Foto: MC Daleste

Que Baile é Esse? Funk

No Dia Estadual do Funk em SP, homenageamos esse movimento que ano após ano vem lutando contra o preconceito e a repressão policial.

Por Thiago Nacao e Go Magalhães

Era trabalhador, pegava o trem lotado
Tinha boa vizinhança, era considerado
E todo mundo dizia que era um cara maneiro
Outros o criticavam porque ele era funkeiro
O funk não é modismo, é uma necessidade

Rap do Silva, MC Bob Rum

Estigmatizado e quase criminalizado, o Funk é uma cena que se desenvolveu nas comunidades cariocas em meio à repressão dos anos da ditadura, desceu pro asfalto nos anos 90 e tomou o globo. A real é que, apesar do Funk hoje ter seu próprio dia e ser reconhecido como patrimônio cultural brasileiro, ter cifras e números monstruosos, ele ainda incomoda muita gente. E incomoda justamente por ter dado voz àqueles que até hoje tentam ser silenciados pelo Estado e têm seus bailes violentamente repreendidos pela polícia (alô Dória).

Foi num baile black

Gerson King Combo e Stevie Wonder no estúdio de gravação Odeon, Rio de Janeiro, 1972

Falar do Funk é falar do baile. Como afirma Reginaldo Coutinho, o Funk é um movimento sociocultural cujo gênero musical foi desenvolvido para a dança e que desenvolve sentido político para seus adeptos, dando visibilidade a uma parcela da sociedade que foi (e é) histórica, geográfica e socialmente marginalizada no Brasil. Foi em clubes cariocas como o Renascença e o Astoria que figuras como Ademir Lemos, Big Boy, Mr. Funky Santos e Gerson King Combo surgiram e fizeram história nos bailes da década de 60/70 que, inspirados na onda do Funk/Soul estadunidense, criaram espaços para que os moradores dos subúrbios cariocas pudessem ter acesso ao entretenimento que ficava restrito ao centro.

Era o início do movimento Black Rio, movimento político e cultural que através de equipes como a Soul Grand Prix, Furacão 2000, Cash Box e Dynamic Soul exaltavam o orgulho negro em um Brasil em plena ditadura. Apesar da ditadura, os bailes comiam soltos, lotando os clubes onde os DJs de cada equipe competiam entre si para ver quem traria o último lançamento musical ou alguma técnica nova que desenrolou.

O sucesso dos bailes Funk era tão grande que o baile de lançamento da primeira coletânea da Soul Grand Prix, no Guadalupe Country teve a presença de mais de 15 mil pessoas. Mas ao mesmo tempo em que os bailes Funk se consolidaram, a grande mídia também se consolidou como um dos maiores perseguidores do Funk. Perseguindo e ridicularizando a luta racial dos blacks que, junto a opressão policial da época, dava prejuízos enormes para as equipes de som, destruindo os equipamentos e, muitas vezes levando os donos e membros das equipes para interrogatórios. Devido a isso, os bailes se tornaram menos politizados ao mesmo tempo em que os anos 80 foram marcados por um processo de renovação na estética musical que os bailes tocavam. Um gênero que surge no sul dos Estados Unidos, inspirados pelo som que Afrika Bambaataa produzia.

Baile Funk, Rio de Janeiro, 1976

Funk Brasil

Os anos 80 foram um marco importante na construção do Funk como conhecemos hoje. Foi nessa época que a Roland lançou o lendário modelo de bateria eletrônica TR-808 cujos graves e arranjos influenciaram o Hip-Hop em NY, o House em Chicago e o Miami Bass na Flórida.

O Miami Bass, na contramão do som que era produzido em NY, trazia nas suas letras temas menos politizados e mais sexualizados, com o intuito de celebração e festa. Ele logo caiu nas graças dos frequentadores dos bailes Funk cariocas que, encontraram no Miami Bass um estilo de música mais dançante. Foi também a época dos “melôs”, paródias em português das músicas que os DJs da época tocavam nos bailes. Clássicos como “You Talk Too Much”, do RUN DMC e “Whoomp! (There It Is)” viravam o “Melô do Tomate” e “Uh! Tererê”, respectivamente.

Capa do álbum “Funk Brasil”

Foi então que em 1989, DJ Marlboro lança o “Funk Brasil”, álbum de 8 músicas que rebatizou o Miami Bass tupiniquim, e manteve no nome a identidade dos bailes que surgiram anos atrás. Mais uma vez, o som que tocava nos bailes funk estourou e após o lançamento do “Funk Brasil”, as equipes de som e os DJs começaram a organizar festivais e concursos nos bailes em busca de novas vozes para cantar a realidade das comunidades e pedir paz nos bailes. Surgem assim os Bailes de Corredor e os Bailes de Galera, que através das suas competições de melôs e Raps lançaram os primeiros MCs de Funk.

