tulio cipo
Foto por @leobicalhog7

Túlio Cipó eleva o game da sua quebrada com cinema e música

Diretor de Fotografia e dono da produtora Babilonya Film Music, Túlio traz a cara do cinema para a música, dirigindo clipes premiados na cena.

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Salve, rapa! Gustavo por aqui, dessa vez com uma entrevista que eu fico muito feliz de trazer para o site do Kalamidade, esse espaço voltado para fomentar o Hip-Hop e a cultura urbana lançando luz sobre o trabalho de DJs, produtores musicais e audiovisuais, beatmakers, designers e fotógrafos.

Por aqui a gente busca voltar o foco para elementos que fazem parte da construção das obras que amamos, como samples, referências musicais e todo o corre “por trás” dos trampos. E hoje o papo é sobre fotografia na música, trazendo a visão de um cara que eu sou fã e que representa com muita identidade a força da cultura artística mineira e nacional. Estou falando de Túlio Cipó!

Túlio Cipó por @edelenco

Diretor de Fotografia, dono da produtora Babilonya Film Music, responsável por dirigir clipes premiados de artistas como Djonga, Matéria Prima, Kadu dos Anjos, Iza Sabino, Hot e Oreia, Edgar, MC Rick, e muitos outros, Túlio é o responsável por trazer a cara do cinema para a música.

Tive a oportunidade foda de trocar uma porrada de ideia com esse mano muito firmeza, e trazer para vocês as visões, vivências, histórias, revoltas e progressos da trajetória desse artista, que faz um corre cabuloso na busca por elevar o game e trazer a riqueza cultural para os corações da sua quebrada. Na voz, Túlio Cipó!

Começo do corre

Kalamidade: Pra começar nosso papo, acho que vendo o seus trabalhos mais recentes com nomes de muito destaque na cena do rap nacional como Matéria Prima, Djonga, Hot e Oreia, Iza Sabino, Edgar. Você trabalha o conceito da música com a linguagem cinematográfica, fica a curiosidade de como começou essa sua ligação com as duas artes: cinema e música. Na sua trajetória com o cinema até chegar a esse posto de Diretor de Fotografia, como o rap se tornou parte dessa sua atuação?

Túlio Cipó: O meu rolê com a música foi bem massa, porque o meu irmão de sangue DMS, grafiteiro de Belo Horizonte, é músico e cantava rap. Então eu hoje com 33 anos já tava envolvido com o rap desde os 11, já rolava naquela época uns raps no Prado [bairro da região oeste de BH], eu era jogador de basquete, e vindo de família negra a gente tá desde o berço no rap.

O basquete também sempre esteve presente na minha vida. Joguei em time profissional durante cinco anos morando em São Paulo, e chegou em um momento que eu já tava há muito tempo fora de casa, saí de casa com 15 anos, aí com 21 eu resolvi parar no basquete. Eu tava jogando o NBB [Novo Basquete Brasil, liga nacional de basquete] e resolvi parar pra mexer com câmera. Só que a minha família sempre muito humilde, a gente não é de perifa, a gente veio do centro, minha mãe é do Vale do Jequitinhonha [nordeste mineiro] e meu pai de BH, e nós crescemos no centro, então a gente não tinha condição de pagar faculdade.

Quando eu parei de jogar eu tinha na minha cabeça que eu queria mexer com câmera, e em todo rolê do basquete, todo jogo, todas as casas que eu morei em São Paulo eu era o cara da música. O cara que tem uma caixa de som, que tem um celular que tocava um som direito, coisa rara na época. Quando lançou o mp3 eu já lancei um também, então eu era sempre o cara que tava dançando, cantando, curtindo o rolê, indo em shows. Ia em todos os shows do Racionais, RZO, Quinto Andar, em São Paulo, BH. Meu irmão abriu show dos Racionais, fazia vários shows também.

E aí com essa junção da vontade de mexer com câmera e parar de jogar basquete eu me inscrevi na faculdade de Jornalismo e começou meu universo. Pra pagar a faculdade um tio meu ajudou, falou “vamos comprar umas caixas de som, você gosta de música, você vai é ser DJ velho, vai botar som em festa de 15 anos, casamento”. Aí eu montei a Cipó Audiovisual, uma empresa de som que pagou minha faculdade, a primeira empresa que eu tive.

