Speedfreaks
Speedfreaks - Capa do filme

Projeto SpeedVive: ao Speed, com carinho

No aniversário de 49 do rapper Speed, conversamos com Rafael Porto, guardião do legado do rapper através do projeto SpeedVive.

Por: Dj Yume, DJ Nobru Izru e DJ DZ.

Se Speed estivesse vivo, completaria 49 anos hoje, em 16 de maio de 2021. Claudio Marcio de Souza Santos nasceu em Niterói/RJ e começou sua carreira musical nos anos 80. Até sua trágica morte, em 2010 (a tiros, em sua cidade natal), o rapper, produtor e videomaker lançou 6 álbuns, 2 EPs e 3 demos. Além disso, teve em sua trajetória, diversas parcerias, projetos inacabados, coletâneas e participações.

Speed por Victor Hass / Pedro Old

Pode-se dizer que ele é o verdadeiro favorito dos seus favoritos. Speed foi o precursor do estilo carioca de se fazer rap. Se na história existiu/existe Quinto Andar, ConeCrewDiretoria, Filipe Ret falando sobre festa, gastação, maconha sem deixar o teor político de lado, foram sob influência da escola de SpeedFreakS e Planet Hemp.

Nos anos 80, Speed integrou duas bandas: Últimas Consequências e Jungle Junkie Bullets. Nos anos 90, fez uma parceria com Black Alien e DJ Rodrigues, formando a banda Speed Freaks. Na mesma década, participou do Planet Hemp ao lado de Marcelo D2. E todas essas produções, além de todo o trampo solo, está ao nosso alcance hoje graças a Rafael Porto, guardião da memória do artista, através do projeto SpeedVive.

Rafael criou o projeto com o objetivo de popularizar o nome do rapper na história da música brasileira. Além de todo o acervo musical organizado em seu canal do YouTube, o projeto já tem um livro biográfico publicado e em breve será lançado um documentário.

E para a matéria de hoje, trocamos uma ideia com o Rafael. Vem com a gente pra saber mais sobre esse projeto sensacional.

Kalamidade: Quando foi seu primeiro contato com a arte do Speed e se possível, você lembra a primeira música que ouviu dele?

Rafael: Não conheci o Speed pessoalmente. Eu já tinha escutado algumas músicas dele com o Black Alien, antes do incidente, mas passei a dar uma atenção maior depois que ele nos deixou. Isso foi em 2011, logo após eu entrar para o curso de áudio/visual lá em Botafogo. Nessa época, percebi que não tinha muita informação sobre o Speed na internet e me despertou a curiosidade de saber mais e criar um material sobre sua carreira.

Até porque o Black Alien era mais conhecido e em 2013 saiu o seu documentário (Lírica Bereta), que inclusive teve uma exibição aqui na Reitoria da UFF (Universidade Federal Fluminense), evento lotado e teve até gente que ficou pra fora. Mas enfim, respondendo sua pergunta, a primeira música com certeza foi em “Black Alien & Speed”, mas não lembro exatamente qual delas, rs.

K: Quando surgiu a ideia de começar a falar sobre a vida do Speed?

R: Eu comecei fazendo um blog de fã ainda, nada profissional. O blog chamava speedfreaksalendaviva.blogspot.com, acho que era algo assim. Nesse momento eu comecei a fazer um site simples com álbuns, fotos e vídeos. Depois que fui organizando as minhas informações no computador e começando a criar uns textos, além de inserir fotos e álbuns que achava na internet. No blog tem aquilo de cada post ter comentários e muita gente acabou chegando com informações novas, fitas cassete gravadas sei lá onde. Aí eu vi que as coisas entre os fãs estavam mesmo fluindo.

K: Com toda essa interação de fãs, foi nesse momento que você decidiu fazer algo mais sério como o livro, por exemplo? 

R: Depois do blog eu criei a página do Facebook e vim com uma visão mais de documentarista. Tudo começou com a pesquisa histórica, tipo “quem é esse cara?”, “o que ele fez lá em 1990, 91, 95…?”, pegar essas datas e organizar tudo. Consequentemente eu acabei encontrando a Lia Santos (Irmã de Speed) na internet, pois, na época estava sendo lançada a biografia do Gilber T e o Pedro de Luna que estava produzindo esse material.

