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SonoTWS: Febre90’s, o Boombap e as cápsulas do tempo

SonoTWS em um papo sobre como manter a história do Hip-Hop viva e atualizada.

Num dia efêmero desses a DJ Yume, vulgo Chefona do Kalamidade, chegou em mim e falou: “Mano, cê conhece SonoTWS? Tamo pra fazer desenvolver um negócio com ele, cê num quer pegar pra fazer não? Acho que cê vai curtir.”, e eu falei: “Ué, deixa eu dar uma ligada” e aí, amigues, bateu certinho, eu curti mesmo. Inclusive deixo aqui meu agradecimento à chefona.

Daí, então, fui pegar pra conhecer o som do mano antes de tudo pra me territorializar com a parada porque não conhecia nada. Comecei lá do começo, do que os streamers me proporcionaram, em 2013, com a beat tape de nome “T.W.S.”, sigla pra “The Wool Socks”, Os Meias de Lã, coletivo de grafitti.

Quando eu digo que encaixou, é no sentido de como batem as batidas e como são construídas. Dar o play no som de SonoTWS é como pegar um trem e viajar diretamente pra atmosfera do Boombap – aquele Boombap classicão mesmo – com os sons ditos “sujos”. E, claro, com o toque da autenticidade do artista que se coloca e coloca parte da sua história. É possível notar a influência dos sons jamaicanos, pois, ele, afinal, iniciou sua carreira musical como seletor no sistema de som jamaicano. Iniciou fazendo parte do Jurassic Sound System e se tornou um dos responsáveis pelo You & Me on a Jamboree, um dos blogs referência no garimpo de raridades jamaicanas.

Depois de me territorializar com a arte, tive a honra de conversar diretamente com quem faz a arte, o próprio SonoTWS, que foi imensamente solícito e natural na troca de ideias, arrumando um tempo entre um trampo e outro pra me responder.

Então, quem é SonoTWS?

Logo: SonoTWS

Marcelo, vulgo SonoTWS, há 8 anos é beatmaker/produtor, tendo lançado 9 álbuns [quase todos em fita cassete]. Seus beats, feitos com samples de vinis antigos na Emu SP1200 & Akai S950, seguem a linha mais suja do Rap. Ao longo da carreira, Sono assinou produções de diferentes artistas ao redor do mundo, trilhas sonoras [inclusive para a Nike] e tocou no Japão, Europa, Estados Unidos.

Troquei várias ideias com o Sono, e uma dessas foi a que se tornou o âmago – de como desenvolvi – deste texto, portanto, não comecemos da primeira pergunta que fiz, mas, do meio da entrevista. Eu perguntei o seguinte:

Kalamidade: O Boombap nunca vai perder lugar no Hip-Hop, mas, comé que você vê as outras paradas que se ligam ou assemelham ao Rap? Pique Trap, Drill, Grime, etc? Você se liga ou é full Boombap mermo nos seus ouvidos?

SonoTWS: Na minha visão o Boombap é a fundação do Rap, sem o Boombap não existe o Rap, tá ligado? Tipo, eu gosto de Drill, gosto de Grime, tenho bastante amigo que é influente, que me mostrou, me ensinou como o Cesinha (CESRV), gosto da molecada do Rio, SD9, VND, rapaziada do Covil… Trap mesmo eu não conheço muito, não tenho expertise pra falar, mas, eu memo, escutando música, 90% do meu tempo é Boombap, mano, não tem jeito. Eu não sei fazer outro estilo, nunca tentei, mas eu admiro o corre dessa rapaziada que tá vindo aí do Drill e do Grime, acho que tá vindo muito daora, com muita originalidade e com as ideia daora.

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Quando SonoTWS disse essa primeira frase foi quando a arte e o artista se complementaram numa visão só. Compreendendo um pouco da trajetória artística de Marcelo, que passa pela pixação, grafitti, Rap, garimpo de sons e o que já citei, passamos a falar não só de trampo, mas de manutenção de parte crucial da história do Hip-Hop, do Rap e do Boombap. Estamos falando de manter a história viva. Atualizada e viva, e isso se confirma ainda mais quando pergunto:

K: Primeiro de tudo: qual a fita com as fita k7? Perdoa o trocadilho, mas, achei foda pra caralho ser uma marca sua, nesse trampo novo do Febre90’s principalmente, mas queria te ouvir sobre.