Logo no primeiro semestre eu meti uns quatro cursos de edição de vídeo, direção de fotografia e uma porrada de coisa, isso em 2010. Aí eu fui vendo, entendendo quais eram as possibilidades com câmera, eu sabia que queria Cinema, mas não tinha condições quando comecei no Jornalismo. No terceiro período eu já tava empregado na área, trabalhava numa agência de publicidade e lá eu montei minha primeira produtora onde comecei a fazer clipe. E meu irmão sempre comigo, eu apoiando os sons dele, fazendo vídeo das artes e grafites dele.

Então nessa cena de BH eu sou amigo da galera há muitos anos, do Matéria, da galera toda do rap das antiga, e assim aconteceu essa junção do cinema com a música.

Premiações internacionais

K: Em janeiro teve o lançamento do clipe do single Carro de Boy, do Edgar com o Rico Dalasam, que é um trabalho sensacional e nas suas palavras, “iluminado”. E no mês passado o clipe foi selecionado pra concorrer na categoria International Competition do 2º Los Angeles International Music Video Festival. Como foi a produção desse trabalho, que conta uma história real de uma vizinha do Edgar, né?

T: Foi uma parada muito louca, porque eu conheci o Edgar de uma forma muito do caralho. A Babilonya, que é hoje minha produtora surgiu da junção com minha esposa, produtora de cinema cabulosa. A gente se juntou e falou “vamos comprar uma Kombi, fazer um motorhome, que vai ser nossa base de trabalho”. A gente tinha na cabeça de sair pelo mundo fazendo clipe.

Em dezembro de 2018 nós conseguimos concluir esse projeto, pegamos a Kombi em BH, cortamos o litoral, o nordeste inteiro, até o Rio Grande do Norte. Ficamos três meses viajando, rodamos um filme e dois clipes. Na volta desse rolê paramos em Salvador e acabamos conhecendo o Edgar num show dele, num rolê foda, e rolou esse groove.

O primeiro trabalho que a gente fez com o Edgar ainda não foi lançado, vai ser um mega lançamento da Babilonya, vai sair daqui uns dias, você vai ficar meio de cara com o rolê, porque nós filmamos uma maquete, criamos todo mundo e colocamos na maquete, filmei todo mundo em chroma, enfim. Carro de Boy então foi o segundo trabalho que nós fizemos, o primeiro a gente nem lançou ainda.

E aí o Edgar me contou dessa música, fez o roteiro, eu gosto de ter essa abertura, artista chega em casa aqui. Então não tem ego, aqui o ego é controlado (risos). Então o artista chega e dirige comigo, esse é o rolê, porque é aí que sai a parada original, não adianta eu falar que tenho um roteiro aqui se eu não conheço o cara direito, e nesse processo a gente vai conhecendo realmente a pessoa. E o Edgar foi amor à primeira vista, o cara é foda, vem pra cá direto na casa da gente e fica aqui de bobeira.

Carro de Boy foi uma parada muito bem estruturada, foi um namoro muito grande que rolou entre a gente, porque era um roteiro muito difícil de ser reproduzido, não é um roteiro fácil, não é uma história fácil de ver em um clipe, mas veio o Edgar com a loucura dele falou “não velho, vamo”, e eu mais louco ainda, abracei a causa e fui. A gente teve uma verba muito baixa na época, nós rebolamos legal pra fazer o rolê acontecer, juntamos uma equipe de parceiros, conseguimos os melhores equipamentos e fizemos uma imersão aqui em BH.

Foi muito louco, veio o Rico e o Edgar pra cá, dormiram na Babilonya uns três dias e a gente fez uma imersão cabulosa de produção, foi muito verdadeiro aquilo.

