Foto: Crônicas Produções

A Caminhada do Alce – Isso é Rancho Mont Gomer

Conheça a história e o corre do Rancho Mont Gomer na eterna procura da batida rancheira.

Diretamente do Tucuruvi, Zona Norte de São Paulo, a banca Rancho Mont Gomer vem fazendo uma barulho respeitável e digno de holofotes dentro do Rap. Trazendo a essência dos anos 90, seu nome na cena e seu som nos fones dos amantes da cultura se tornam cada dia mais presentes.

Eloy Polemico, Msor e Estranho / Foto: Crônicas Produções

Discípulos da sonoridade Boom Bap, Tadeu Msor, Sergio Estranho, DJ Tadela e Eloy Polemico surgem na cena em meados de 2017 com estilo autêntico, carregando a bandeira do underground que nunca deixou de existir.

Batemos um papo com o Eloy Polemico pra entender melhor sobre o surgimento da banca, a forma de produção, trampos individuais e do coletivo, referências musicais, métodos de vendas de beats… enfim, é muita ideia envolvida.

Vem com a gente conhecer mais sobre o trabalho dessa galera de muito talento!

Kalamidade: Como vocês, individual e coletivamente têm lidado com a quarentena? Existiu espaço para criar nesse período que estamos vivendo?

Eloy: Foi difícil pois boa parte da nossa renda vem de produzir artistas. Quase tivemos que abandonar o espaço porque não era possível atender clientes e alguns outros que tínhamos também foram afetados pela pandemia. Com isso perdemos uma grande parcela deles e acabamos ficando apenas com royalties e, por não sermos do mainstream, não conseguimos nos virar apenas com isso.

A respeito das produções, nós conseguimos continuar criando bastante. Eu, Eloy Polemico, tenho um modus operandi muito criativo. Estou sempre tendo novas ideias para vídeo clipe, pensando em temas para novas composições. É a forma que a gente vive, então nesse ponto não mudou muito pra nós.

Rancho Mont Gomer

K: De onde surge o nome Rancho Mont Gomer e o alce como símbolo da banca?

E: Naquela época cada um fazia suas produções nas respectivas casas. Num determinado momento começamos a nos reunir na casa do Tadeu pra iniciar esse projeto até então sem nome. Nessa busca o Tadeu contou uma história que o local onde morava era chamado de “rancho” pelos antigos amigos do tio dele, que tinha o apelido de Montgomery – nome do alce de um desenho animado que fez sucesso no Brasil nos anos 80 chamado “The Get Along Gang”, conhecido por aqui como “Nossa Turma” ou “Gangue do Barulho”.

Pensamos que esse seria um nome interessante e que fugiria da ideia de associar o nome do selo a algo musical, o que pra nós seria clichê. Aí surgiu “Rancho Montgomery”. Mas era difícil de falar então mudamos para “Rancho Mont Gomer”, que soa melhor e mais brasileiro, além de ser mais simples de dizer.

K: O que veio primeiro pra cada um, a produção ou as rimas? Como foi desse começo até o nascimento do rancho?

E: Acho que as produções. Pelo menos pra mim. Eu estudei no Cardoso e na mesma época o Emicida estudava lá. Eu no primeiro colegial e ele no terceiro. Nos intervalos as salas se juntavam e ele estava SEMPRE rimando. Eu sempre curtia muito fazer beatbox porque percebia que os MCs se empolgavam mais pra fazer as rimas. Como eu não tinha habilidade no freestyle então queria fazer o beatbox.

Eloy Polemico / Foto: Lado Sujo da Frequência

Nessa época eu conhecia um programa chamado eJay Hip Hop. Esse software permitia você sequenciar uns loops prontos e isso era divertido porque parecia um jogo. Nessa eu fiquei viciado nisso e pensava se era assim que os caras faziam as batidas. O Emicida tinha me falado do Fruit Loops 7 e fui atrás. Isso em 2005 ou 2006. Quando eu olhei a interface fiquei travadão, e naquela época não tinha tutorial igual hoje. Foi ai que comecei a baixar uns beats da internet pra poder rimar e me desenvolver. Peguei coisa do Premier, do Nottz e de vários outros beatmakers dessa época ai. Eu lembro que gravava naqueles mics de PC de tubo bem antigueira.

