Foto: Bk' no clipe "Deus do Furdunço"

O Proibidão no Rap – Uma análise intertextual de dois gêneros que dialogam

Uma breve história de como Bk' retomou discursos para criar sua narrativa contemporânea dentro do Rap.

No momento em que dois textos passam a ter uma relação direta e dialogar entre si, tem-se a intertextualidade. Este fenômeno unido à origem de novos textos e seus contextos pode ocorrer em vários tipos de gêneros. Tratar da intertextualidade e suas ocorrências nas músicas do Rap e do Funk brasileiro, é algo necessário para que  seja explicitado como eles servem de instrumento de engajamento social, crítica e resistência.

A partir do contexto histórico, dos gêneros Rap/Funk, além da exposição das vivências nas favelas cariocas, as vozes expressas pela intertextualidade marcam uma leitura profunda, e proporcionam um rico repertório de interpretações, ideias, sentimentos e conceitos através dos intertextos empregados, o que nos propicia a readquirir conceitos e lembranças anteriores e enriquece em todo o tempo a história e a cultura do Rap e do Funk brasileiro.

Ao som do proibidão

Capa do álbum “Bonde do Tigrão”, 2001.

Os Proibidões, começaram na Cidade de Deus, que se transformou-se no celeiro de Bondes, como o Bonde das Bad Girls, Bonde das Maravilhas, das Boladas e Bonde do Faz Gostoso. Esses foram só alguns dos grupos que seguiram a linha atitude de Tati Quebra Barraco. Alguns bondes da CDD se destacaram a ponto de gravarem seus próprios álbuns, entre eles o Bonde do Tigrão.

A primeira década do século XXI terminou ao som dos proibidões. Nessa fase, o Funk encontrou na pirataria a falta de barreiras que precisava para prosperar. As coletâneas gravadas em CD-R traziam encartes que debochavam da indústria fonográfica. O repertório mesclava proibidões e neuróticos.

Os proibidões narram verdadeiras epopeias sobre poder das armas empunhadas por facções, como o Comando Vermelho (CV) e 3º Comando, nas batalhas contra a polícia. Já os neuróticos trazem a linguagem crua da favela em letras que se referem ao sexo, sem eufemismo ou duplo sentido.

Em 2013 a forte repressão do governo ao tráfico nos morros e a instalação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), inibiram os MCs do proibidão que driblaram esse contratempo levando para os bailes do asfalto o Funk Ostentação. Eles preservaram a batidas dos proibidões, mas substituíram as letras que falavam sobre o culto às armas e crimes, pela exibição de grifes, marcas e objetos de luxo.

“Selvagem, à margem”

Capa do álbum “Gigantes” / Arte: Maxwell Alexandre

“Julius”, do rapper carioca Bk’, é a quinta faixa do álbum “Gigantes” lançado em 2018, e é uma música de ampla subjetividade, que mistura referências do funk proibidão das favelas cariocas do Rio de Janeiro, com o seriado “Todo Mundo odeia o Chris” ambientado no Brooklyn/ NY. O principal elo que une essas distintas referências é a figura do homem negro, e o sistema em que ele se cria.

A associação do homem com o ambiente em que ele nasce, é respaldado pelo filósofo Thomas Hobbes e sua tese de que o homem já nasce mau, ele não sabe viver em sociedade e precisa de um estado autoritário, que dite as regras, as normas de convivência. Julius já começa em um cenário caótico de “guerra”, onde a vida que é “referência se torna interferência”, ressaltando uma dicotomia, prosperar é participar dessa guerra e desfrutar de seus ônus e bônus.

Essa é realidade da comunidade e de seus moradores, muitos ali apenas vítimas de um sistema racista que desde a abolição da escravatura não contribui para inserção do negro em sua sociedade. Essa exclusão age diretamente na reprodução da criação de futuros marginais, crianças “selvagens à margem”, projetos dessa situação vulnerável.

“12, 157, Julius, dois empregos”

A partir desse momento, a música faz uma referência indireta a um personagem conhecido popularmente. Fabiano Atanásio da Silva, ou “FB” integrante da facção Comando Vermelho, liderou o tráfico no Complexo da Penha, Chapadão, Juramento, e outras comunidades. Ele ficou conhecido por ter o costume de guerrear com seus rivais, com seu bonde conhecido como “Trem Bala”. FB se destacava pelas constantes invasões aos territórios inimigos, entre elas, as que mais se destacaram foram no morro da Mineira, Macacos e Serrinha.

