Foto: Reprodução "Bixa Travesty"

Bixa Travesty: Linn da Quebrada e o ano 3000

Bixa Travesty: Sobre possibilidade, potência e aprendizado.

Linn da Quebrada é um ser que me fascina. Acho que esta frase condensa especificamente e exatamente o sentimento que sinto quando penso em e sobre Linn da Quebrada.

Significado de Fascínio:

  1. Substantivo masculino;
  2. Característica ou habilidade de fascinar; aptidão para atrair (…);
  3. Sentimento ou sensação de profundo encanto; deslumbramento ou encantamento (…);
  4. Etimologia (origem da palavra fascínio). Do latim fascinum.
Foto: Reprodução

Conheci a arte da Linn há anos atrás, acho que entre 2017 e 2018 ou 2018 e 2019, e lembro que foi com a música “Bixa Preta”. Essa música aparece num tempo que estava vivendo um momento muito intenso de reflexões existências e sociopolíticas, em meio ao famigerado afrosurto também, início do término da minha graduação. Na verdade, muitos términos e muitas potencialidades de outros inícios (tais quais aconteceram de fato). Enfim, o sentimento ao esbarrar com essa faixa foi de “…Caralho…!”, sabe? E, logo, claro, me levou ouvir o impecável álbum da mesma “Pajubá” e basicamente em todo o caminhar do álbum é esse mesmo sentimento numa constante progressão. Aquele sentimento de um bom choque.

“Tá, é incômodo, mas, é só incômodo?”

Para falar do corpo e imagem dessa expressão, relembro o momento que ouvi e vi o clipe de “Coytada”, lançado em 2018, não vi sozinho, vi com as pessoas com quem morava na época e houve um comentário nesse diálogo saudável que foi: “A Linn ela vem pra chocar, pra incomodar” , e eu concordei e ainda sigo concordo em certo aspecto, mas, é pouco. Isso pairou na minha cabeça, me perguntava se eu ficava incomodado e, bom, o clipe de “Coytada” é uma psicodelia danada envolvendo banhos de leite, vibradores cortados, bolo de pau, é formidável e eu, sendo um homem-cis-hetero, foi no mínimo (maravilhosamente) aflitivo. E eu me perguntei, então, depois do comentário “Tá, é incômodo, mas, é só incômodo?” e, porra, definitivamente não é só sobre incômodo, muito longe disso.

Por isso eu digo fascínio, principalmente, depois do premiado documentário “Bixa Travesty”, de 2019, dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman, que mostra num intimismo cotidiano de Linn quase sempre ao lado da gloriosa Jup do Bairro – que tenho algumas coisas pra falar também mas fica pra outro texto – enquanto conta histórias dentro da sua própria história.

Quando Linn da Quebrada, vestida como cowgirl do espaço, do futuro, ao início do documentário, aparece apontando uma arma de luz, primeiro, diretamente pra câmera, em quem assiste e depois se vira, dessa vez, apontando a luz nos muros das ruas com a palavra “Bixa Travesti” ao som de “Submissa do 7º dia” é, literalmente, um tiro que, logo após essa introdução, inicia um discurso, de novo, diretamente pra câmera que tenho que citá-lo aqui na íntegra para que a compreensão seja quase direta:

Vocês, homens, vocês fizeram tudo muito direitinho, né? Vocês armaram o circo completo. Vocês se mancomunaram entre si, vocês fizeram seus joguinhos, fizeram as suas redes, vocês se ajudaram, vocês se beneficiaram, vocês estavam fazendo as coisas todas pra se protegerem. E deixando ao feminino num lugar recluso, competindo por vocês. Mas que joguinho sujo… Tsc, tsc, tsc, tsc… E acharam que a gente não fosse fazer nada, acharam que isso ia passar impune… Então, percebo que a tática, essa sua tática, também pode ser corrompida e pode ser usufruída por nós, pelo feminino. Nós podemos aprender, nós vamos invadir esses espaços, nós vamos aprender as suas técnicas e nós vamos melhorá-las… Nós vamos aprimorá-las e vamos usar entre nós. Vamos criar uma rede de apoio entre nós, vamos aprender a lutar, vamos pegar em armas, vamos pegar em nossos corpos como armas e aí o jogo vai virar pra vocês e eu não quero estar na pele de vocês.

Depois mostram-se cenas com momentos inesquecíveis no decorrer de todo o filme, tais como toda a saga simploriamente aventuresca atrás da luva perdida do Ney Matogrosso, todo o processo íntimo artístico, gravado, performado junto ao enfrentamento de um câncer, absolutamente todas as cenas de Linn e sua mãe, a tatuagem da palavra “ELA” na testa… como obra cinematográfica, expressão artística e autenticidade é impecável.

Isto posto, concretizo ainda mais o fascínio e destrincho, enfim, do porquê da palavra “fascínio”.

Foto: Reprodução “Bixa Travesty”

Linn da Quebrada tá nos anos 3000

Em momentos de conversas mundanas sobre música que Linn da Quebrada surgia no assunto eu sempre a referenciava com a seguinte frase: “Mano, enquanto a gente tá nos anos 2000 a Linn da Quebrada tá lá no 3000” e, me repetindo, acho que essa frase consegue especificamente e exatamente condensar qual é meu sentimento, daí a fascinação. Quando digo “no ano 3000” é no sentido mais futurístico, evolutivo, esperançoso e existencial que cabe a frase.