Uma dessas guias acabou chegando num parceiro Diogo, DJ Smile, que tocava em vários rolês e conhecia muita gente. Ele gostou bastante dessa rima mas eu sentia que não tinha tudo isso que ele via. Nessa ele me ensinou a mexer no Fruit Loops e aí sim eu fiquei vidradão. Isso já era 2010, então fiquei de 2006 até esse ano só escrevendo em beat free. Desde então tô ai sem parar produzindo muita gente e produzindo meus discos. A gente tenta se desenvolver pra vários lados.

Conforme o tempo foi passando eu fui fuçando e aprendendo, então senti a necessidade de melhorar os equipamentos e fui gravando com mais qualidade. Aí fui lançando meus trabalhos e acabei participando do Rap Box e as coisas ficaram mais loucas. Na época fechei com uma gravadora do Joe Sujera com o Lester e o Nakarato mas acabou não dando certo pra gravar meu disco, então fui pro Di Responsa começar a gravar, nesse meio tempo criei o Rancho e terminei esse trabalho lá. E desde 2016 pra cá estamos dando as escaladas com o selo.

K: Quantos artistas já passaram pelo Rancho?

E: Nossa que pergunta difícil! Vamos lá: Kamau, M16, Nego Max, já veio um mano da África que foi gravar um som com uma banda de Reggae, Brisa Flow, Bianca Hoffman, DJ Batata Killa, Jay Beats, DJ Tadela que fundou o Rancho conosco, Davzera, o Adonai, Gigante no Mic e o Boneco. Nessa lista faltou muita gente. Foram tantas pessoas que acabamos nem conseguindo lembrar de cabeça.

K: A mixtape “A Procura da Batida Rancheira Vol I” traz uma sonoridade bem Boom Bap com influências de Jazz Rap e aquelas produções clássicas nova iorquinas. Essa estética está muito presente também no Vol II. Na hora da produção quais as principais referências de vocês?

E: Pra sermos sinceros somos crias do Boom Bap. Gostamos muito de batidas dançantes. Little Brothers, Rakim, 50 cent do mainstream. Ultimamente rola bastante Anderson Paak, SiR. Na influência da produção é muito DJ Premier principalmente.

É muita coisa que temos de referência que quando vamos criar, tá tudo ali. Não podemos dizer que especificamente tal coisa influenciou nisso ou naquilo, saca? Gostamos de música boa, de Michael Jackson a Iron Maiden.

K: Por falar nos trabalhos do selo, vocês comentaram há um tempo sobre a vontade de fazer uma mixtape visual. Como anda esse projeto?

E: Ainda temos o interesse em fazer essa mixtape, mas no momento estamos travados nos nosso projetos individuais. O Tadeu tá com um disco, Estranho tá produzindo um disco e ainda tá com um projeto paralelo chamado “Rap Delivery”, eu tô com o meu também. Então isso segue um pouco travado mas após lançarmos tudo isso vamos focar nesse projeto.

K: Como funciona o processo de criação do grupo? Vocês três produzem os beats juntos ou alguém já traz pronto? No caso das letras, o processo de escrita é coletivo?

E: É muito ampla a forma como produzimos. Conseguimos fazer isso de forma conjunta e separada. As vezes estamos juntos produzindo e um sente a necessidade de encaixar alguma coisa, aí chega outro e mete um gravão. Tem beat que todos chegaram a colocar a mão. Mas na hora de escrever, geralmente fazemos de forma conjunta. Quando acontece de alguém não conseguir colar a pessoa acaba nem chegando no som.

K: Como vocês enxergam a música? Forma de entretenimento? De protesto?

E: A música é arte e arte é comunicação. Precisamos ter valor nessa comunicação. Vivemos na era da informação em demasia e, se não colocarmos valor no que falamos, vamos compactuar com essa cachoeira de palavras sendo ditas em vão. Acho que esse é o modo como eu enxergo a arte.

Preciso colocar valor naquilo que estou comunicando pra não compactuar com um esvaziamento das palavras. Também considero arte um entretenimento, mas é possível fazê-lo de forma que suas palavras não sejam em vão?

K: Como lidam quando tem algum desencontro de ideias? Como vocês definem os caminhos que os trampos vão tomar?

E: A gente debate e discute muito. As vezes ficamos até dias em discussão do que é melhor ou não até alguém ceder. O Estranho tenta ver todos os lados, mas o Tadeu e eu somos mais teimosos. Então esses debates são geralmente entre nós e o Estranho fica mais de acordo com o que a maioria decidir.

K: Pensando nos trampos individuais, o quanto um influencia no corre do outro e vice-versa? Como vocês se organizam pra administrar as caminhadas individuais e do selo?

