “Survival” do Bob Marley, “Cores e Valores” do Racionais, “Good Kid Maad City” do Kendrick e por aí vai… mas ainda assim a referência maior é a vida, com seus códigos e suas nuances e o que eu como indivíduo enxergo disso tudo.

Queremos agradecer o Mattenie pela disponibilidade pra falar mais sobre seus trabalhos com a gente e não esqueçam de seguir suas redes sociais: https://www.instagram.com/mattenie_/.

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