Projetos e a produtora Babilonya Film Music

K: Falando sobre mais um trampo seu de 2020, dia 13 de março saiu o quarto álbum do Djonga, “Histórias da Minha Área”, e como parte do trabalho tem o clipe da faixa Hoje Não, com a sua direção. Esse foi o seu segundo trabalho com o Djonga, depois de Deus e Família com o Delano e o MC Hariel, e você diz que sem dúvida foi um dos trabalhos mais responsa da sua vida. Como se desenvolveu esse clipe? Contou com o roteiro do próprio Djonga, e as técnicas que você e a equipe pensaram e aplicaram pra esse trabalho, certo?

Túlio Cipó: Djonga foi uma parada muito louca porque eu tinha vários amigos em comum com ele e nunca groovava assim, todo mundo falava de mim pra ele, dele pra mim, e quando o trem rolou foi muito massa porque foi o Delano que me apresentou. Eu sou amigo da família do Delano, porque a gente tem um amigo em comum, que estudou comigo e conhecia ele lá do Santa Maria, e eu sou louco com favela, não posso ver uma favela que tô rolando no chão, esse corona me quebrou por falar nisso (risos).

Aí o Delano chegou lá em casa um dia com uma Porsche dele, uma Cayenne, eu morava na boca do morro, na Serra. Ele me ligou “mano, tô chegando aí pra trocar uma ideia com você”, e chegou com essa música, parou a Porsche dele, cheio de fã na porta, vi ele descendo, aquele trem todo. Aí ele entrou e falou “mano, tô com essa música aqui com Djonga e Hariel”, falei “caralho irmão, que é isso, bora!”.

No mesmo dia conheci um bar na Praça do Cardoso, que é o fluxo do funk, do rolê de favela de BH, e levei ele no coração do rolê, abri a locação, roteirizei, em dois dias tava rodando Deus e Família. No dia seguinte que nós filmamos o clipe tava pronto no celular de cada um deles, isso foi o trem mais louco que aconteceu na vida porque eu nunca fiz isso, eu tava tão ansioso em trabalhar com os caras que quando rolou eu falei “não vou deixar isso passar nem fudendo!”.

E foi muito massa, o Hariel é um cara muito foda, trombamos com ele em São Paulo depois, e isso abriu as portas. Veio depois MC Rick com um clipe que nós fizemos da música Saudade que estourou pra caralho, e Deus e Família foi o grande precursor da Babilonya, hoje eu considero esse clipe o trabalho mais importante pra te falar a verdade, foi lá que nós lançamos a produtora, e aí veio o Djonga.

Aí tem gente que critica o funk, critica pichação, mas se isso tá rolando, é porque é o grito máximo da galera. Porque ninguém se preocupou em educar essa galera?

Túlio Cipó, em entrevista pro Kalamidade

Túlio Cipó: Depois de Deus e Família, o Coyote, que era amigo do meu irmão das antiga, me chamou pra ir na casa dele trocar uma ideia e me falou “mano nós tamo indo pro estúdio gravar o novo disco, e eu queria que você fizesse um filme, um doc disso”, aí eu “opa, beleza, tenho esse projeto aqui Coyote, posso fazer, que é o Babilonya Film Music”. Quando eu vi tava dentro do estúdio com os caras, e o resultado foi o filme E aí Coyote, que conta a história de vida do Coyote e a gravação do Histórias da Minha Área, um dos trabalhos mais massa que eu fiz de realização de projeto pessoal, junto ao Quanto tempo hein, Kdu? do Kdu dos Anjos, esses formatos são o que eu busco para a Babilonya, music film, cabuloso.

Aí eu tava no ninho deles, no Sonastério, um estúdio que eu já tenho parceria aqui em BH e lá nasceu Hoje Não, eu escutando o som, os caras gravando, filmando, fazendo o rolê todo acontecer, aí eu já falei pro Djonga “esse aí é meu mano. Esse Hoje Não aí é meu”. Então o processo foi tranquilo, porque a gente se conheceu direito e ele viu que a qualidade era outro rolê, câmera, luz, ação, cinemão rolando na frente dele e ele falou “caralho”. E eu sempre com os meus brother, meus braços do cinema eu não largo nem fudendo, sou fielzão a eles, à minha mulher que faz a parada girar, é a engrenagem do rolê, tudo que a gente pensa e executa tem mão dela, e meus parça que eu vou chamando, vou revezando, mas sempre do cinema.