S: Então, mano, sobre a parada da fita, fita k7, já é algo clássico na cultura das beat tape, tá ligado? Eu já colecionava antes de produzir, colecionava fita de Rap, sempre colecionei disco de música jamaicana e fita de Rap e fora que na cultura do beatmaker já é algo clássico, você grava sua beat tape, grava uns beat na fita e aí você troca com seu parceiro que é beatmaker, envia pra fora, já enviei pra fora, já recebi bastante fita. É uma cultura clássica do beatmaker e eu gosto muito. Gosto da sonoridade, a saturação que a fita dá, gosto também da atenção que você tem que dar, não tem aquela parada que você vai pular a faixa, você escuta o projeto inteiro, a sequência inteira quando a pessoa te manda, por exemplo: O beatmaker me mandou a beat tape dele, aí você escuta inteira a sequência, como que ele pensou a ordem, tá ligado? Porque hoje em dia nos streamers tem isso, né, mano? Você pode ir pulando de faixa, tem esse lance… Às vezes nem terminou de escutar e já dá o forward ali, já passa pra frente. E aí é uma parada que eu sempre quis desde que eu comecei a produzir, sempre quis lançar em fita, tá ligado? Então desde o meu primeiro lançamento eu lancei em fita, tá ligado? Acredito que seja a sétima agora com essa do Febre90, e o Febre90 eu quis já lançar em fita pra chegar com esse diferencial também, tá ligado? Pra gente ter – se Deus quiser e o grupo for pra frente – pro futuro poder falar assim: “Ó, nosso primeiro single tá aqui, tá ligado?”, é aquela parada física, tipo, como eu sempre falo: É como se fosse uma cápsula do tempo, tá ligado? Então, tipo assim, dia 30 de abril de 2021, cápsula do tempo, Febre90’s fez “No Piscar dos Olhos”, tá ligado?

SonoTWS e o MC carioca PumaPJL se uniram para continuar disseminando a efervescência do Rap underground (o Boombap) e a cultura urbana dos anos de 1990 com o projeto Febre90’s. Eles abrem os caminhos com o single ”No Piscar de Olhos”, que chegou aos serviços de streaming no dia 30 de abril via Tired Of People & Covil da Bruxa Ent.

O Febre já era um projeto que eu queria dar início. Aí, o Puma estava fazendo o EP dele, chamado “Naturalidade”, e ele deu um salve perguntando sobre beat… eu disse que tinha uns beats. E acabou que eu fiz dois beats pro EP dele e tivemos uma sintonia. Depois ficamos de fazer outros trabalhos juntos, de ser uma dupla, porque eu sempre quis ter um grupo. Acabou que a gente desenrolou algumas ideias, pegamos umas referências e começamos,

diz Sono sobre o início da dupla.

A robusta produção do Sono, feita no clássico sampler 12 bits E-mu SP-1200, tem batidas graves e “sujas”. Essa é a camada perfeita para que o rapper PumaPJL compartilhe com sagacidade e minúcia a realidade de muitos jovens que vivem no subúrbio do Rio de Janeiro. A Lis MC também chega junto, mantendo a potência no complemento das ideias com suas rimas afiadas. E para que a sonoridade tenha as mesmas características da era de ouro do Hip-Hop, a track foi mixada e masterizada pelo nova iorquino Nick Wiz, responsável por produções do Rakim, DMX, Cella Dwellas, Mad Skillz, Chubb Rock, Pudgee Tha Phat Bastard, Chino XL.

K: Pô, comé que foi trampar com o Nick Wiz que já trampou com uma galera finíssima do Hip-Hop?

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S: Pra esse primeiro single eu queria muito chamar alguém que viveu memo, que fez a parada dos anos 90, tá ligado? E vô te falar, o Nick Wiz é muito sangue bom, tipo, expliquei e falei também que a gente aqui é terceiro mundo e tal e, porra, foi bem fácil de trampar com ele. Às vezes a gente vê as pessoas assim, artista de puta renome, pô, o cara é uma lenda e a gente acha que vai ser mó treta falar e tal, as vezes foi mais fácil falar com ele do que vários maninho daqui, tá ligado? Então pra mim foi uma honra imensa, mano. Queria trazer essa expertise dele da sonoridade dele, da mix e da master no single “No Piscar dos Olhos” porque ele viveu a parada, ele vive a parada, então, a gente precisaria fazer com um mano desse calibre. E na próxima que a gente tá armando vai vir outro maninho da mesma pegada de calibre, a rapaziada pode aguardar aí que a gente tá tentando trazer de perto da gente os mano bom.

