Perfil: Um papo com Gabriela Sobreira

A multidisciplinaridade em prol do Hip-Hop.

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Gabriela Sobreira (Arquivo Pessoal)

O conceito de artistas multidisciplinares é famoso no meio da cultura Hip-Hop, é normal nos depararmos com pessoas do meio que rimam, produzem, têm um trabalho dentro da moda ou até mesmo se arriscam por trás do audiovisual. A história se repete através de Gabriela Sobreira.

Da zona leste de São Paulo para Bristol, na Inglaterra, Gabz é artista plástica, criadora do Mina de Rap, fã apaixonada de MF DOOM e veio conversar com a gente para falar um pouco dos seus trabalhos e processos criativos.

Confira a entrevista concedida ao Kalamidade!

A descoberta do Hip-Hop

Kalamidade: Seu primeiro contato com a música foi com o movimento Punk Hardcore, como foi a descoberta do Hip-Hop e onde foi que você se apaixonou pela cultura e resolveu fazer dela parte essencial das suas produções?

Gabz: Essa “passagem” do Punk Hardcore pro Hip-Hop foi muito natural, acho que ambos os movimentos se assemelham em alguns aspectos, e a maioria da galera que ouvia Hardcore na periferia também já ouvia Rap, então foi algo que eu nem percebi acontecer. Eu sempre levei a música como algo muito sério, porque faz parte da minha vida desde nova, o que acabou se tornando parte da minha personalidade, tendo fortes consequências na maneira que eu produzo, desde o início quando comecei a me envolver com arte. Yasiin Bey falou em uma entrevista que reflete isso:

Você sabe que você ama tanto algo quando você quer começar a fazer e se envolver.

E pra mim sempre foi assim, eu sempre caio de cabeça.

O caminho das customização até às máscaras

Custom inspirado em Quasimoto (Arquivo Pessoal)
K: Seus primeiros trabalhos foram através da customização de sneakers, em qual momento da sua vida virou a chave para essa confecção das máscaras?

G: Eu faço customização e restauração de tênis desde 2015, quando esse nicho ainda não era tão popular, e eu sempre gostei de explorar outras técnicas de artes para incluir nos meus trabalhos, mantendo a autenticidade e minha assinatura. Com a popularização dessa indústria, eu senti que tudo estava muito saturado, e depois da minha mudança para UK em 2017, enfrentei dificuldades em manter uma clientela, depois veio a pandemia, falta de grana, e muito tempo de sobra… Então foi aí que eu resolvi começar a fazer as máscaras, já conhecia esse tipo de arte há muito tempo, e como também sou adepta à reciclagem de materiais, tudo meio que se encaixou. Eu nunca achei que eu seria capaz de fazer algo assim, mas eu arrisquei, felizmente deu certo e tá aí o resultado!

K: A gente sabe que a comunidade sneaker é uma das mais “choronas” da internet, na criação das máscaras você precisa desfigurar em diversas partes como foi o caso do Air Jordan 4 Fire Red. A galera que te acompanhava desde o início nas customizações recebeu bem essa nova linha criativa dentro dos seus trabalhos?

G: Com certeza sim! A galera pirou! Ate porque nunca vi nenhum brasileiro fazer esse tipo de arte, e ainda acho que teve mais gringo chorão do que brasileiro. Claro que as pessoas ficam chocadas porque eu saio “destruindo” tudo, mas o resultado acaba meio que fazendo as pessoas esquecerem que eu cortei o tênis todinho (risos).

K: Outro ponto muito interessante é o reaproveitamento de materiais durante suas criações, principalmente considerando a sociedade que a gente vive onde o capitalismo desenfreado vem favorecendo a destruição ambiental do nosso planeta. Esse cuidado na seleção dos materiais vem desde o início das suas produções e como você escolhe os materiais que vai usar em cada projeto?