O trabalho com o Djonga é muito massa, porque ele lança três, quatro ideias, eu roteirizo tudo e entrego o produto pra ele. A gente trabalha junto assim: roteiro é dele, ideias dele, eu dou vida pro rolê e a gente dirige junto. Então foi super fluido, acabou a gravação do CD a gente já marcou e organizou tudo, levantamos equipe, fizemos estrutura de tudo, e o trampo foi sensacional, foi uma vibe ótima, linda.

E agora nós estamos indo pro terceiro lançamento que é a maior produção que nós já fizemos na história de BH eu acho. Um rolê muito foda.

K: A sua produtora Babilonya Film Music, que como vocês mesmos dizem, busca proporcionar encontros musicais e cinematográficos. Como vocês aplicam o conceito de cinema na música, junto a essa identidade das artes urbanas, que os trabalhos da Babilonya carregam?

T: Babilonya é fruto de um projeto de anos, desde a minha faculdade. Pra você ter ideia, há uns três meses eu me toquei que o produto principal da Babilonya, o music film, algo inédito nas produtoras de Belo Horizonte, é exatamente o meu projeto de TCC da faculdade, só com outro nome.

Ela nasceu com Deus e Família, partiu da minha junção com a Marcela Recchioni, que hoje é minha esposa, e produtora executiva de cinema, tem vários filmes e prêmios nas costas, além de ser a engrenagem do rolê, a pessoa que faz a parada acontecer. Eu sou o Diretor e Diretor de Fotografia que pira no rolê, que põe as ideias, que teoriza e executa. Eu venho do rolê musical mas tenho esse rolê de filme em mim também.

Eu faço muitos filmes, longas, curtas, séries, vários trabalhos massa aí rolando, e venho da publicidade também. Hoje em dia a gente acredita na Babilonya como um potencial pra gente viver disso mesmo, pra elevar o game, pra seguir na evolução junto com Djonga, junto com Hot e Oreia, com quem tiver disposto a evoluir na música, esse é o nosso rolê. Nossa ideia é colocar o cinema junto com a música, trazendo esse requinte todo da publicidade.

Eu ainda faço muita propaganda massa também, já fotografei propaganda da Jeep, Colgate, Coca Cola, que é o que paga minhas contas, é o que faz eu comprar minhas lentes. Graças a Deus isso já me levou pra África, já ganhei Cannes com isso, acho que sou o segundo Diretor de Fotografia de BH que tem um Cannes. Tenho prêmio em Hollywood no Film Race, tem Festival do Minuto.

A Babilonya começou como um parque de diversão também, um laboratório mesmo, porque na música você pode experimentar técnicas sem medo, efeito, cor, fotografia, movimento de câmera, porque as paradas têm mais chance de dar certo. Enquanto que na publicidade você tem que ir com uma ideia certa, e num longa um erro pode cagar um filme inteiro, além de ter mais grana envolvida, então experimentar nesses rolês é mais difícil.

A gente quer botar o nosso olhar cinematográfico, que é um conteúdo altamente peculiar, com toda a estética, todo o cuidado que o cinema e a publicidade têm, a gente traz pro videoclipe. Quebrar aquele padrão de ser sempre na tora, sempre “ah, ficou assim porque é o que deu”, com a gente não tem isso. Nós vamos atrás do perfeito até estarmos satisfeitos.

Estamos aí há um ano e meio, e a gente apoia também muita causa, muita gente das quebradas, nossos brothers. A gente faz muito trampo de graça mesmo pra elevar o game, porque ninguém evolui sozinho, então Babilonya tem esse espírito coletivo também. Quem tem pra pagar e quer o melhor, chega aí. Quem não tem também, a gente conversa, troca uma ideia e chega num acordo.

Em breve, o próximo passo da Babilonya é o lançamento do canal. Grande expectativa nossa pra poder dedicar mais a isso, ter um canal nosso, que aí a gente pode fazer nossos trem de graça, negociar. Tem que entender ainda o formato, nós estamos entendendo ainda, mas esse é o próximo passo.

