Cesar contra Drizzy na final do Duelo Nacional de 2017
Do viaduto Santa Tereza para o Duelo Nacional de MCs / Foto: Pablo Bernardo

Duelo de MCs: saiba como nasceu o maior duelo do mundo

Duelo de MCs de BH completa 13 anos e competição nacional, em novo formato, reúne o maior número de MCs da história do evento.

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Praça da Estação: onde tudo começou

Hoje, Minas Gerais é o lugar que eu considero, não só considero, mas posso afirmar que é o lugar mais importante pra cultura Hip-Hop – Djonga

Tudo começou em agosto de 2007, na Praça Rui Barbosa na região central de Belo Horizonte. Mais conhecida como Praça da Estação, por estar em frente ao prédio da antiga estação da Estrada de Ferro Central do Brasil. Essa praça foi a porta de entrada de toda a matéria prima utilizada na construção da nova capital de Minas Gerais, no final do século XIX. No século XXI, esse mesmo local foi a porta de entrada para a criação do maior duelo de MCs do mundo.

Duelo de MCs começou em 2007 na Praça da Estação,

Em 2007 um grupo de amigos do coletivo Família de Rua queria criar um ponto de referência no centro para que as pessoas que estavam interessadas em praticar suas rimas pudessem se encontrar. O Família de Rua é uma organização que acredita na essência da cultura e das manifestações artísticas urbanas. O coletivo trabalha com foco na promoção da cultura Hip-Hop e do skate em seus moldes originais, preservando a originalidade e a força presentes na arte e no estilo de vida daqueles que respiram a rua cotidianamente.

Família de Rua trabalha com foco na cultura do Hip-Hop e do skate em BH / Foto: Pablo Bernardo

Foi na calçada do antigo Miguilim Cultural, onde hoje fica o Centro de Referência da Juventude, que nasceu o Duelo de MCs, com um roda de rimas que ocupou por 4 ou 5 meses a Praça da Estação. Antes do Duelo, durante a década de 1990, a produção artística das periferias de BH fez história na Praça da Estação com o BH Canta e Dança, festival realizado pelo MC Pelé que reunia anualmente mais de 5 mil pessoas. Dessas produções e eventos de artistas do Rap, Soul, Funk, nasceram grandes nomes da cena mineira.

Em 2007, durante uma das sextas-feiras do Duelo, um grupo de 20 pessoas que ocupavam a Praça da Estação foi retirado pela Guarda Municipal. Surgiu então a necessidade de encontrar outro local para receber a vontade e disposição daqueles jovens para agregar algo novo para a cultura local. Próxima estação: Viaduto Santa Tereza.

A felicidade tem casa: Viaduto Santa Tereza

O Duelo de MCs, para mim, é o começo de tudo, é minha casa, onde dei meus primeiros passos na cultura do Hip-Hop, onde comecei a conhecer as coisas. Se eu não tivesse colado no Duelo, ainda adolescente, provavelmente eu não faria Rap – Clara Lima

Tombado como patrimônio cultural de BH na década de 1990, o Viaduto Santa Tereza é um dos símbolos da capital. Construído em 1929, e imortalizado na obra “Encontro Marcado”, do escritor mineiro Fernando Sabino, o Viaduto faz ligação com o bairro Santa Tereza, um dos maiores centros culturais da cidade.

Viaduto Santa Tereza durante a final do Duelo de MCs Nacional de 2017 / Foto: Pablo Bernardo

Famoso pela intensa vida noturna, rodeado por diversos bares e restaurantes, o local é um conhecido palco de shows, mostras e eventos, além de ser o berço de grandes talentos musicais como Sepultura e Skank, além do Clube da Esquina. Não poderia ser outro o local escolhido pelo Família de Rua para abrigar, por 13 anos, uma das aglomerações mais representativas da cultura brasileira, o Duelo de MCs.

A instalação do Duelo no Viaduto Santa Tereza fez com que o local se tornasse ponto de encontro para as pessoas se reunirem e divulgarem outros movimentos. Em pouco tempo, dezenas de coletivos da Grande BH passaram a se organizar para realizar batalhas de rimas, batalhas de DJs, eventos de dança, saraus, entre vários outros eventos, como o Quarteirão do Soul.

Final do Duelo de MCs Nacional de 2017 / Foto: Pablo Bernardo

Duelo de MCs Nacional

A importância do Duelo vem da associação da rapaziada de BH sobre ocupação do espaço público e a insistência para fazer acontecer, com as próprias mãos, sem depender de governo. Vai além do Hip-Hop, é um acontecimento político fundamental na cultura da cidade – Hot

Por cinco anos o Duelo de MCs fez o seu nome na cena mineira, e passou a receber cada vez mais olhares atenciosos de toda a cena nacional. Esse foi um dos motivos para que, em 2012, o evento decidisse ampliar as possibilidades e realizar a primeira edição do Duelo de MCs Nacional. Nesse momento, começa a caminhada para conseguir articular batalhas Brasil afora.

Grandes nomes do Duelo de MCs Nacional

O Duelo Nacional se tornou um marco para o Hip-Hop brasileiro. Em sete edições, o projeto passou por todas as regiões do país e recebeu grandes nomes da cultura em seu palco, como: Djonga, FBC, Cris SNJ, Tamara Franklin, Emicida, Rappin Hood, Marechal, DJ Nyack, Matéria Prima, Potencial 3, DJ Roger Dee, Slim Rimografia, Gustavo Pontual, Bruno BO, DJ Erick Jay, Melanina MCs, DV Tribo, Rico Dalasam, entre outros.