A partir desse contato com eles eu acabei falando com a Lia e ela era a pessoa que tinha todo o material do Speed guardado. Depois de um tempo ela acabou confiando em mim e deixou o HD pessoal de trabalho do Speed comigo. Com esse material em mãos, o primeiro passo foi criar o canal no YouTube chamado Speed Vive, projeto que dura até hoje. Lá eu consegui organizar todos os álbuns e com as fotos de capa corretamente. 

É interessante que o Speed tinha uma “premonição”. Quando fui escutá-lo depois disso tudo, percebi que tinham músicas que falavam da sua morte exatamente como ela aconteceu. A última que ele lançou (A morte do Jogo), se você analisar, é uma carta de despedida.

Rafael Porto para o Kalamidade

K: Depois de todo esse conhecimento e material adquirido, como foi essa caminhada até a criação do site? Nesse momento vocês já estavam fazendo o livro? 

R: Eu comecei em 2015/16 a postar as paradas no YouTube, mas só em 2018 começou esse lance do site e do livro. Fiquei uns 3 anos acumulando material, fazendo pesquisas, entrevistando algumas pessoas, porque eu precisava me “contaminar” desse universo pra replicar isso no filme. 

K: O Speed seguia um pouco o método de trabalho que 2Pac e Sabotage seguiam: Escrever, gravar e soltar na rua num período muito curto. Sabemos também que ele deixou poucas músicas incompletas. Será que esse material não concluído poderá sair futuramente, como numa participação com outros músicos, por exemplo?

R: Essa questão das músicas incompletas é um pouco mais complicada, porque os fonogramas são a herança que ele deixou. Sempre deixei claro que nunca quis (e nem quero) me apropriar de algo dele, então nunca pensei em fazer projetos envolvendo músicas dessa forma. Se caso surgir alguma proposta para usar ou dar continuidade nas músicas incompletas, beats do Speed ou algo do tipo e a Stella, que é a filha, autorizar, aí está tranquilo.

Por exemplo, eu tenho todas os canais abertos da “Egotrip”, som que é quase um trap, e tenho uma ou duas estrofes rimadas e até pré-mixadas Até as músicas prontas mesmo o que eu tenho é o WAV e mais nada, porque ele produzia, exportava e excluía o projeto aberto pra não ficar ocupando espaço. 

K: Como fluiu essa parceria com o Selo Primata? Vocês pretendem fazer um novo drop futuramente? Vocês lançaram o drop de pré-lançamento do filme agora, podemos esperar novos materiais com outras imagens além das que estavam no livro?

R: Acho que 90% das fotos do livro foram de pesquisas minhas e reportagens mesmo, rs. Essa parceria com a Primata foi uma parada que rolou bem aos “48 do segundo tempo” do filme, num momento que estava pra fazer ou não o crowdfunding. Então, como eu fiz o do livro e deu muito trampo, pensei que não teria como fazer mais um sozinho. Propus ao Eduardo e Gustavo (do selo Primata) para fazerem a identidade visual do filme e se possível, criar uns produtos, como boné e camiseta. Eles se amarraram na ideia e no projeto.

Então, nós fizemos a campanha e pedimos umas sobras da coleção para poder soltar no site. Estamos pensando em lançar mais coisas, talvez uma camiseta tipo a branca “Faces”, amarela e preta e etc. Vamos aguardar o filme sair, para que o público conheça mais a caminhada dele e, dando resultado, podemos continuar sim.

K: Tem alguma data para o lançamento do documentário? Além disso, há algum pensamento já em um projeto para estreia? 

R: Nós fomos selecionados para exibi-lo em um festival de documentários musicais que vai rolar dos dias 16 à 27 de junho e o filme vai passar nessa grade.  Vai ser bem legal!

K: Tá tão perto! A gente bem que podia organizar uma audição coletiva com as mídias de rap depois desse lançamento, ein?

R: Claro, pô! Vou ficar muito feliz! O projeto é bem isso, eu que faço. Então todas as pessoas que chegarem pra somar, serão recebidas de braços abertos. Tem o pessoal que veio ajudar na edição e filmar algumas partes com um drone, trabalho essencial pra finalização do doc. E eles me encontraram através do teaser que tínhamos soltado. A parada é agregar, né? Pelo projeto e pelo Speed, que deve ser sempre mais falado e estudado. Eu fico feliz porque tem um start que vai dar liga pras pessoas/fãs terem novas ideias e consequentemente, mais material pra fazer. 

