Alessandro Buzo e Ferréz

Sobre Literatura e Hip-Hop: dois dedos de prosa

A literatura marginal periférica, assim como o Hip-Hop, nasce como uma resposta à necessidade de organizar o caos.

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A literatura marginal/periférica é uma das facetas do quinto elemento do Hip-Hop: o conhecimento.  Essa afirmação é a hipótese que me leva a escrever, por isso, o foco deste texto é apresentar dois escritores que têm relação íntima com o Hip-Hop, Ferréz e Alessandro Buzo. 

A literatura é uma forma de produção e disseminação de conhecimento humano. E a literatura marginal periférica, assim como o Hip-Hop, nasce como uma resposta à necessidade de organizar o caos, denunciar e enfrentar a violência que assola as regiões periféricas. Surge também com a intenção de ser uma voz divergente, de se contrapor às imagens criadas pela grande mídia sobre os espaços e sujeitos periféricos.

O que é literatura marginal/periférica?

É consenso entender como literatura periférica a produção de escritores que se autoafirmam periféricos. E literatura marginal a feita por sujeitos marginalizados, as minorias.  O pesquisador Eleison Leite indica ainda outra divisão, para ele a Literatura Marginal compreende as produções de 2000 a 2005 e Literatura Periférica, a partir de 2005 até os dias atuais, com foco nos saraus.

Onde nasceu a literatura periférica/marginal? 

Ela nasce em diferentes pontos do Brasil, ganhando contornos próprios em cada lugar. No entanto, São Paulo é apontada como seu principal berço. 

Ferréz e Capão Pecado

Ferréz, que também é MC, é um escritor e membro da 1Da Sul, organização concebida nos moldes das Posses de Hip Hop e quem tem diferentes braços, uma marca de roupa, por exemplo.  Autor de Diferentes livros, como Manual Prático do Ódio e Hoje Deus foi Almoçar, é um dos principais nomes da cena pois ajudou a organizar a coletânea Literatura Marginal, que teve 3 edições pela Revista Caros Amigos. Nessas coletâneas podemos conferir nomes de escritores de diferentes lugares do Brasil, anônimos e reconhecidos, como Lima Barreto e Paulo Lins, com destaque para grandes nomes do Rap como Facção Central, GOG, Mano Brown, Negredo e Preto Ghoez.

Capão Pecado
Ferréz – Capão Recado (2000) capa primeira edição

Seu livro Capão Pecado é tido como um dos marcos iniciais desse movimento. O enredo apresenta a história de Rael, personagem que vive no Capão Redondo – bairro que ganhou notoriedade nas vozes dos Racionais Mcs. Na sua primeira edição, em 1999, o livro trazia depoimentos de diferentes personalidades:  Mano Brown, Gaspar, Cascão, Gato Preto, Negredo, Conceito Moral e Outraversão. Na edição publicada em 2016, Ferréz afirma que foi nos show de rap que ele começou a fazer a divulgação de seu livro, e o acolhimento foi imenso, tanto que um MC chegou a supor que Capão Pecado era um álbum. O livro traz ainda fotografias do bairro e de seus moradores, num estilo que lembra as capas de álbuns clássicos. 

Alessandro Buzo – Favela toma conta

Escritor e produtor cultural, Alessandro Buzo, entre outras muitas coisas, colaborou com o extinto programa Manos & Minas, com o quadro Buzão. Recebeu diferentes honras no prêmio Hutuz. Lançou seu primeiro livro em 2000, O trem – baseado em fatos reais, livro que deu origem à música do grupo TREM, do RZO.

Alessandro Buzo – O Trem (2005)

 Buzo criou a primeira livraria dedicada à produção literária da periferia: Suburbano Convicto.  A livraria, que empresta o nome também ao segundo livro de Buzo, foi palco de encontro de grandes escritores, músicos e artistas nos saraus semanais, organizados pelo escritor. 

Buzo também é cineasta, destaque para o filme Profissão MC estrelado pelo então anônimo Criolo Doido, Dan Dan e Da Antiga.  O filme retrata o cotidiano de um MC na busca por sobreviver e viver de sua arte.  Em um de seus livros afirma? “A Literatura e o Hip-Hop Transformaram Minha Vida”, essa é a tônica de suas produções.   O autor está prestes a lançar 5 livros concebidos durante a pandemia. Você pode ler a entrevista dele no Margens, da escritora e jornalista Jéssica Balbino, outra referência na área.  

Da semana de arte moderna da periferia à Festa Literária das Periferias, dos Saraus aos Slams, ainda há muito mais a ser dito sobre a relação entre literatura e hip hop, mas isso ficará para outros textos.

Caso queira saber mais, indico os alguns livros além dos já citados acima:

  • Alejandro Reyes – Vozes dos porões: a literatura periférica/marginal do Brasil;
  • Sérgio Vaz – Cooperifa – Antropofagia Periférica;
  • Allan da Rosa – Reza de Mãe;
  • Mel Duarte (org) – Poemas para ler em voz alta;
  • Erika Peçanha – Vozes marginais na literatura

Agora é sua vez, qual escritor você indica?

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