“Do for love”, Tupac
“Do for love”, Tupac

É crucial que o rap fale de/sobre amor

Isto é uma defesa às lovesongs. (?)

AfiliadoAcme Inc.

Por: Matheus Morais Inácio

Esse texto nasce de uma percepção que ando tendo a tempos sobre como o Djonga retrata relações, principalmente vindo das músicas “Geminiano” e “Verdades inventadas”, tal qual virou outra coisa, mas não deixou de existir, são textos diferentes, alguma hora sai.

De qualquer forma, eu percebi que era mais importante engrandecer a ideia do que ser específico e, então, eu cheguei ao amor como afeto mais potente e o rap, pra mim, o maior meio de comunicação, política e potência ativa no contemporâneo. Com isso em mãos, pedi pra bell hooks me olhar lá de trás pra ver se tô fazendo certo.

E com bell hooks no artigo “O amor como a prática da liberdade”, explicito:

A consciência é central para o processo de amor como a prática da liberdade.

bell hooks

Com essa frase de bell hooks, traz-se ao diálogo, duas coisas imprescindíveis a expressão do rap, a liberdade e a consciência. E o amor?

O rap é alicerce constituinte do que é o hip-hop, o que eu compreendo não só como um movimento revolucionário, mas, também como uma ética de vida, um ethos, que em seu cerne, desde de sua gênese, é um movimento de contracultura a cultura hegemônica rica, eugenista, racista e tudo aquilo que já estamos cansados de saber, portanto, uma ética de vida que não é passiva ou acomodada, muito pelo contrário, é altiva e ativa, pois, pensando no âmago de uma pergunta político-social-existencial “por que o hip hop existe?” eu ouso concatenar numa simplória frase: Existe porquê eu afirmo a minha existência frente a tudo isso que tenta negar que eu existo.

Quem é o “eu” que afirma a existência na expressão do rap? A população pobre, preta, marginalizada, favela — não só, pois, como parte da cultura, o sentido de identificação de outras especificidades de minorias se relacionam — e, claro, eu compreendo as problemáticas de interpretação do movimento, mas não falo da interpretação — não agora — falo da essência. O hip-hop nasce nessa necessidade e perpetua essa afirmação ainda que com as intempéries.

O rap é compreendido como um gênero raivoso demais, explícito demais, violento demais e essas características notadas são obviamente verdade. É tudo isso porque necessita ser, é sobre apontar o dedo na ferida pra tentar fechar a ferida ou evitar-se o máximo ser ferido, seja eu ou o meu semelhante. Comunidade. É ato puro de transpassar a sobrevivência pra escancarar como é a vivência da sobrevivência. A batida ser parte básica do rap não é à toa. É ação de luta desde pequeno. É claro que a raiva e indignação são combustíveis. Mas, de novo: Tá, mas e o amor?

Num texto de Rafael Trindade, no site Razão Inadequada, citando Negri, diz:

Para Antonio Negri, o amor constitui, dá consistência, cria caminhos, ele é a abertura do ser para o novo, o constante processo de criação infinita do ser. Sem amor, não adianta, simplesmente não é possível. (…) De que serve um amor se ele não mudar o mundo? De que serve um amor se ele não recriar o mundo? (…)

Bom, o amor tá e sempre esteve lá, vide desde o “gangsta rap”, na era de Tupac e Biggie, lembrado principalmente pela violência, gangues, drogas, denúncia num sentido geral, há algum espaço para as necessárias falas sobre amor. Mano Brown, principal bastião do rap brasileiro e símbolo de resistência de classe e raça, junto ao grupo Racionais MC’s diz em entrevista ao “Le Diplomatique” que ele quer falar de amor — e fez isso bravamente em seu álbum solo “Boogie Naipe”.

 KamauRashidProjota, a segunda onda do boom do rap brasileiro, em todos os álbuns e em muitos singles, tem também o espaço para as músicas de amor e, agora, nesses tempos que vivemos evidenciação gigantesca que o rap tem hoje em dia em todos os sentidos — mesmo com as mãos moralistas na tentativa de sufocar — com Djonga, Bivolt, BK’, etc. não tem como dizer que pra além de todo o “rap de mensagem”, talvez seja, também, a era das tais “lovesongs”, portanto, o amor sempre esteve na linha de frente da luta e não como exceção ou escudo.