K: Você disse que incluirá o áudio da entrevista da Monique Barcellos no doc. Mas aquela entrevista não está completa no YouTube né… Teremos informações inéditas tiradas daquela conversa?

R: O grande segredo do filme são as imagens de arquivos inéditas. Eu tenho a entrevista que o Speed deu pro Pedro de Luna, que coloquei no livro, e consegui mais duas entrevistas dele dando depoimento pra câmera que foram pra dois documentários diversos, um que ele gravou pro filme do Black Alien, que acabou saindo só um minuto, mas eu tenho o bruto. E outro pra um documentário chamado “Indústria Brasileira”, que uns gringos fizeram sobre as músicas do Brasil e um dos capítulos é sobre rap. Eu tive a ideia de fazer um documentário com depoimentos sobre ele, mas acabou rolando algumas dificuldades de falar com algumas pessoas.

Como essas pessoas são importantes nessa trajetória, acabei achando que não seria legal dar continuidade. Mas ao mesmo tempo sempre tive também a vontade de fazer um filme só com arquivos e quando veio a pandemia, decidi dar início nesse projeto, que acabou rolando já o primeiro corte do filme com 35 minutos. Ali eu vi que tinha um início, meio e fim. A partir daí, criei a temática do filme que é nessa onda de que ele volta do mundo dos mortos para contar a sua história. Bem autobiográfico. 

K:  Por falar em entrevistas, você fez algumas lives no fim do ano passado trocando uma ideia com uma galera próxima ao Cláudio, como Gilber T e Monique Barcellos. O que podemos esperar desse projeto? 

R:  Fiz essas entrevistas pra gerar um conteúdo sobre o assunto. Até tinha planos de trocar ideia com mais pessoas, mas acabou não rolando porque a agenda não batia. E também é um pouco complicado fazer tudo sozinho, pois, eu organizava a” live freaks” e ao mesmo tempo tinha que dar continuidade no material para o documentário, aí dei uma pausa. Mas eu penso em continuar com isso após o lançamento do doc, trocando ideia com os amigos próximos e outros fãs dele também. Tem o Max BO que quero trazer, pois, ele foi um dos que ocorreu desencontro de agenda. E se vocês do Kalamidade quiserem participar, já estão convidados!

K: Como chegou a notícia pra você da morte do Speed?

R: Lembro que na época eu escutava muito Black Alien & Speed, porque eu me identificava muito com as letras, eles falavam a minha realidade. Ao mesmo tempo eu fiz amizade com uma galera que tinha acabado de conhecer o Speed em Niterói. E muitos desses amigos, inclusive uma galera do rap  mesmo,  o conheceram na exata quinta feira que ele morreu, olha que loucura! Quando as rodas de rima estavam bem no comecinho, o Speed já era meio que uma lenda, então todo mundo falava “O Speed Voltou! Ele tá aqui em Niterói!”. E muitos ficaram trocando ideia com ele. Depois do falecimento eu “trombei” essa galera e aí veio a reflexão, né. “Pô, o cara estava aí vivão ontem, com show marcado e tals.” Foi muito triste, ainda mais como tudo aconteceu. Ele estava no lugar errado e na hora errada.

É interessante também que o Speed tinha meio que uma premonição. Quando fui escutá-lo depois disso tudo, percebi que tinham algumas músicas que falavam da sua morte exatamente como ela aconteceu. A última música que ele lançou (A morte do jogo), se você analisar, é uma carta de despedida. Então aquilo fica na mente. Será que ele foi atraído pelas letras cantadas? Será que ele escreveu o roteiro da própria vida? E mais, no seu último ano de vida ele organizou no HD que está comigo todo o seu trabalho, desde a biografia até suas músicas. Enfim, acredito que no filme eu consegui transparecer todo esse sentimento.

Ufa! Para nós do Kalamidade foi uma honra ter essa conversa e imersão no que chamamos de Speedverso, rs. Esperamos que para vocês também tenha sido boa essa experiência e aproximação. Comentem, sigam nossas redes Instagram e Twitter e digam o que acharam!

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