Futurístico no sentido de compreender que em questão de compreensão de si própria como ser que vive nesse mundo, compreensão essa a frente do seu tempo, compreende o presente e constrói o futuro só por ser e banca esse ser. Evolutivo não num sentido científico da coisa, evolutivo num sentido de norteamento, norteamento esse da possibilidade do corpo, da potência do corpo, da arte, da expressão. Esperançoso porque é formidável a possibilidade de existir um corpo e não só um único corpo, mas, vários corpos tão potentes diante dum mundo desgraçado; e existencial no sentido filosófico da palavra mesmo.

Foto: Cartaz de “Bixa Travesty”

Me vem à cabeça um didático e importante vídeo feito e postado pela Alina Durso, militante e comunicadora travesti, em que ela explica quais são as diferenças identitárias entre mulher trans e travesti – que, eu, sendo uma pessoa preta, logo remeto à famigerada dúvida do “é preto ou negro?” e simpatizo com o sentimento de cansaço em detrimento da repetição de tal questão – em que para além da diferenciação incumbida na dúvida, há uma explicitação da expansão da identidade travesti e mulher trans, na qual tal identidade é concebida e reivindicada principalmente por corpos pretos e latino-americanos, pois, não há tradução para o termo “travesti” fora da América Latina – o que é absurdamente contraditório, se tratando de Brasil, essa pátria latino-americana, que, ainda fazendo parte do território em que consegue dar gênese a uma palavra que denomina uma identidade inteira, também é o país que mais mata travestis no mundo.

O absurdo é chocante – onde nem toda travesti se identifica com o termo mulher e sim com o termo e identidade travesti, identidade essa que é feminina sim, mas, não se identifica necessariamente com a mulher, palavras da própria Alina. “Bixa Travesty” expande essa explicação a uma máxima, claro, íntima e individual, mas, indivisível da própria luta das travestis e das pessoas trans como identidade, símbolo e revolução.

Quando digo existencial, digo num sentido revolucionário de possibilidade do ser humano pra além do binarismo vigente que a sociedade – ocidental, principalmente – se estrutura, de tais amarras sociais morais que são concretizadas e intensificadas por tal binaridade, binaridade essa que é opressiva e castradora da liberdade que é possível e potente em cada ser humano. Logo penso em Kátia Tapety ao escrever isso, a primeira travesti a ser eleita para um cargo público no Brasil em 1992, na cidade de Colônia, Piauí. Inclusive, eleita três vezes vereadora e uma vez eleita como vice-prefeita.

Fascínio e possibilidade

Foto: Cartaz de “Bixa Travesty”

Veja bem, quando discorro sobre fascínio e possibilidades não é num sentido fetichista ou numa “exoticidade” da coisa, muito pelo contrário, todavia, compreendo o quão facilmente pode, esse aglomerado de palavras, passar pela tênue linha da interpretação deturpada – sei bem do tempo que vivemos – porquê quando uso o termo possibilidade não é num sentido de, usando duma máxima abrupta para exemplo, “pô, agora eu quero virar travesti” ou qualquer coisa do tipo, pois se fosse isso, eu estaria proferindo um caminhão grotesco de merda. Citando novamente o vídeo de Alina, não é sobre uma vestimenta que se coloca, mas, sim, sobre uma identidade completa. Falo da possibilidade de reflexão sobre a própria identidade ou o próprio conceito de identidade, sobre o próprio corpo, sobre a própria existência e sobre a potência de ser no mundo.

Compreendo esse fascínio que uso como denominação do afeto que sinto não é responsabilidade delas, das travestis ou das pessoas trans, mas, sim, das pessoas cis que identificam a binaridade, ou, como citado, também no vídeo de Alina, aquelas que não são travestis ou pessoas trans. A diferença demonstrada aqui que, normalmente, com uma sociedade antiquada, arcaica e assassina daquilo que difere da (tentativa) da hegemonia. Quando falo do fascínio é da admiração, compreensão e, então, aprendizado, aprendizado esse que pode ser instrumento libertador.

Acho, que em resumo, esse texto fala sobre possibilidade, potência e aprendizado.

Assistir a Linn da Quebrada afirmar seu próprio ser, sua própria identidade e a própria experienciação de ser, possibilita não uma afirmação superficial e desonesta – em mim, homem cis – sobre “eu quero ser assim” como se fosse sobre tirar ou colocar, mas, sim, a afirmação de “eu não sou assim, mas, há a possibilidade de ser de outras formas” formas essas que vão pra além de uma caixinha binária, de papéis de gênero, de identidade como algo taxativo. Linn da Quebrada, Kátia Tapety, Alina Durso, Erica Malunguinho, Erika Hilton, Danny Bond, Pepita, a existência dessas mulheres e travestis fazem a estrutura estremecer, literalmente, em suas bases e, a meu ver, é nesse estremecer que vive a chama revolucionária do ser humano.

Bixa Travesty

“Bixa Travesty” demonstra isso com proeza. Demonstra com um corpo, corpo esse de Linn da Quebrada, libertações ainda que em meio a desgraça, libertações que nós (cis), pelas sofisticações dos fascismos introjetados a essa estrutura velha, são castradas, castradoras e repudiadas da forma mais cruel, entretanto, há a existência desses corpos que podem servir de norteamento para a tentativa de saída dessa estrutura e isso é gigante.

Portanto, finalizo esse texto de forma simplória e direta com: Que bom que Linn da Quebrada (e todas as outras) existem e nos possibilitam esse norteamento, é só querer enxergar.

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