Decidimos fazer uma faixa por completo, em vez daquele lance de fazer mil guias e não sair nada. Então, decidimos que essa seria a primeira música e chegaria até o final com ela e aí a gente foi exercitando isso para não deixar nada pelo meio. Eu já estava fazendo esse beat, mandei pro Puma e rapidão ele fez uma rima. A gente também tinha ideia de chamar uma mina pra complementar o refrão. Aí, eu já tinha visto a Lis no Brasil Grime Show. Convidamos, e ela somou no refrão e também escreveu o verso.

Ao mesmo tempo que chega às plataformas digitais, “No Piscar de Olhos” também ganha versão física em fita K7. No Lado A está a música com as vozes, e no Lado B o instrumental – que só poderá ser ouvido na cassete. O número é limitado em 50 peças e estará disponível para compra no Bandcamp e Instagram do Febre90s. A ilustração da capa foi desenvolvida pelo grafiteiro e artista visual Ferran M.

Fita cassete do single “No Piscar dos Olhos”, de Febre90’s

O termo “cápsula do tempo” usado pelo próprio SonoTWS consegue traduzir bem a potência do trabalho, principalmente quando toda a estética de todos os seus trabalhos são transformados em fita k7, utensílio e símbolo marcante da cultura beatmaker, marcador de uma era na música, no Hip-Hop e, usando de expressões já usadas neste texto, marcador da fundação de movimento como um todo. Isso tudo acompanhado com um dos pilares do Hip-Hop que é o grafitti:

K: Comé que o grafitti influencia na sua arte? Nota-se pelas capas e tal que há uma confluência das artes, como que é isso pra ti no processo criativo e pá?

S: Então, antes d’eu começar a fazer beat eu já era grafiteiro, já tive esse corre na rua de pixação, de grafite, então, pra mim, é uma influência total. Eu penso em criar música, batida pra lembrar desses rolê, pra curtir esse rolê com essa atmosfera, atmosfera da rua, a vivência que eu tive com a minha turma, com meus manos, então influência total, eu gosto. Não tô ativo tanto quanto antes, mas ainda faço pelo menos todo mês, faço um, dois, faço uns pra rua e não saberia dizer se não fosse um ou outro, é tudo junto, tá ligado? Eu sempre peço pros meus parceiro do grafitti, nesse do Febre90’s, foi um parceiro nosso lá da Espanha que é muito zica, e ele quem tá cuidando da nossa parte artística e minha atenção é sempre convidar pessoas pra arte, mas, que tenham o rolê na rua, essa é minha preocupação sempre porque o artista traz essa realidade, tá ligado? Não é uma parada soft, então, todos os meus lançamentos que teve parte com grafitti tem esse cuidado também, de ser uma pessoa que faz grafitti, mas que faz grafitti da rua.

E num fechamento de ciclo dessa construção atmosférica da arte de SonoTWS, claro, depois de todo esse papo, eu não só queria como tinha de saber, afinal de contas, o que ele anda ouvindo, afinal, estamos falando sobre música e falar sobre música sem ouvir música é algo inexistente.

K: Que que tem te influenciado ultimamente, principalmente pros últimos trampos 2020/2021?

S: Pô, mano, eu escuto muito beat, muito beat tape. Escuto muito os meus amigos daqui. Posso indicar o Dr. Drummah lá de Salvador, o Thiago Frugoli aqui de São Paulo, escuto bastante o trampo deles que são parceiros… Eu faço parte de um selo lá de Portugal que agora tá na Escócia que chama Dusty Basement Records que é o dia inteiro no chat os produtor do selo mandando beat (…) Saiu o trampo do Supperbiro com o DJ Comum que gosto muito também. Gosto da Killa Bi e tô escutando muito também. Fora a rapaziada que tá na mesma pegada que a gente do Febre90’s tá fazendo ao redor do mundo. Tem Da Steez Brothaz da Colômbia, a rapaziada da Dinamarca Nat Kat, rapaziada da Suíça La Base & Tru Comers, tem o Jaloner, tem o Tha7Lyne, muita gente que tá fazendo essa sonoridade e eu escuto bastante, mano… Aquilo que eu falei na outra pergunta lá, 90% do meu tempo eu tô escutando Boombap, tô escutando música antiga, voltei de São Paulo escutando o disco do RPW que gosto muito, escuto muita rádio aqui da cidade que é a 105, rola o Espaço Rap que tava ouvindo também. (…) Gosto bastante dos episódios do Brasil Grime Show também, acho trabalho muito daora que os cara tão fazendo. Basicamente isso daí, eu escuto muito mais música antiga do que nova, tá ligado?

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