E agora sim, eu falo sobre interpretação, ainda que estejamos falando de essência:

A ideia de que o amor significa a nossa expansão no sentido de nutrir nosso crescimento espiritual ou o de outra pessoa, me ajuda a crescer por afirmar que o amor é uma ação. Essa definição é importante para os negros porque não enfatiza o aspecto material do nosso bem-estar. Ao mesmo tempo que conhecemos nossas necessidades materiais, também precisamos atender às nossas necessidades emocionais. Gosto muito daquele trecho da bíblia, nos “Provérbios”, que diz: “Um jantar de ervas, onde existe amor, é melhor que uma bandeja de prata cheia de ódio

bell hooks, vivendo de amor

O amor é uma ação. O amor é um afeto e uma ação. O amor é ativo, movimento. Há de se perceber o amor não como mágico ou resignado, é parte fundamental de qualquer luta, revolução e expressividade. Vide Martin Luther King Jr, vide a propria bell hooks. Pra além da compreensão da ira como combustível motriz, o amor é tão motriz quanto.

bell hooks, em seu texto “vivendo e amor”, dita como a expressão amorosa das pessoas pretas, desde a escravidão, vem sendo absolutamente torturada e destruída, num projeto que dura mais de séculos, portanto, pra nóis, é foda perceber que é difícil pra caralho amar. Dar, receber, doar, investir, movimentar, esforçar, se deliciar…

De um lado, um desencaixe, principalmente na atualidade que é clara que vivemos a era da decepção do amor romântico, esse hollywoodiano-estadunidense-branco-classe-média do outro lado, meu povo, um povo preto que que quero amar, que amo, mas há de se ter um cuidado porquê a pele ainda dói. Isso fazendo uma divisão bruta e esdrúxula do sentimento de perdição, óbvio que não é dicotômico assim… Ou pode ser também.

Interpreto a realidade e as linhas do tempo como um momento de aprendizagem. Aprendizagem essa que é sobre resgate do que é um amor decolonizado e uma criação de um novo amor ou pelo menos a potência dessa possibilidade.

E o rap, como já dito anteriormente, é, a meu ver a forma de arte e revolução mais atualizada, expressiva e contemporânea, portanto, com todo essa potência e também poder, o rap tem, muito, que falar de amor, falar sobre amor, contar amor, cantar amor, afirmar amor e que bom que faz isso pois, como diz, novamente, bell hooks 

As pessoas querem saber como começar a prática de amar. Para mim, é onde a educação para a consciência crítica deve entrar

É no amor que abrimos as identidades, permitimos outras formas do ser se constituir sem modelos pré-determinados, sem formas apertadas e claustrofóbicas! É no amor que a diferença se articula sem perder-se e sem limitar-se! Ele abre, sem perder-se, ele ganha velocidade, sem desintegrar-se. É no amor, para concluir, que nos tornamos nômades, parados ou em movimento! Só ele permite abandonar o isolamento e compreender-se como elemento dentro da natureza, abandonando ilusões de onipotência e encontrando o real, a imanência e a produção contínua de vida.

afetos (bio)políticos — amor, Rafael Lauro, razão inadequada

Nessa geração atual que ouvimos, há muito dessa expansão do sentimento de amor que, enfim, denota a vulnerabilidade — não fragilidade — não só como um ser-instrumento-de-guerra, mas, sim, demasiadamente humano. Há de citar, pra ilustração aguda disso, por exemplo, o álbum “AmarElo” de Emicida e não só o álbum em si, mas tudo que é esse modo de expressão, sobre que “não falar das cicatrizes”, mas, falar do amor aos amigos, a família, as crianças, as alegrias da vida adulta. Ou então Djonga com as músicas pra mãe, pra esposa, pra filha, pra vó, pro filho ou o próprio álbum “Histórias da minha área” que é uma declaração a quebrada que viveu e vive.

Usufruo desses dois exemplos pela facilidade da compreensão do tamanho que isso é e o quão importante é que esse afeto faça parte da construção revolucionária. Transpassa o sentido de fazer “lovesongs”, pois, não só um amor declaratório e/ou romântico, mas como o afeto que potencializa a continuar vivendo. Mas, nunca esquecendo as lovesongs, pois, são gostosas demais.

E é claro, não discurso todas essas palavras aqui sem compreender que esse amor dito aqui seja puritano demais ou ingênuo demais. Compreendo o que perpassa isso em prática, em questão que falar de amor soe como uma chacota quando se tem machismo, hiperssexualização, hipocrisia e afins que vem no meio, todavia, não hei de condenar o afeto por ser afeto e sim, subverter, apontar, e revolucionar o sujeito sempre, pois “o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”, diz Che Guevara.

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