Brime

Letal, pique Romário: como BRIME! devorou a arte londrina

O trampo se apropria da arte londrina e constrói algo mais forte e genuinamente brasileiro

Por: Giovanna Toledo

Centro de São Paulo, o palco da Semana da Arte Moderna e do BRIME!

Em 1922 as ruas do centro histórico de São Paulo pulsavam o desejo por uma arte brasileira através da Semana da Arte Moderna. Hoje, podemos dizer que em tempos pré-pandêmicos as ruas transbordavam com a existência dessa arte propriamente brasileira em festas e bares. Sei que uma série de manifestações artísticas cumprem fortemente esse papel, mas há uma em específico que parece transpirar os ideais antropofágicos antes colocados pelo escritor modernista Oswald de Andrade em seu manifesto.

O BRIME!, álbum lançado por CESRV, Febem e Fleezus, se apropria da arte europeia, a engole – como já mostra a capa do disco – e faz algo incrível, proporcionando uma experiência potente, viva e muito particular.

Neste EP, no lugar de um complexo de vira lata – que muitas vezes assola as terras tupiniquins – nós obtemos uma celebração da arte que é criada pelo outro, não como forma de considerá-la superior, mas sim, trazendo-a para nós e fazendo algo novo a partir dela, se reconhecendo no outro e fazendo algo mais forte surgir desse encontro.

A arte é a ferramenta mais potente para nos propiciar bons encontros e isso com certeza experienciamos ao ouvir o BRIME!, que nos leva para as ruas de São Paulo – ruas essas que tem também um pouco das ruas de Londres.

Como BRIME! é um exemplo de antropofagia?

O Manifesto Antropófago surge pós semana da arte moderna em 1928 com uma proposta ousada do escritor Oswald de Andrade que buscava substituir a ideia de sujeito colonizado pelo canibal. A questão que surgia aqui era se libertar desse local passivo em relação à Europa, se libertar das amarras que nos colonizavam num âmbito espacial e cultural.

No lugar disso, devemos descolonizar nossa fala, nossas cores, nossa forma e nossa arte! Daí surge a ideia do canibal, aquele que vai se apropriar do inimigo, engoli-lo para assim se tornar mais forte. O nome “antropófago” faz referência aos rituais indígenas nos quais determinada tribo se alimentava com as cinzas dos inimigos mortos para se apoderar de seus poderes.

E como isso se conecta com o BRIME!?

De primeira, na capa vemos Hazard – do Chelsea, time londrino – sendo facilmente desarmado por Chicão, jogador do Corinthians – que é de São Paulo. Agora a arte brasileira também desarma a europeia, mas com isso não precisa torná-la inferior. Corinthians e Chelsea eram adversários grandes, mas havia a crença de que o futebol maior estava no time europeu, assim como por muito se acreditou que a verdadeira música estava no estrangeiro. Em ambos os casos não podiam estar mais errados. A vitória brasileira no jogo se deu por um caminho semelhante com a música, não imaginavam que pudéssemos ocupar esse lugar, mas o ocupamos!

O retrato desse espetáculo pode representar também a facilidade com que o rap paulistano vai se apropriar da cultura londrina para construir algo mais forte e genuinamente brasileiro. O objetivo do Manifesto Antropófago era garantir que artistas não simplesmente copiassem a forma e o conteúdo da arte europeia e a chamasse de brasileira apenas por se situar em nossas terras.

Pelo contrário: a proposta de Oswald era nos apropriarmos daquela arte para criar algo nosso em conteúdo e forma. Isso também se observa em BRIME!, que conseguiu trazer com um grime paulista que se mistura com outros traços e ritmos da nossa cultura e fala sobre o cotidiano que nós enxergamos no nosso dia a dia.

Isso é percebido na forma e nas histórias contadas: aquilo saiu de um lugar semelhante ao nosso, no terceiro mundo, que não é mais o mundo colonizado, mas sim, a fábrica de Marighella.

No momento pós semana da arte moderna, os artistas foram convidados a usarem, por exemplo, os traços do cubismo mas agora adicionando uma inspiração da natureza brasileira e também as cores que representam nosso país, sem ter medo das cores fortes e vibrantes.

No BRIME!, vemos um movimento parecido, além do próprio nome que já mostra a deglutição da cultura europeia que perde sua inicial para dar lugar à nossa, encontramos também a batida do funk paulista e carioca, as conversas com o sotaque característico, a mistura de sonoridades e as letras que narram a São Paulo. A cidade que antes ficou conhecida como Paulicéia Desvairada a partir de Mario de Andrade – também escritor modernista – hoje se apresenta como São Paulo selva, Tony Country Yin Yang.

Às margens do Brasil e da Europa: agora ouvimos outras vozes!

É importante destacar que, nos pontos trazidos acima, o BRIME! se conecta com o movimento proposto pelo Modernismo brasileiro. No entanto, há um aspecto que os separa: Oswald de Andrade e os outros artistas modernistas direcionavam uma crítica a burguesia e viam com maus olhos os costumes e conservadorismos desse grupo da sociedade, mas, de certo modo, eles ainda faziam parte da elite paulistana e estavam se apropriando da arte de uma elite europeia.

No cenário do BRIME! isso se rompe. Temos um grupo que vive à margem da sociedade – fora da elite, fora do que é considerado erudito ou belo pelo senso comum e rompendo com os costumes conservadores. Esse grupo também se apropria de uma arte que vive à margem da sociedade europeia. A troca aqui é outra e isso nos possibilita uma experiência diferente, a partir de narrativas que antes não eram ouvidas por grande parte da sociedade.

Quem fala com a gente nesse álbum são pessoas que enxergamos na rua e no rolê que a música toca, FEBEM, Fleezus e CESRV conseguem se comunicar e fazer com que aqueles meninos e meninas que ouvem a música se enxerguem também neles. A crítica não é somente contra a burguesia na teoria, mas na prática.

Arrisco dizer que o BRIME! é um dos exemplos mais claros de como podemos nos influenciar de algo de maneira ativa, de como podemos nos fortalecer do outro para criar algo inventivo que seja nosso. O centro de São Paulo ainda pulsa por uma arte do Brasil e a partir do Brasil, mas agora isso não está somente nos locais reservados para uma elite. Está nos bares, no som dos carros, nos fones de ouvido e nas festas que gritam e assim afirmam que a arte está ali.

No documentário Amarelo – É tudo para ontem, Emicida diz que o real objetivo do modernismo foi reivindicar que o Brasil fosse mais samba. Pensando no caminho que foi percorrido de lá até aqui e em tantos nomes que fizeram do Brasil mais samba, CESRV, Febem e Fleezus, com letras e ritmos, tornam a arte do Brasil mais BRIME!, abrindo espaço para que outros artistas façam o mesmo.
 
BRIME! foi um respiro antes do inesperado ano pandêmico. Resta o desejo de celebrar o fim dessa crise com ele também, afinal a arte brasileira também é sobre celebrar o encontro com o outro!

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