E: É bem interessante falar sobre o quanto um influencia no corre do outro. Porque o Tadeu é um cara muito esforçado. Ele estuda muito, se dedica e é perfeccionista. Já o Estranho executa muito rápido o que tem pra fazer. As ideias dele são certeiras e quando ele fala é de uma forma maestral. Eu me sinto inspirado de inúmeras formas por quem nos cerca. A Drika as vezes tá no meio da bagunça ali no estúdio e é super focada e organizada. Então são esses detalhes que acabam influenciando.

Em relação à organização nós sempre fazemos reuniões e decidimos o que será lançado primeiro no canal do Rancho. Existe um cronograma pra lançamentos. Estamos tentando ser cada vez mais organizados a cada dia que passa.

Capa da mixtape “A Procura da Batida Rancheira 2”

K: Escutando a sonoridade do grupo é quase impossível não reparar que o Boom bap é a linha condutora do som de você. Além do Boom Bap, como vocês se relacionam com as outras vertentes da musicalidade do Hip-Hop, como Trap, Crunk e Drill, por exemplo?

E: Estamos sempre tentando nos reinventar, sabe? Sempre testando coisas novas. Tem muita coisa que fazemos que não é nenhum desses estilos mas parece algo de tudo isso. Estamos sempre tentando ouvir e compreender a comunicação das novas vertentes que o Hip-Hop traz. Nós não nos prendemos à uma estética. Ao longo de tudo que lançamos têm coisas mais eletrônicas, algumas mais melódicas, outras mais antiquadas.

Acho que isso de experimentarmos é mostrar pra galera mais tradicional que só ouve Rap que temos mais bagagem do que estão acostumados. Isso pode ser até um pouco prejudicial pois podemos perder ouvintes nessa caminhada, então estamos sempre com esse pensamento em mente.

K: Uma das discussões mais presentes no Rap hoje é a valorização e formalização dos beatmakers. Como você enxerga essa temática? Qual a importância disso na hora de fechar uma produção ou vender uma obra?

E: Essa questão dos beatmakers ainda vai demorar, porque a condição do país é absurda. Vivemos um momento em que o pacote de arroz está R$7,00. Você sabe que seu trabalho vale R$500,00, fora a cobrança dos royalties. Mas se você colocar essas burocracias necessárias para se profissionalizar, você acaba não trabalhando. Então o comércio tá na informalidade. Você é obrigado a se adaptar ao mercado e ao mesmo tempo educar essas pessoas que vem através desse mercado informal.

É isso que tentamos fazer. Quando alguém vem comprar beat nós explicamos todo o procedimento que essa pessoa precisa saber. Ou seja, ela tá pagando o valor pela exclusividade do instrumental, ela vai ter o beat aberto em pistas em tantos minutos, quem vai gravar essa pessoa pode manipular o instrumental da forma que achar necessário na mixagem e a porcentagem dos royalties para quem fez a batida. E é nesse ponto que o bicho pega, porque na grande maioria das vezes a pessoa questiona sobre dividir em 50% com quem produziu. Aí acabamos negociando para fechar a venda e ter um retorno, que é o mínimo. Por isso seguimos educando mais e mais artistas.

K: Recentemente tivemos o Mc e produtor niLL assinando totalmente o disco do rapper Matéria Prima no disco Visão. Futuramente podemos ter o Rancho assinando como produtor de algum(a) MC? É um objetivo do coletivo?

E: Com certeza! O Rancho produz e já produziu muitos artistas. Além disso nós já nos produzimos, então isso já vai acontecer aí. Mas é um plano nosso fechar com outros artistas num futuro sim.

K: Quais os próximos trabalhos a serem lançados pelo selo? E pela carreira individual?

E: Já demos um spoiler acima, mas está pra sair os discos solos de cada um do Rancho. O meu disco vai se chamar “Aku Aku”, fazendo alusão ao personagem do Crash Bandicoot. Mais pra frente vou explicar melhor o nome e o porquê dele.

Está pra sair também o disco do Tadeu. A capa já está sendo produzida e vai ter uma produção artística muito foda. Os beats tão sensacionais. Ele tá vindo bem modernão. Com certeza vocês vão curtir.

E também está pra chegar o disco do Estranho, chamado “O Idiota”. O nome faz alusão ao livro de Dostoiévski. Mais pra frente ele também vai comentar a respeito dessa escolha e faixas que vão estar presentes.

Então é isso. Tá pra chegar esses três discos ai. Em 2021 vocês que se preparem!

K: Obrigado pelas ideias e desejamos sempre muito sucesso pro trampo de vocês!

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