G: Eu vou ser sincera, eu não escolho, eu sempre uso o que já tenho em mãos, o resultado é mais sobre o que eu tenho pra trabalhar, do que o que eu realmente quero fazer. Muitos dos trabalhos foram com tênis que eu já tinha em casa, ou doados, ou achados baratos no eBay. Então no caso, eu analiso o que eu tenho, aí eu decido o que eu vou fazer mais ou menos, parte desse planejamento também é feito durante o processo, porque é muito difícil eu trabalhar com esboço ou rascunho. O intuito é sempre reaproveitar tudo o que já tenho e concluir, e na maioria das vezes eu nem sei como o projeto vai terminar. Eu acho bem divertido.

“THE SWARM” (Arquivo Pessoal)

Música x Processo Criativo

K: Seus trabalhos por mais diversos que sejam, da criação das máscaras, passando pela customização de sneakers até no vaso do Wu-Tang Clan, todos eles têm uma forte ligação com a música, principalmente com a cultura Hip-Hop. Qual o peso que a mesma tem no seu processo criativo?

G:: Acho que tem peso em tudo, mesmo que às vezes não tenha ligação direta, eu sempre tô ouvindo música, da hora que eu acordo até a hora que eu durmo. Não tenho como correr disso, a música pra mim é terapia, e o Hip-Hop é tipo um amigo que tá ali pra me relembrar de onde eu vim, das pessoas, memórias, das coisas que passei, das coisas que eu quero dizer e não consigo colocar em palavras. Sem música meu trabalho não existiria.

Criação do Mina de Rap

K: Em 2020 você criou o “Mina de Rap”, projeto esse que você traduz para o inglês lançamentos do Rap nacional, quais foram as motivações durante a idealização do projeto?

G: Quando eu me mudei pra Bristol, eu senti muita dificuldade em apresentar Rap brasileiro pros gringos, porque a maioria do nosso conteúdo não tem tradução pro inglês, por mais que algumas pessoas tivessem interesse por conta do visual de algum clipe, no Rap entender a rima é uma parte muito importante né? Senti que eu poderia contribuir com isso, oferecendo serviços gratuitos de tradução e legenda para artistas independentes no Rap nacional, assim as mensagens podem ter mais alcance no mundo, e também trazer mais valorização para nossa música.

Killa Bi – Natural e Otimista (Legendas por @minaderap)

Uma história em cada encarte

K: No seu instagram um conteúdo que muito me chamou atenção foi sobre os vídeos de encartes de álbuns clássicos do Hip-Hop, onde você vem mostrando todo o visual da produção gráfica de cada CD, essa ideia vem de onde? E como é feita a seleção de cada um dos álbuns?

G: Eu tenho uma pequena coleção de CDs, e comecei a acompanhar conteúdos de colecionadores de CDs e vinil, percebi que só eram fotos de caixa e dos CDs, achei que eu precisava mostrar um pouco mais. Quando tô ouvindo um CD, eu tenho todo um ritual de ouvir inteiro e olhar os encartes. Acho que a gente perdeu um pouco desse sentimento de algo físico com o streaming, então os vídeos são pra trazer essa nostalgia e relembrar um pouco disso.

Eu seleciono os CDs conforme a arte do encarte, quanto mais diferente, melhor.

Futuro e Colaborações

K: Suas criações são dentro de diversas técnicas e nichos, o que te permite uma variedade maior nas possibilidades de colaborações, quais artistas hoje você tem mais vontade de trabalhar junto?

G: Eu tenho sorte de estar rodeada de pessoas super talentosas, tenho uma lista enorme de artistas independentes desde fotógrafos, videoprodutores, artistas plásticos, grafiteiras, não tem nem como eu listar. Posso dizer que assim que eu pisar no Brasil, já tenho bastante collab agendada.

K: Antes da nossa última pergunta queria te agradecer pela disponibilidade de trocar essa ideia. Por fim, quais são os planos futuros? Tem mais alguma novidade no radar pros próximos meses?

G: Eu que agradeço pelo convite, estou muito feliz por essa oportunidade! E sim, tem bastante coisa a caminho, trabalhos bem diferentes do que costumo fazer e também novas máscaras. Meu plano é continuar produzindo e fazendo o que amo, a nossa jornada de artista independente não é fácil, então meu foco é só continuar e compartilhar meu conhecimento com o mundo.

Não esqueçam de seguir as redes sociais da Gabz que tirou um tempo pra trocar essa ideia braba com a gente!

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