Dabliueme: sampleando do Jazz ao Samba e fazendo Rap de primeira

Dabliueme é o produtor que domina a arte de samplear, e nos leva numa viagem sonora do Samba ao Jazz.

Salve família, Gustavo por aqui em mais um Pega a Visão. Em março de 2021 o produtor, MC, mangueboy e rastaman Dabliueme, que traz consigo 20 anos de estrada junto à música, lançou o álbum “Aqui Jazz”.

Com um trabalho de referências fortes e importantes, carregado de ritmo, lírica e brasilidade, Dabliueme nos leva do Jazz ao Samba, com samples muito bem garimpados diretamente do vinil e conduz uma verdadeira banda de Jazz, colocando também à mostra toda sua bagagem ideológica, necessária e rara no atual cenário do Rap nacional.

O produtor trocou uma ideia com o Kalamidade sobre a sua trajetória na música, seus primeiros contatos com a produção, os primeiros equipamentos, a sonoridade rica dos seus trabalhos, a importância dos samples, suas principais referências e muito mais.

Vem com a gente e pega essa visão do Dabliueme!

A boa viagem com a música

Kalamidade: Salve Dabliueme, pra começar esse nosso papo eu queria que você contasse um pouco pra gente de como iniciou essa sua longa trajetória na música, como rolaram seus primeiros contatos e interesses com a música?

Dabliueme: Salve Kalamidade! Eu cresci vendo meu avô ouvindo sua coleção de discos e gravando coletâneas dos discos em fitas, era bastante LP de Samba, Bossa Nova, Nelson Gonçalves, que adoro e tenho até hoje em minha coleção, e sempre brisava com ele essa parada de música, disco, gravador de rolo.

Aos 10, 11 anos eu morava no bairro Ferrazópolis, em São Bernardo do Campo (SP) e já comecei a ouvir Rap sem saber que era Rap. Nesse período meus pais se mudaram pra Itapetininga (SP) e eu já cheguei conhecendo uma galera que fazia Rap, mostrei algumas poesias que fazia em meus diários, aí um deles falou: “Cara isso é Rap”.

E comecei ali mesmo naquele ano, 1997, dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, meu primeiro evento cantando minhas músicas. De lá pra cá eu venho estudando muito sobre mix, master, lancei 17 álbuns independentes e colaborei em mais uns 300 discos de amigos e amigas pelo mundo afora.

K: Aproveitando essa viagem ao passado Dabliueme, em “De Volta da Boa Viagem” você narra um pouco da época das suas primeiras produções, a relação e contato com os equipamentos, da época do primeiro gradiente e as produções em fita cassete. Conta pra gente sobre esse momento, das suas primeiras produções e equipamentos.

D: Meu avô era bem cuidadoso com os discos e com o gravador de rolo dele, não deixava eu mexer (risos). Mas ele deu pra mim e pro meu irmão, em 1996, um primeiro gradiente, um vermelinho que vinha com um microfone, aí eu pirei gravando minha voz na fita. Posteriormente ganhei um deck e um computador e ia sempre correndo pras bancas de jornais buscando revistas sobre estúdio, produção.

Naquela época não tinha internet em casa, nem existia YouTube, e essa facilidade de hoje. Hoje em dia o cara baixa o FL Studio, tucha autotune 100% na voz, fala “skr” e “yeah” e acredita ser um rapper (risos). Hoje ainda trabalho com equipamentos analógicos aqui no estúdio, gravo e mixo no digital e faço a masterização híbrida passando pelo analógico pra depois voltar pro digital, não sei se é isso que os produtores grandes fazem por aí, mas eu tenho gostado muito do resultado.

Sampleando: Samba, Rap e Jazz

K: Jazz, Samba e Rap são três fortes sonoridades presentes nos seus trabalhos, assim como em “Aqui Jazz”. Como você, enquanto produtor, sente a conexão entre essas sonoridades e aplica essa relação harmônica e natural entre os gêneros?

D: Som de preto né mano! O Jazz foi o primeiro estilo musical que vi os caras tocando e fumando um baseadão na sessão, sempre pirei em música preta cara, o Rock é preto também. Eu gosto da “sujeira” do Jazz. Captação da bateria com poucos microfones faz o instrumento soar como um todo e não um conjunto de tambores, os vazamentos dos mic dão um som bem da hora pra mim, adoro samplear Jazz. E Samba né, brasileiro, morador de morro, apreciador de uma boa caipirinha (bem preparada é claro), tô ouvindo Martinho da Vila agora na entrevista. Samba, Rap e Jazz toca bonito no meu tape.