Durante essa época, o Funk se desenvolveu em cima das batidas vinda dos EUA, como o Volt Mix do DJ Battery Brain e o Hassan. Juntando elementos melódicos e harmônicos nacionais como o samba, cantigas de roda e outros estilos musicais de matrizes afro-diaspóricas, dando início ao processo de nacionalização do gênero. Nomes como Cidinho & Doca, MC Marcinho e Claudinho e Buchecha são alguns que podemos citar que marcaram essa época com hits que furaram a bolha do subúrbio carioca e conquistaram espaço na mídia.

Diversão hoje em dia não podemos nem pensar
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar
Fica lá na praça que era tudo tão normal
Agora virou moda a violência no local

Rap da Felicidade, Cidinho & Doca

Proibidão e Proibição

Em 12 de outubro de 1992, a ascensão do Funk sofreu um golpe duro ao ser associado pela mídia ao arrastão de Copacabana e Ipanema, sendo atacado ao longo de toda década pois era visto como instrumento de aliciamento do tráfico onde os bailes eram vistos como pano de fundo para o comércio de drogas. Em 95, a câmara do Rio instaurou uma CPI para investigar a ligação do Funk ao tráfico e, óbvio, não achou nada. Mesmo assim, da mesma forma que aconteceu com o Samba anos atrás, mais uma vez uma manifestação cultural ligada à população preta, pobre e periférica foi estigmatizada.

Moradores de Paraisópolis protestam contra morte de jovens no Baile da DZ7 / Foto: Daniel Arroyo

Esse período de criminalização, como bem destaca Adriana Facina, vem acompanhado de um processo histórico mais amplo, que é a transição do fim da ditadura para a imposição da agenda neoliberal por parte do Estado que, até hoje, criminaliza a população periférica pelo simples fato da sua existência. Um projeto que busca convencer a classe média de que não só o pobre é uma classe perigosa, mas também seu modo de vida, valores e cultura o são.

O nosso som não tem idade, não tem raça
E não tem cor
Mas a sociedade pra gente não dá valor
Só querem nos criticar pensam que somos animais

Som de Preto, Amilcka e Chocolate

Condenado à ilegalidade, o Funk passa o final dos anos 90 e início dos anos 2000 focado em cantar o cotidiano das favelas, sendo esse estilo de produção chamado de proibidão. Com a popularização dos equipamentos de produção, mais pessoas começaram a produzir e foi assim que em 98 os DJs Luciano e Cabide criaram o beat do Tamborzão. Base eletrônica que ao incorporar sonoridades do candomblé, da capoeira e do samba dominou o Funk pelos anos seguintes e até hoje tem seu espaço em meio a infinidade de subgêneros que surgiram.

Só um tapinha / Legalize Já

No início dos anos 2000, o Funk mais uma vez volta aos holofotes da mídia devido ao sucesso de hits cujas letras eram carregadas de duplo sentido. Foi nessa época que nomes como Bonde do Tigrão, MC Serginho & Lacraia, MC Bola de Fogo, e Naldinho e Bela fizeram fama com sons que eram mais aceitos pela classe média e alta. Na bota dessa onda, surgiram também as primeiras MCs de Funk que, na vanguarda cantavam o empoderamento em letras que falavam sobre sexo, autoestima e o protagonismo da mulher. Aqui fica um salve pra Tati Quebra-Barraco, Valesca Popozuda e Deize Tigrona, inspiração até hoje pra cena.

Como a matéria do Perifa no Toque descreve, apesar do sucesso na época, o Funk continuou sendo atacado e sofreu várias tentativas de criminalização. Em 2008 foi criada e aprovada a lei 3410/200 que, dentre uma série de normas reguladoras, tentou restringir a realização dos bailes à lugares fechados e que tinha uma série de condições que praticamente tornava inviável a realização dos mesmos. No mesmo ano, MC Leonardo fundou a APAFunk (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk) que pressionou a ALERJ e conseguiu aprovar em 22 de setembro de 2009 a Lei nº 5543 que define o Funk como Movimento Cultural e Musical de caráter popular.

Já em São Paulo, em 2013 a câmara dos vereadores apresentou uma proposta que proibia a realização dos fluxos nas vias públicas. O mesmo projeto foi vetado pelo então prefeito Fernando Haddad. Ainda assim, as operações pancadão estão mais ativas que nunca.

Em 2016, foi aprovada a proposta feita pela deputada Leci Brandão, da criação do Dia Estadual do Funk de São Paulo. Celebrada no dia 07 de julho, em homenagem à data da morte do eterno MC Daleste.

Ostentação fora do normal

Os anos 2010 foram marcados pela ascensão do Funk paulista e da baixada. O Funk Ostentação surge cantando o desejo da quebrada de ter acesso ao dinheiro e ascender socialmente. Alexandre Barbosa Pereira fala em um artigo que esse estilo de Funk viralizou por dois grandes motivos.

O primeiro deles, é devido ao crescimento econômico acelerado que o país vinha tendo. Causando assim a ascensão econômica da classe C, que deu liberdade pra galera da quebrada sonhar. MCs como Rodolfinho, Guimê, Boy do Charmes e Menor do Chapa eram algumas das vozes que cantavam o desejo de levar uma vida ostentando e sem se preocupar mais com os perrengues do dia a dia.