A gente tem muita sorte aqui, porque estamos cercados de brothers das antiga, que além de sermos apaixonados uns pelos outros aqui, estão sempre levando gente na produtora pra conhecer, é uma loucura. O espaço é muito massa, todo grafitado, várias telas do meu irmão. Esses dias mesmo chegou a Mac Julia do nada lá, outro dia chegou a Karol Conka, foi surreal. Meu brother chegou “velho, chega aí, tô na porta, que cê tá arrumando?” eu falei “tô na Babilonya, editando” e ele “então abre a porta aí pra mim, faz favor”, era Kadu dos Anjos e Karol Conka.

Então Babilonya é isso, é uma experiência também, uma troca de experiência que a gente quer. Os nossos sets de filmagem são paradas mágicas, a gente convida as pessoas que estão trabalhando ali no set pra entrar no mundo de Nárnia mesmo. A gente abre a porta do armário e fala “bora pirar, fi”. 

Tem jeito de tirar a cabeça de um cara, o policial vai estar sem cabeça, que é o caso do Hoje Não. Você vai cantar pra arma. Nós vamos colocar um grip gigante, uma estrutura cabulosa na sua Porsche e não vai ter um arranhão. É desse naipe que a gente pensa. Evolução. O jogo não tá ganho, é um leão por dia. É muito amor, muita energia dedicada no rolê pra fazer a parada acontecer e estamos só no início. Vamos decolar junto com a galera.

K: Tanto nos seus trabalhos individuais, quanto nos trampos pela produtora, é sempre evidente a abordagem de temas como diversidade, saúde mental, genocídio do povo preto, violência contra a mulher, violência contra LGBTQIA+, e vários outros temas políticos e relevantes, com uma sensibilidade artística e cinematográfica. Qual a importância e o papel do cinema e da música no enfrentamento e popularização de questões como as exploradas nos seus trampos?

T: Cara, você chegou em um ponto com essa pergunta que eu até arrepiei. Fico feliz demais de você ter reparado isso, porque é realmente o que eu penso. O meu ninho é de puro corre, não tive nada fácil na vida e eu sei o que é ser oprimido, o que é bullying, o que é perseguição policial, o que é favela. Então se eu não lutar por essas pessoas que são oprimidas pelo sistema, quem vai lutar por mim quando eu precisar? Eu penso dessa forma, é Deus entregando com uma mão e nós divide com a outra. Porque quem realmente precisa a gente às vezes nem se toca, pode estar do nosso lado, podemos ser nós mesmos.

Então esse rolê é a minha veia, eu tenho essa parada de apoiar os oprimidos sim, dar oportunidade pra eles, pra nós, porque eu fui um desses também um dia, só rompi essa barreira quando eu comecei a trampar demais, comecei a aparecer. Nunca tive grana, nunca tive luxo. Meu pai e minha mãe me deram uma educação sensacional, me jogaram no mundão e falaram “agora vai”.

E entendendo todo o rolê é complicado, porque eu vejo muita gente se suicidando, já perdi vários amigos, vários no mundo da droga tanto como usuário quanto traficante, e essas pessoas têm que ver que nós somos muito mais do que isso. O que o sistema quer é ver nós pretos, os gays, os doentes mentais, todos mortos, porque pra eles é despesa. Nós temos é que provar pra esses caras que a gente gera nossa própria gasolina, igual o Edgar fala “É a favela gerando a sua própria gasolina”.

A gente não precisa dessa galera não mano, essa galera só pega a grana deles e fala “valeu”. Eles usam do meu olhar, dos meus equipamentos, da minha experiência pra poder vender. Tem dia que eu tô dentro da Vale, fazendo propaganda pra Vale, infelizmente eu tenho que viver isso, pra ter condição de dividir com meus irmãos. Por isso que essa onda de fazer clipe de graça, de fazer o rolê acontecer. Eu quero um dia estar pagando a galera pra fazer o rolê acontecer.

Porque o corre do Djonga muda vida no mundo inteiro. Não vai ser propaganda, politicagem, que vai salvar essas vidas. Se não for a gente que vive o rolê, que sabe onde tá a treta, real, se não for nós pra fazer a parada acontecer não vai ser ninguém. Esses caras vão sumir e a gente nem vai saber deles. Eles vão se matar entre eles por falta de cultura, por falta de informação, por falta de estudo e por falta de oportunidade. Então essa galera eu defendo com unhas e dentes. Nos meus sets de filmagem eu busco ter toda essa galera trampando comigo também, valorizo pra caralho.