K: Outro forte elemento que podemos destacar quando falamos em Dabliueme é o cuidado com o garimpo dos samples. Trazendo em vinil musicalidades brasileiras e Raps dos anos 90, seu trabalho mais recente é forte e preciso quando o assunto é sample. Como você enxerga essa importante prática do garimpo cuidadoso de samples, e como foi esse processo em “Aqui Jazz”?

D: O sample é a raiz do Rap! A MPC é um instrumento musical do Rap e eu mantenho viva essa cultura de samplear. Ao lado da minha MPC fica minha coleção de discos, eu tiro um na sorte e vou sampleando, às vezes um trecho, às vezes uma nota. Adoro samplear as vozes, acho que é uma maneira bacana de resgatar sons antigos e trazer pra uma nova linguagem, é muito cultural isso.

FYA BAND

K: Nesse último lançamento você montou uma verdadeira banda de Jazz, com 3 MCs, 3 Instrumentalistas e 2 DJs, apresentando uma complexidade sonora única para esse álbum. Como rolou a condução dessa banda para atingir esse resultado que ouvimos em “Aqui Jazz”?

D: Os instrumentistas já tem outra bandas e o Juliano Brasa (guitarra) sempre tocou comigo, faz uns 12 anos que tocamos juntos em alguns eventos. Eu primeiro fiz os beats e mandei pra ele gravar os solos, o cara pirou e fez as guitarras e baixo de todas as faixas. Aí então sentimos a necessidade de bateria, e entra o José Araújo, que gravou no home studio dele, mandou as tracks separadas e eu mixei. Os teclados tenho um grande amigo produtor que mora na Austrália e ele colaborou com duas tracks.

Os DJs são DJ Subrinho (campeão do Hip-Hop DJ 2020), que já era meu DJ oficial dos shows, e o tio dele, veterano dos veteranos, DJ Bndee. Depois do disco pronto, fizemos uma reunião virtual e oficializamos a FYA BAND que é a banda que vai me acompanhar nos shows (espero que em breve). Os MCs são participações de amigos que curto o trampo, Monkey Jhayam meu grande irmão de miliano, Rabay que é um gênio, e o grande mestre P.MC veio pra coroar a primeira faixa do disco, dando um axé. P.MC trabalha com a mesma gravadora que lançou o “Aqui Jazz” e de ídolo passou a ser ídolo-irmão. Tô muito feliz com esse álbum, acredito ser o melhor que produzi até hoje.

K: Se o cenário artístico era difícil antes da pandemia, essa situação não melhorou agora. Ainda assim, você lançou recentemente um novo álbum, e eu queria saber de você quais são os seus planejamentos em questões de divulgação deste novo trabalho, buscando espalhar o álbum para um público maior, ainda que lidando com as diversas limitações escancaradas pela pandemia?

D: O time Straditerra é forte! A gravadora da qual faço parte tem uma galera dando a vida pro meu trabalho e por outros trabalhos do selo e vamos pra cima, esse álbum é o primeiro que lançamos nas plataformas digitais, vamos lançar os mais antigos lá também. Esse trabalho vamos lançar em vinil e cassete para colecionadores visando isso mesmo, atingir outro público. E vou continuar oferecendo meus serviços de produção de beats, gravação, mix e master pro mundão inteiro, isso tem me salvado. Já mixei e masterizei som pra Jamaica, Inglaterra, Portugal, Angola, Quênia e praticamente todos os estados brasileiros, e minha família nem sabe disso (risos).

Papo de referência

K: Pra fechar esse nosso papo Dabliueme, “Aqui Jazz” traz um mar de boas referências musicais, e eu queria saber quais são os sons e artistas que estão batendo com mais força nos seus fones ultimamente e inspirando seus versos e suas produções?

D: Eu ouço música 25 horas por dia. Durante a composição eu tava pirando muito em Naná Vasconcelos, Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, Elza Soares, Chico Science, Cláudia, Dona Ivone Lara e Paulo Vanzolini, e comendo o disco da Billie Holliday. 

Não ouço esse som hype de hoje não. Gosto de caçar bandas e grupos undergrounds brasileiros, aqueles que têm poucas visualizações sabe? Gosto desses, comecei a entrevista com Martinho da Vila e finalizei ouvindo Dona Onete, catimbó fudido! Adoro!

Muito obrigado pela oportunidade, gosto muito do trabalho de vocês. Visitem o portfólio da Straditerra que tem coisas lindas por lá. Axé!

Nós que agradecemos pelo papo Dabliueme! Pra acompanhar os trabalhos e lançamentos do produtor, siga ele nas redes sociais e plataformas de streaming.

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