Emicida e Rappin Hood no Duelo Nacional de 2012 / Foto: Pablo Bernardo

Nas duas primeiras edições do Duelo Nacional, em 2012 e 2013, a vitória ficou com o mineiro Douglas Din. Em 2014, quem venceu foi o MC Larício Gonzaga, da cidade de Lauro de Freitas, na Bahia. No ano seguinte, em 2015, a conquista foi para o Rio de Janeiro, consagrando o MC Orochi como campeão. O brasiliense Sid foi quem venceu a disputa em 2016, levando o título para o Distrito Federal. Cesar, que veio de Vitória, foi quem levou em 2017, colocando o Espírito Santo de vez no mapa das batalhas no Brasil. De Dourados, no Mato Grosso do Sul, o MC Miliano venceu em 2018. E em 2019 quem levou foi o MC Charles do Ceará, que detém o atual título de campeão nacional.

MC Charles, campeão de 2019 do Duelo Nacional / Foto: Pablo Bernardo

Em 2019, depois de 12 anos, a batalha de rimas voltou para o espaço onde tudo começou com 20 pessoas e um som portátil. Realizada como parte oficial das comemorações dos 122 anos de BH, a final do Duelo de MCs Nacional de 2019 não seria suportada pelo espaço do Viaduto Santa Tereza. O enorme fluxo de pessoas impactou os organizadores, assim como a grande receptividade do evento.

A voz da rua ninguém cala

Quando a gente vê o Duelo, quando a gente vê toda a movimentação que o Família de Rua faz, a gente percebe que o Hip-Hop tá vivo – Tássia Reis

O impacto no meio artístico foi, e continua sendo, sentido com força pelas consequências da pandemia. A classe encontrou no meio on-line, soluções temporárias para apresentações em formatos de live, enquanto os eventos presenciais estavam impedidos. Dessa mesma forma, o Duelo Nacional encontrou o seu caminho para que as vozes da rua continuassem a ser ouvidas.

A temporada 2020 do maior encontro de Hip-Hop do Brasil começou com um grito de resistência no ano em que uma pandemia assola o mundo, e teve que passar por adaptações para sua 9ª edição. Os organizadores dizem que não foi uma missão simples, principalmente pela essência do Duelo se fortalecer com os encontros que a rua proporciona.

Desafios do duelo de MC´s na pandemia

Apesar do desafio, o Duelo Nacional está acontecendo e dando aulas em todos os quesitos de eventos de Hip-Hop. Atualmente ele acontece contando com a participação de 416 MCs, de 25 estados e do Distrito Federal. Em outubro, novembro e dezembro, as seletivas estaduais ecoaram a cultura do norte ao sul do país.

Com 26 encontros, sempre realizados aos fins de semana, 8 MCs duelam semanalmente por uma vaga na final. As seletivas acontecem em estúdios profissionais, sem público, cumprindo as orientações sanitárias e protocolos de segurança necessárias para o contexto da pandemia. As transmissões das batalhas rolam ao vivo no Twitch da Família de Rua, e além da decisão de dois jurados, o público também pode votar pelo chat da transmissão e escolher os MCs que querem ver na final. Os registros das seletivas ficam disponíveis na íntegra no canal do YouTube do Família de Rua.

Seletiva de Pernambuco para o Duelo Nacional de 2020

De acordo com a organização, cada estado fez uma curadoria para chegar em 16 nomes que foram para votação popular e júri técnico, para chegar aos oito nomes que estão batalhando em cada estado. Foram garantidas duas vagas para mulheres em cada estado. Teremos então um campeão ou campeã em cada estado, com 26 finalistas. Os outros seis finalistas virão da repescagem, somando 32, o dobro dos anos anteriores.

A organização promete uma grande celebração para a final do Duelo Nacional de 2020, com um encontro em BH nos dias 30 e 31 de janeiro, sem público, mas com transmissão ao vivo.

O maior Duelo do mundo

Ver tantos sonhos assim em cima do palco, o bagulho emociona, me arrepiei ali várias vezes, de ver o olho da galera brilhando, emocionado, podendo ter toda essa estrutura pra mandar a sua ideia, falar de onde veio, representar sua terra, sua cultura – Rapadura

Entre as curiosidades do Duelo Nacional, podemos destacar Orochi como o MC mais novo a ganhar o Nacional, sendo campeão na edição de 2015 aos 16 anos. Enquanto isso, Black, MC Baiano que tem se destacado cada vez mais na cena nacional, foi o participante mais novo do Duelo Nacional, competindo com apenas 13 anos.

Marechal na final do Duelo Nacional de 2013 / Foto: Pablo Bernardo

Entre os duelos de maior destaque do Nacional, César x Drizzy, a final de 2017, é até o momento, o vídeo mais visto do Nacional. O duelo épico que deu o título para o MC de Vitória, acumula mais de 6 milhões de visualizações, sendo referência quando o assunto é Duelo Nacional.

Em Janeiro de 2020, sob patrocínio da Budweiser, Djonga lançou o single “Sexta”, produzido pelo Coyote, e apresentado no palco do festival Planeta Brasil, no Mineirão. A música reuniu versos e tweets do público sobre o Viaduto Santa Tereza e o movimento da cultura Hip-Hop na capital, e conta um pouco da história do “maior duelo do mundo” pela voz de um dos seus crias.

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