Foto: MC Smith / Reprodução Instagram

Sua vida no Complexo da Penha era como de um Rei, levando uma vida extremamente luxuosa e de ostentação, com roupas de grifes, carros importados e muitas mulheres. No auge de seu poder e domínio nos morros, ele virou tema do funk “Vida Bandida 1” do MC Smith. Já no seriado “Todo mundo odeia o Chris” (2005–2009), Julius é o pai da família negra em um bairro pobre de Nova York, ele mantém dois empregos para sustentar sua família, e se mostra sempre extremamente preocupado com suas finanças. O vínculo entre esses dois mundos é o verso  “12, 157, Julius, dois empregos”, remetente a dois artigos do Código penal brasileiro. (Artigo 12 :Tráfico de drogas); (Artigo 157: roubo mediante ameaça e violência), como se esses fossem os dois empregos do Julius.

Esse paralelo feito entre esses universos é o exemplo de como a imagem do homem negro em determinadas áreas de instabilidade distorce a sua imagem perante a sociedade. O medo que se cria pelo símbolo da bandidagem e do crime está associado a uma estrutura racista e punitivista que sofre consequências diretas e indiretas de seu preconceito. A presença dessa faixa em um álbum de Rap nacional hoje, não é apenas para contar ou glamourizar a rotina do tráfico, mas como em sua profundidade, ela entrega de maneira madura a vivência para quem não tem contato com a mesma.

“Traz um X9 pra mim

Sabemos que certas músicas, ou fragmentos musicais, por vezes estereotipados, acabam fazendo parte da memória coletiva de uma comunidade, e que funcionam como indicadores de determinados gêneros ou estilos musicais, de práticas sociais e de repertórios específicos. No Rap, o resgate do Funk como uma referência, é um caminho acertado para abordar assuntos como tráfico de drogas quando este retoma ao proibidão dos anos 2000 e seus inúmeros representantes.

Nos versos, “Quer dindin, cachorro? Traz um X9 pra mim” e “Mas tá fortão na hierarquia” é possível resgatar as referências usadas pelo rapper para compor sua canção: os funks “Vida Bandida 1” e “Vende um X-9 pra mim”, de MC Smith e Mr Catra respectivamente.

Fabiano Atanásio da Silva, conhecido como “FB do Trem Bala”, foi um importante traficante carioca nos anos 2000, comandando várias favelas, vivendo uma vida de luxo e ostentação, que teve sua vida transformada em funk por MC Smith em 2007. A referência do trecho é retomada e exposta no verso “O nome no proibidão para que o mundo ouvisse” revelando que esse personagem da música de Bk’ é inspirado em FB do Trem Bala. Já a música de Mr Catra retrata a vida dos traficantes da favela ao lidar com traições dentro das facções, na qual a resolução vem de maneira violenta e cruel.

Foto: Mr Catra / Reprodução

Encontra-se nesses trechos, intertextualidade implícita, pela alusão direta aos trechos de origem. Na intertextualidade implícita, a fonte não é citada, entretanto, o receptor é capaz de deduzir ou recuperar mentalmente que a ideia passada foi usada na construção do referido discurso, como é o caso de “Julius”, o contexto da música apresenta a guerra do tráfico nas favelas utilizando um personagem de dentro da mesma. O Rap e o Funk são gêneros ligados entre si por serem oriundos de uma mesma época e contexto. Tanto o Rap quanto o proibidão são produzidos a partir de um problema social, de segurança pública e de racismo estrutural em que o Brasil está inserido.

É importante salientar o ambiente cercado de preconceitos pelos quais os compositores encontravam-se para produzir; o Rap e o Funk ainda são gêneros musicais caminhando para sair de um estereótipo marginalizado, todavia, por meio da intertextualidade lhes assegurou, a riqueza de detalhes a serem explorados, sensibilidade, reflexão e crítica social que os gêneros musicais em questão demandam, seguindo as particularidades de cada rapper e cada área.

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