Já o segundo foi o crescimento do uso da internet e com isso, a profissionalização dos clipes de Funk. Produtoras como Kondzilla, Funk TV e KL Produtora começaram a investir pesado na produção dos clipes que,  conseguiam sintetizar tudo aquilo que o Funk cantava na época. Daí pra frente o Funk se consolidou como uma indústria independente que se manteve graças à monetização de milhões de visualizações nos clipes.

As vertentes do Funk

Assim como o Rap o Funk tem uma ramificação bem diversa de vertentes, algumas carregam uma bagagem regional para essa nova identidade, outras apenas agregam elementos de gêneros ainda mais diversos, selecionamos e falamos um pouco mais de alguns desses para vocês:

A marcante sonoridade do Funk de BH

DJ PH da Serra (Foto: Reprodução Deezer)

O Funk mineiro vem ganhando cada vez mais popularidade nos últimos anos, muito disso vem da peculiaridade de seus instrumentais, diferente do que vemos no Rio de Janeiro que abraçou beats mais acelerados, o funk de BH costuma ir através de melodias mais lentas. Para completar a atmosfera é recorrente o uso de sons mais agudos e a adição de barulhos de vidro sendo quebrados que fazem com que essa sonoridade seja marcante para a região. Em entrevista para o portal Kondzilla o DJ TG da Inestan fala que um dos primeiros a trabalhar dentro dessa estética sonora foi o MC Delano, responsável por faixas como “Na Ponta Ela Fica” e “Que Grave é Esse”.

Nomes como MC L da Vinte, MC Kaio, DJ PH da Serra, DJ Wesley Gonzaga e MC Rick são alguns dos responsáveis pelo crescimento da vertente pelo país. O último citado inclusive é um dos atuais fenômenos do funk nacional, seus lançamentos não precisam de mais do que uma semana para atingir a marca do milhão, mostrando mais do que nunca que o funk de Belo Horizonte já é uma das vertentes do funk de maior sucesso Brasil afora.

Quando o baile virou rave, o nascimento do FUNK RAVE

DJ GBR (Foto: Reprodução Twitter)

Em 2019, o joseense DJ GBR teve a inusitada ideia de misturar a música eletrônica com o funk paulistano, a fórmula mágica foi basicamente a força dos graves do eletrônico com a bateria paulista e a partir da mistura desses elementos o baile de fato tinha virado rave.

Seu primeiro lançamento foi o “BEAT HEY HEY HEY” que usa a faixa “Hey Hey Hey” do duo Chemical Surf apenas até o drop do beat, depois disso a track é totalmente tomada pelo funk.

Outros DJs também vem produzindo o Funk Rave de maneira bastante singular fazendo com que a vertente se mantenha em destaque até os dias de hoje, nomes como GP da ZL, DJ Piu e DJ W-Beatz são alguns desses.

O Ritmo acelerado do 150 BPM

Iasmin Turbininha (Foto: Reprodução Soundcloud)

Não é preciso de muito para pontuar a principal característica do 150 BPM, seu nome faz isso por si só, a vertente que se originou nos bailes do Rio de Janeiro tem sua produção em 150 batidas por minuto, que consequentemente a torna mais acelerada comparada ao que conhecemos do funk paulista.

O boom do 150 veio por meio dos DJs como Rennan da Penha, Iasmin Turbininha e FP do Trem Bala com seus icônicos podcasts, porém o primeiro a construir algo baseado nesse ritmo frenético vem diretamente da Nova Holanda, estamos falando do DJ Polyvox. Vendo seu filho batucando em uma garrafa pet o DJ teve a ideia de introduzir o “Tambor Coca-Cola” em uma produção com mais batidas por minuto.

O Brega Funk que ganhou o Brasil

MC Loma e as Gêmeas Lacração (Foto: Reprodução Instagram)

Apesar de um BOOM relativamente recente o Brega Funk nas regiões Norte e Nordeste ele é produzido a mais de 10 anos, a mistura do romântico do Brega com as batidas do funk já eram feitas por MC Leozinho e DJ Serginho com a faixa “Rap da Cyclone”.

A explosão em todo território nacional pode ser dita que aconteceu com MC Loma e as Gêmeas Lacração após o lançamento de “Envolvimento” em 2018. Após isso, diversos outros nomes começaram a ganhar seu espaço como Dadá Boladão, Troinha, Tocha entre outros.

O Brega Funk também tem dentro de si um nicho muito interessante onde produtores pegam músicas já lançadas e as caracterizam para encaixar dentro da vertente, por exemplo como o DJ Lucas Beat fez nessa versão de “Lonely” do Akon.

Apesar dos nossos selecionados, a pluralidade de vertentes dentro do funk é bastante diversa, do Mega Funk de Santa Catarina ou até em camadas ainda mais profundas como o “Beat Bolha” carioca, o funk leva um pouco de cada canto do país consigo em cada caracterização, e não à toa o gênero é um dos mais ouvidos do país.

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