Cultura e próximos projetos

K: Mano você mesmo diz que “A cultura é algo que enriquece o espírito humano”, e a gente tá passando por um momento cada vez mais pesado principalmente para a cultura e o entretenimento. Como você vê e sente a importância dessa sua atuação, e de tantos outros parceiros e parceiras, que trabalham, amam e vivem da cultura nesse momento específico do país?

T: Isso é algo que eu aprendi na faculdade com a Escola de Frankfurt. A gente tem dois modelos que regem as teorias da comunicação: a Escola de Frankfurt, que é um conceito mais cultural, que põe o espectador pra refletir, indagar, questionar sobre o que se observa. E a Escola de modelo americano que é essa porcaria que a gente vive no Brasil, que te entrega tudo mastigado. Você não tem nem o direito de pensar sobre.

A grade das emissoras por exemplo, são todas pensadas no modelo da escola americana, que é o modelo capitalista perfeito pra formar pessoas que não pensam. Desde a hora que a pessoa acorda ela tem toda uma programação na grade da televisão que simplesmente é ingerida sem reflexão, por pessoas que depois cospem essa informação que nem foi processada. Um grande resultado da escola americana são as fake news que tanto vemos hoje.

Então se a gente parar de fomentar a cultura, se não tiver nada correndo contra as grandes famílias que regem os veículos de comunicação, nós vamos ser uma massa grande de robôs, e vamos perder ainda mais gente. 

67% dos jovens do Brasil são de periferia e são pretos. Essa galera não tem ninguém que olhe por eles. Se não for a cultura pra enriquecer o espírito humano dessa galera o governo vai chegar, atropelar, promover genocídio que é o que está acontecendo no nosso país hoje. Eles tão matando a gente velho, e é real.

Polícia, quantas vezes já fui abordado por polícia erroneamente? Quantas vezes eu já fui no funk aqui e polícia chega jogando bomba, só porque é de favela, porque preto não pode divertir? Quantas vezes eu vi baile, com alvará, e a polícia tentando embargar, não deixa passar nem 30 segundos e já dá tiro pro alto? Isso é cultura cara.

Aí tem gente que critica o funk, critica pichação, mas se isso tá rolando, é porque é o grito máximo da galera. Porque ninguém se preocupou em educar essa galera? Nós temos que botar é fé e esperança no coração da galera. Por isso que eu apoio o funk, sim! Quero elevar o game com a galera.

Você pode não gostar da minha arte, mas eu te garanto que ela movimenta uma galera, que vê aquilo e tem a vida realmente transformada, isso é cultura. E eu não descanso mano, enquanto eu não ver uma parada na minha frente sendo modificada. Uma galera, uma cidade, um estilo. Eu quero fazer parte desse game pra trazer uma rapa comigo! Quando eu vejo um clipe meu com 30, 50 milhões de visualizações, porra, isso é foda bicho. Eu fico feliz é pra caralho, não paga Cannes que eu tenho com publicidade, não paga prêmio Hollywood.

Prêmio, grana, eu fico mesmo é satisfeito quando eu vejo os comentários dos clipes “Mudou minha vida. Saí da depressão”. O 188 do Das Quebradas com a Fernanda Takai não tem muita visualização mas rodou de diversas formas salvando vidas. O clipe do Douglas Din, Yellow, mudou vidas, salva vidas mesmo, e é real.

K: Pra fechar, queria saber quais são os próximos encontros de cinema e música que podemos esperar de Túlio Cipó daqui pra frente? Quais os próximos projetos que você pode compartilhar com a gente?

T: Mano, próximo projeto é dia 30, tem o lançamento sensacional da música Procuro Alguém, do Djonga. Outra bem massa que vai rolar também é o lançamento do Edgar, além do canal da Babilonya. E é isso, tamo aí plantando pra colher junto e a parada vai acontecer. Já está acontecendo né, tenho muito a agradecer já e agora é continuar a luta.

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