Atacantes do asfalto: a histórica relação entre Futebol e Rap

De camisa de time e mic na mão, o Rap nacional carrega o Futebol na caneta e no coração

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Por: João Rafael Venâncio

No Brasil, é comum o futebol estar relacionado a tudo. A paixão nacional move multidões – mesmo numa pandemia, bom dizer – e seus fãs costumam levar o esporte com eles para todos os cantos, independente do que fazem.

Uma camisa, um acessório, ou até mesmo uma tatuagem são itens muito corriqueiros entre as pessoas que gostam do esporte bretão. Porém, quando você ama o esporte e o Rap, as suas referências podem ir além disso.

Na quinta-feira (11) o Corinthians lançou a música “Tropa do Corinthians”. O projeto conta com uma constelação do Trap nacional. Jé Santiago, Bone, Fleezus, Kuririn, Veigh, Onnika e Dfideliz. Nomes de destaque que tiveram a Direção de Jef Delgado, aliaram o gênero musical e a cultura urbana ao clube, que tem um de seus apelidos como “Time do Povo”.

Porém, justamente por serem presentes constantemente na rotina da periferia, futebol e Rap andam juntos, e esse time do Trap não será o primeiro grupo de fanáticos a fazer um som carregado de referências sobre os times.

A camisa do Santos

Quem nunca cantou que sujaram o seu boné branco e amassaram a camisa do Santos? Pois é. O Racionais, maior grupo da história do Rap nacional, dá um banho de referências ao Alvinegro Praiano no fim dos anos 90. No aclamado álbum Sobrevivendo no Inferno, em duas músicas, o grupo faz referências à equipe.

Que caras chato, ó!
Quinze pras onze, eu nem fui muito longe
E os homi embaçou
Revirou os banco, amassou meu boné branco
Sujou minha camisa do Santos

Racionais MCs – Qual Mentira Vou Acreditar

Além do clássico de “Qual Mentira Vou Acreditar”, ainda há “Rapaz Comum”, faixa na qual KL Jay usa um jogo do Santos como intro para a música. No VMB de 1998, além de premiações pelo álbum, o grupo fez uma performance de “Capítulo 4 Versículo 3”, com Mano Brown portando um moletom em alusão ao time da Vila Belmiro.

Ainda na mesma época, dois rappers faziam sucesso com outro clube alvinegro: o Corinthians. Negra Li e Sabotage se tornaram ícones do Coringão com o decorrer do tempo. Sabota virou até matéria na Record, quando a emissora foi com o rapper para um jogo do Timão.

Com Negra Li e Rappin Hood, a relação é mais próxima. Rappin Hood, inclusive foi mestre de cerimônias da apresentação de Ronaldo, em 2008, quando o Fenômeno acertou com o Corinthians. Os dois estiveram também presentes em uma versão de Rap do Hino do Corinthians, em 2010, ano do centenário do clube.

Negra Li também esteve em um dos momentos recentes mais importantes da história do clube. Ela foi mestre de cerimônias numa live no aniversário do clube, em 2020, em celebração ao aniversário de 110 anos do Corinthians, além de anunciar o acordo entre a empresa e o grupo Hypera Pharma, que comprou os direitos pelo nome e batizou a Neo Química Arena, em Itaquera.

A nova safra

Mas entre o começo dos anos 2000 e 2020, quem pensa que essa relação ficou só entre os artistas da velha guarda, se enganou. Na última década, tivemos grandes crossovers entre o Rap e o futebol.

Emicida nunca escondeu sua admiração e sua torcida pelo Santos. Mas, as parcerias com Neymar ficaram marcadas com a consolidação do artista no cenário, não só no Rap, mas para a cultura nacional.

Em 2012, Emicida lançou “Doozicabraba e a Revolução Silenciosa”. O álbum, na visão deste jornalista, foi um ponto de mudança na carreira do rapper. E no clipe de “Zica, Vai Lá!”, os dois contracenam juntos, com o, até então, menino Ney treinando o Zica para as batalhas dentro do vídeo.

Mais tarde, em 2014, com todo o hype para a Copa do Mundo no Brasil, o single “País do Futebol” foi lançado, em parceria com MC Guimê. A música estourou e, em seu clipe, novamente tivemos a parceria entre os dois, com Neymar contracenando com os artistas e com as crianças.

Essa nova safra do Rap nacional conseguiu aderir uma nova ferramenta ao rap: as camisas de time. Por estar presente na molecada e no povo, e também por terem as marcas sempre presentes, a peça faz parte dos kits de diversos MCs da cena.

Febem lançou seu álbum “Running”, com a música “Camisa de Time”, e em 2020, lançou “Brime”, álbum que tem como capa o zagueiro Chicão disputando bola com o belga Eden Hazard, no Mundial de Clubes de 2012. No mesmo ano, Djonga lançou Histórias da Minha Área. A capa do álbum é composta por Djonga e amigos em pé, vivos, todos com seus fardamentos de time; enquanto os mortos estavam na capa sem vestir camiseta ou algo do tipo.

Quando o oposto acontece

Nos acostumamos a ver a situação dos MCs referenciando times e clubes. Mas é legal falarmos quando os clubes ou pessoas do meio procuram os rappers. O Palmeiras, desde que começou o seu vínculo com a Puma, tem Rincon Sapiência como figura constante em apresentações de uniformes e peças publicitárias envolvendo o time. Rincon é fã de futebol, usa e abusa das referências ao esporte e é palmeirense assumido.

Uma combinação aleatória que surgiu recentemente foi a de Ronaldinho Gaúcho com o Trap. O seu projeto Tropa do Bruxo atraiu fãs da música e do esporte para seus clipes. Até agora, três sons já foram lançados desde dezembro: “Oclin e Evoque”, com Djonga, Sidoka e MC Rick; “Rolê Aleatório”, com a Recayd Mob e “Magia Preta”, com Yunk Vino, Young Mascka e Dalua.

É bom lembrar que Ronaldinho Gaúcho é cantor e compositor, e já se aventurou em outros ritmos em épocas anteriores, com parcerias com Dennis DJ, Wesley Safadão e João Lucas e Marcelo.

Além da “Tropa do Corinthians” e do “Rolê Aleatório”, os integrantes da Recayd Mob Jé Santiago e Dfideliz também estiveram envolvidos em outro lançamento recente envolvendo a dobradinha deste texto: a música “9”, que teve seu clipe gravado no Maracanã e foi feita para um documentário da Globoplay sobre Gabigol, que se tornou ídolo do Flamengo, time de maior torcida do Brasil. Gabigol, inclusive, é amigo pessoal dos membros da Mob mais pesada do Brasil, e também foi citado na música “Búzios” e também na faixa “Nigo”, na mixtape “Oni”, de MC Igu.

Fato é que, com o microfone na mão ou com a bola na rede, as pessoas aguardam de maneira ansiosa para que tudo volte logo ao normal, para curtirem seus artistas favoritos e seu time do coração da melhor forma possível!

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